8 de novembro de 2009

Capítulo 17 - Revelações no Refúgio da Esperança

- Como assim não há mais alguém aqui? – indagou Joana, mirando o cenho preocupado do amado. Tal fisionomia a deixou incomodada. Tinha dúvidas do quanto aquilo poderia ser ruim. – Quer dizer que... naquela hora... alguém fez aquele gás jorrar dentro da sala.

- É a única explicação possível. Entretanto, me parece pouco provável – disse o camponês colocando a mão sobre o queixo, ponderando a veracidade de sua conclusão.

- O que quer dizer?

- Para alguém entrar no Refúgio da Esperança, precisa ser um dos escolhidos para entrar aqui. Esse lugar conta com um sistema de segurança tecnológico que vai além da compreensão da humanidade atual – Neste meio tempo, Joana divisou os momentos em que ela se vira confusa diante de muitas coisas que não sabia o que era e para que servia. Florisval continuou. – Logo, não acho que possa ser qualquer pessoa. Apenas alguém que conhece este lugar sabe como entrar nele. Mas até o Melvin disse que nunca ouvira falar desta base, e muito menos colocara os pés aqui dentro no passado. Significa que os escolhidos a entrar no Refúgio não são apenas aqueles que o construíram, mas também aqueles que receberam uma confiança.

- Florisval, se essa pessoa é mesmo um escolhido como você falou, ele não deveria ser alguém de confiança e que estivesse ao seu lado? – perguntou Joana tirando a conclusão que podia daquela situação.

Mesmo que não tenha em mente a complexidade daquele sistema, ela começava a entender alguma coisa. Afinal, seres humanos são seres adaptáveis em qualquer circunstância. E não é por ela estar num ambiente mais avançado, que sua mente não conseguiria interpretar o que a cercava.

- É. Seria uma boa lógica, mas eu não acredito nisso. Ou melhor dizendo, meu pai não acreditava. Estava na carta que ele me deu.

“Não conte para ninguém, mesmo se um mago aparecer na sua frente.

- Eu nem mesmo podia confiar no Melvin totalmente até perceber o tipo de pessoa que ele era – continuou o floricultor. – Qualquer um que tiver conhecimento deste lugar pode ser bom ou mau.

- Então, o que vamos fazer? – perguntou a jovem, sentindo-se um pouco amedrontada com a situação. Mas tal temor era amenizado pela fidúcia que tinha em seu amado.

- Eu preciso descobrir quem é a pessoa que está aqui. Ele não pode ter entrado sem ao menos eu ter notado. Nestes últimos dias, os únicos que estiveram na base foram apenas eu; o Glin, na noite passada; e você e o Melvin agora – Florisval suspirou, e olhou determinadamente para a ponte sobre eles que ligava os dois lados daquele paraíso cheio de flores. – Só tem um lugar aonde posso descobrir onde o intruso se encontra: na sala de segurança. – Ele então se voltou para a namorada. – Venha comigo. Vamos subir até a ponte.

Dito isso, ele e Joana precipitaram-se até o elevador. Na segunda vez em que utilizou aquele transporte, a jovem não parecia estar com tanto medo como da primeira vez, até porque, uma preocupação maior rondava sua mente como se algo ruim estivesse prestes a acometê-la. Chegaram na ponte. Saíram do elevador e se posicionaram ao lado do mesmo. Os dois se olharam.

Florisval retirou uma flor Miosótis do bolso de seu colete e a entregou para Joana.

- Eu irei até lá. Joana, você vai direto para a saída. Quanto mais cedo sair deste lugar melhor.

- Mas e quanto a você? – preocupou-se a moça.

- Eu irei até a sala de segurança e verei pelos monitores se encontro o intruso. Além disso, Melvin também está do outro lado. Preciso achá-lo antes que algo ruim caia sobre ele. Esse lugar tem muitos sistemas de defesa bem perigosos pelo o que já li em relatórios. Por isso, você tem que correr o mais rápido possível até a saída. Sabe onde ela fica e como fazer, não sabe?

- É... só pedir a flor para sair, não é? – perguntou Joana, assentindo com a idéia, mas ainda preocupada. Ela pegou a flor e a apertou contra o peito. – Florisval, eu... – dizia hesitantemente com um olhar temeroso. - ... estou com medo. Vai ficar tudo bem, não vai? – ela perguntou.

O floricultor pôde notar o olhar sobressaltado que ela tentava esconder. Num lugar como aquele, e vivenciando uma situação como aquela, era compreensível que ficasse daquele jeito. Mas o medo e a preocupação de Joana era o que Florisval não aceitaria. Ele então sorriu.

- Não se preocupe. Eu ficarei bem. Nós ficaremos bem.

Ele aproximou o seu corpo do dela, e afagou sua mão delicadamente na face assustada da jovem, que foi deixando o temor de lado e se rendendo aquele gesto carinhoso. Florisval então tocou os seus lábios no dela. Mas foi um beijo tão rápido que nenhum dos dois teve tempo de aproveitá-lo, entretanto, foi o suficiente para o floricultor fazer a confiança que ela tinha nele se tornar plena. Joana sentiu naquele momento que tudo acabaria bem.

- Estarei lhe esperando – ela disse devolvendo o olhar afetuoso que recebia.

Florisval então se virou e começou a andar até a porta dupla por onde Melvin entrara. Joana ainda permaneceu com seu olhar observando a imagem de seu amado. Ela queria rumar logo para a saída, mas ficou um momento parada, apenas fitando-o se distanciar.

- Ficaremos juntos – ela disse sorrindo, e pondo-se a andar para o lado oposto.

. . . . . . . . . . . . . . . . . .

Uma das câmeras que jazia naquele imenso lugar cheio de flores mostrava um casal se distanciando um do outro. Tal imagem era levada para uma das telas na sala de segurança. Dois indivíduos observavam a imagem de Joana e Florisval rumando em direções contrárias na ponte. O homem queria adentrar mais na base, enquanto a outra queria sair.

- Será que eles nos descobriram? – perguntou uma voz.

- Eu não sei – respondeu outra pessoa. – Mas de uma forma ou de outra, teremos que abatê-los.

- A mulher parece estar indo para a saída. Florisval a entregou a Miosótis. Enquanto isso, o Guardião parece adentrar nos recintos da base. Ele está vindo atrás do mago ou de nós?

- Quem sabe? Mas não podemos permitir os dois caminhando por aí. Deixaremos o mago por último. Por hora, vamos dar um jeito no recém-casal.

- Eu irei até o Guardião. Você fica aqui e cuida da mulher.

- Oh, isso me soa como uma ordem – falou a pessoa, num tom irônico.

- Por favor, irmão. Eu quero ver a surpresa na expressão dele quando me revelar – proferiu o outro, seguido de uma risada.

Capítulo 17

Revelações no Refúgio

Os passos apressados de Joana reverbavam unicamente pelo corredor que daria para a saída daquela base. Ela divisava o caminho, temerosa com algo que pudesse dar errado. Aquele lugar ainda lhe causava estranhamento e medo.

Virou o corredor onde havia a escada de metal no fim, e a porta para a sala de monitoramento à direita. Ela se precipitou até o final daquele local, porém, após seus primeiros passos, tomou um susto que a fez parar de súbito. Uma mureta metálica saiu da parede lateral e fechou totalmente o corredor na frente de Joana. O estrondo do muro batendo na parede lhe estremeceu.

Com o caminho fechado, ela voltou-se rapidamente para trás, impulsionada pelo medo. Mas quando deu apenas um único passo, mais uma divisória surgiu da parede e fechou o caminho. Ela estava presa.

- O que é isso? O que está havendo?

Logo após suas perguntas proferidas num tom apavorado, ela ouviu um som conhecido há poucos momentos. Novamente, alguns compartimentos estavam sendo erguidos nas duas paredes, e por eles, um gás vermelho foi lançado naquele âmbito recém-formado.

- Oh, não! – desesperou-se Joana pondo a mão da boca enquanto começava a tossir.

Ela sentiu a mesma sensação que sentira quando o mesmo gás fora lançado na sala de monitoramento. Seus pés começaram a vacilar, assim como suas pálpebras que foram se fechando lentamente.

Joana desabou no chão, mas ainda com consciência. Ela conseguiu manter seus olhos semi-abertos por mais alguns instantes, porém, apenas a visão embaçada do gás podia ser visto. Ela arrastou sua mão provida de força pelo chão, e murmurou uma última palavra de preocupação antes de perder a consciência.

- Florisval...

As duas muretas que cerravam o caminho da jovem e a mantinha presa retornaram a parede. Com isso, o gás se dispersou rapidamente após causar o efeito desejável. Joana encontrou-se inconsciente a poucos metros da saída.

Uma câmera de vídeo na parede observara toda a cena.

. . . . . . . . . . . . .

Florisval colocou o rosto ao lado da parede para observar alguma movimentação no próximo corredor. Percebendo o silêncio prevalente naquele lugar, ele saiu de trás da parede e entrou no corredor seguinte.

Toda a cautela era necessária naquela situação. Torcia para que o intruso não estivesse na sala de segurança, que era o local para onde rumava, pois assim, todos os seus passos estariam sendo monitorados pelas câmeras. E por falar nelas, o camponês até encarou uma delas por alguns instantes, imaginando se alguém estaria o vendo.

Mas além de achar o invasor, procurar o mago para avisar de um possível perigo, também era importante. Florisval concluiu que Melvin estaria na ala exclusiva para magos, como ele mencionou antes de se separarem. Se ele realmente estivesse lá, não há nada que o Guardião pudesse fazer já que não possuía autorização para entrar naquele setor.

Florisval chegou ao corredor onde este se dividia em dois: para a esquerda e para a direita. Ele primeiro encostou-se na parede esquerda e analisou o que havia no corredor direito. Estava escuro demais para dircenir alguma coisa ou até mesmo algum movimento. Apenas algumas lâmpadas estavam ligadas e ainda assim, numa claridade mínima. Algo de certo muito estranho, pois Florisval sabia que iluminação naquela área era o menor dos problemas. Significava que alguém havia alterado na parte de luminosidade daquele setor.

O Guardião virou-se de costas e recuou alguns passos para encostar-se na parede da direita e divisar o corredor esquerdo. Assim como o do lado oposto, este também se encontrava na escuridão mais ao fundo. A sala de segurança ficava no corredor da esquerda, mas ele queria checar se haveria alguém em sua retaguarda.

Florisval seguiu pelo corredor que o levaria à sua meta. Executava a caminhada mais sutil e silenciosa possível. Sua visão sempre tentava enxergar alguma coisa na escuridão que encobria toda a extensão do caminho. Até mesmo seus ouvidos procuravam se atentar ao menor dos barulhos.

Foi então que tamanha atenção e cautela valeram à pena. Florisval captou um som vindo de atrás dele. Estava bem fraco, porém, executado em intervalos regulares e cada vez mais audíveis. Passos ecoava no cenário enegrecido, no outro lado do corredor.

- Quem está aí? – perguntou o Guardião vendo a aproximação de alguém.

Os passos ficaram mais fortes ansiando ainda mais o surgimento daquele que o executava. Florisval ficou estático, apenas esperando aquele indivíduo irromper na escuridão.

- Melvin, é você? – perguntou mais uma vez, já que sua pergunta anterior ficara sem resposta. Mas novamente, ouviu apenas os passos como réplica.

Uma silhueta mostrou seu contorno na escuridão e a imagem daquela pessoa se revelou. Florisval arregalou os olhos e ficou inerte com a presença daquela figura. Tal indivíduo que delineou um sorriso afetado.

- Impossível. Você? – disse o camponês, pasmo.

. . . . . . . . . . . . . . . . .

- Eu não acredito – disse Melvin, olhando a figura do pai no televisor. – Não, eu não deveria estar surpreso. Afinal, um lugar desse porte não poderia passar sem o conhecimento do Mago Supremo: aquele que governa Nerus, a cidade dos magos, e todos os que habitam nela. Também responsável por guiar os povos do mundo para uma paz permanente. – Melvin mudou sua fisionomia ao olhar a face do pai que ainda mantinha-se quieta. – Ainda assim, vê-lo de novo é nostálgico pra mim.

- Eu não sei quem é você, ou quem são vocês que estão assistindo este vídeo em alguma época futura – principiou Zailon. – Mas não importa em que tempo esteja, tenho certeza que esse lugar lhe será útil. Apesar de que eu espero muito que não seja necessário usar este local com a mesma intenção de seu nome: Refúgio da Esperança. Tal nome pode nos dar esperança de vencermos algum obstáculo, mas ao mesmo tempo, indica que estão numa situação ruim para ter de usar esse lugar como um refúgio. Eu... – O cenho de Zailon ficou melancólico. -... não quero pensar que guerras de escala mundial estejam acontecendo no futuro. É realmente muito frustrante e lamentável estarmos passando por uma situação dessas. – Zailon suspirou pesadamente e tornou a falar. – Estamos em meio à chamada “Guerra das Energias”. Uma guerra que está envolvendo todo o mundo como há muito não acontece. Dessa vez, os causadores da guerra e os motivos que a levaram foram bem diferentes de outrora. Tenho conhecimento de que é nossa culpa. Culpa dos magos que não souberem fazer o trabalho que o destino lhes incumbiu de realizar. Nós falhamos, e esses erros nos custaram caro. Não só a nós, mas a todos. O resultado disso é que várias raças estão sendo dizimadas. Os reinos humanos estão decaindo. E se continuar assim, eventualmente, não sobrará mais nada neste planeta. Eu não sei qual o rumo que esta guerra tomará, mas espero que seja com um final feliz. E espero que a pessoa que esteja vendo esse vídeo não precise deste lugar para funções bélicas.

Um chamado de “senhor” foi ouvido muito abafado na tela. O olhar de Zailon olhou para alguém de soslaio. Ele fez um gesto de assentimento e prosseguiu.

- Eu não tenho muito tempo. Então explicarei para aqueles que desejam saber a história por trás do Refúgio da Esperança. Não faz muito tempo, o Exército Espectral chegou ao Continente Oeste e arrasou dois reinos menores. Agora há apenas o reino de Nandred ao norte, e Seylor, o reino de maior poderio militar dos Homens, ao sul. Os Espectros desembarcaram no meio do continente, talvez ainda pensando para qual dos reinos a tropa seguiria. Eles então foram para o sul, encaminhando-se para Seylor. A partir daí, o que houve no caminho foram apenas massacres. O Exército Maligno arrasou campos, vilas, cidades, e qualquer coisa que encontrasse pela frente. Quando chegamos ao Continente Oeste, eles já haviam avançado quase a metade do caminho até Seylor, mas ainda assim, tentamos interceptá-los o máximo que podíamos. Não era fácil, pois além dos Espectros, havia dois Lords Malignos com eles: Akiros e Hinaro. O poder deles não é nada comparado ao de Raizen, mas mesmo assim, abatiam facilmente todos os soldados, até mesmo magos de uma forma incrível e avassaladora. Então, reforçamos nossa barreira de tropas que os impedia de avançar para o reino do sul. Em contrapartida, os Espectros começaram a dividir seus exércitos, e por conta disso, também fomos forçados a dividir nossa força de combate. Nós estávamos levando muitas desvantagens, e então tivemos a idéia de criar uma base nas proximidades onde as batalhas estavam sendo travadas. Aproveitamos também que as flores mágicas depositadas no Jardim Secreto de Nerus chegaram ao continente. Eu convoquei todos os Generais em meio à guerra, e deixei os Tenentes distraindo os Exércitos com inúmeras barreiras mágicas consecutivas. Isso nos faria ganhar tempo para construir... o Refúgio da Esperança.

- Esse lugar... – Melvin murmurou.

- Sim. O Refúgio da Esperança foi construído para abrigar os magos que duelaram na Guerra das Energias. Com as flores mágicas guardadas nesse local, a recuperação dos magos em meio à guerra seria rápida e o contra-ataque às tropas inimigas iminente. Entretanto, nem tudo saiu como planejado. Meu intuito não era trazer apenas os Generais para essa base, mas também todos os outros magos. Até descobrirmos que nem todos eram confiáveis. Parece que alguém, além das tropas do Exército Espectral, estava participando sorrateiramente da guerra, sem lutar, sem se ferir, apenas observando e manipulando aqueles que achava necessário estar ao seu lado. Muitos dos nossos magos se corromperam e seguiram os Magos Negros, acreditando que conseguiriam poder e sobrevivência num novo mundo. Pelo menos, foi isso que eu ouvi.

- Magos negros... – sibilou Melvin, rememorando algo no passado que deixou vago, para prestar atenção nas próximas palavras do pai.

- Para criar o Refúgio da Esperança, escolhemos uma área próxima à cidade de Govenrrar, ainda a salvo das tropas malignas. Nós o criamos utilizando o poder habilidoso de um mago construtor, e junto com a inteligência dos midrianos, construímos um lugar de alta tecnologia. O objetivo de toda essa modernidade não era de causar uma sensação estranha e ao mesmo tempo majestosa, mas de facilitar e dividir o acesso de certas áreas a certas pessoas. Como eu havia dito antes, eu apenas convoquei Generais para esta base, e justamente eles que estão sentados nesta sala no momento. Para dar apoio aos nossos batalhões, cada General, responsável por sua própria tropa, levava as flores necessárias para o uso. Assim, cada parte de nosso exército pôde se recuperar facilmente, uma vez que os Generais recorriam a este lugar para levar os remédios feitos das flores, como em alguns casos, para os outros magos. Esse foi o uso principal do Refúgio da Esperança. Ele realmente seria um refúgio se a situação ficasse alarmante. Mas felizmente não foi o caso. No presente momento, as forças espectrais não estão mais no continente, bem como Akiros e Hinaro. O primeiro, morto pelo rei de Seylor, e o segundo, desaparecido. Mas estou deixando esse vídeo, pois quero deixar claro o que foi este lugar com minhas próprias palavras, com o meu ponto de vista, e com minha própria face exposta a quem estiver vendo esse documentário. Eu e os outros magos iremos deixar este local agora, se possível por um bom tempo. Deixaremo-nos sob responsabilidade de um humano muito gentil e responsável. Ele será o Guardião desta base. Qualquer dúvida basta apenas falar com ele.

- Entendo. Então essa é a história – falou Melvin, prestando novamente atenção ao que o outro falava.

- Uma base tão importante como essa, com todas as suas peculiaridades apresentadas, precisa de um forte sistema de segurança. E nisso, contamos com a tecnologia de Midria, uma raça com uma inteligência muito avançada, assim como as técnicas e os costumes diferenciados em sua sociedade. Com tal tecnologia de defesa, o invasor que não conhece - lá se sentirá num lugar hostil onde ele poderá recuar perante as armadilhas para capturá-lo, ou simplesmente tentará se aventurar mais adentro deste complexo, onde as chances de morrer podem ser altas quanto mais dentro ele estiver.

Melvin sabia que Joana sentira tal sensação quando entrara pela primeira vez no lugar. Mas por sorte, nada de ruim acontecera a ela.

- A base tem duas entradas e saídas. A primeira é através da Miosótis, que deve ser usada na casa do Guardião, e assim será aberta uma passagem para o primeiro corredor antes do jardim de flores. Neste corredor, há uma recinto onde o Guardião ou outra pessoa de confiança à ele, ficará observando a região acima da base. Há diversas câmeras espalhadas no campo, na casa, na estrada, na trilha da montanha, e em algumas cavernas, e dentre estas, está a segunda entrada para o Refúgio. Escondido atrás de uma parede secreta há um elevador que desce direto a ponte. Ela é considerada uma entrada e saída de emergência. Mas voltando para a entrada principal na casa do Guardião, há uma porta que apenas poucos podem entrar. O leitor possui em sua memória as impressões digitais de diversos indivíduos de confiança, logo, apenas esses poderão passar. Após essa porta, terá mais uma barreira com mais um componente de segurança. A camada protetora, chamada de Membrana, se encarrega de deixar passar apenas aqueles com o sangue compatível com a identidade. Além das digitais, nossos dados também carregam as informações sanguíneas de cada pessoa. Depois dessas duas defesas, estará o jardim de flores sob a ponte. Para usar o elevador para a saída emergencial, apenas com a impressão digital, assim como a porta de entrada para os recintos do complexo. Em seguida, haverá alguns corredores com algumas salas, cada uma com sua função. Importantes ou não, especificarei apenas uma: a sala de segurança. Esta sala monitora toda a base, contando com as inúmeras câmeras acopladas em diversos lugares. Assim, aquele que estiver como monitor poderá usar os métodos de segurança para impedir a ação de qualquer invasor. Há diferentes artifícios, manuais ou automáticos. Por exemplo, na primeira sala de monitoramento antes da ponte, através de um processo manual, podem-se jogar vários tipos de gases letais ou nem tanto letais. Ou quando uma pessoa não registrada passa pela camada protetora, ela é simplesmente desmoleculizada. Um outro sistema que também é manual, é a segurança da sala exclusiva para magos, onde alguns projetos de robôs com finalidade ofensiva são soltos no recinto principal.

Melvin franziu a testa, mas não por reconhecer que sofrera de tal sistema de segurança momentos antes, mas sim, por este ser ativado manualmente. Ignorando esta dúvida, ele continuou a escutar.

- Na sala de segurança, apenas magos também podem acessar certos dados, assim como certas portas ao longo da base – Uma outra voz interrompeu a fala de Zailon enquanto ele gravava o vídeo. O mesmo desviou o olhar para o lado da câmera.

- Senhor, temos que ir – alertou a outra pessoa no vídeo. Sua voz era adulta, mas tinha uma certa preocupação em seu tom. Zailon assentiu e voltou a fitar a câmera de frente.

- Parece que essa gravação termina aqui. Embora tudo o que eu tenha dito soe no passado como se tudo estivesse tranqüilo, digo-lhe que essa não é a verdade. Ainda estamos em guerra. Mas eu acredito que um dia essas minhas palavras farão sentido, pois acredito no futuro. E falando nele, essa base poderá ser útil. Em uma nova guerra, em uma nova época, esse lugar pode ser novamente usado. Mas quero eu... que isso nunca aconteça. E, eu tenho mais uma coisa a dizer – Zailon parecia relutar em continuar falando. Fitou o chão como se procurasse força para dizer algo. Levantou o olhar e mostrou uma pesada expressão. Melvin fitou bem o pai, algo no semblante melancólica que via, tocou em seu sentimento. – Adeus a todos! – Após a fala carregada de pesar, a tela chiou, e apenas o branco e o cinza puderam ser vistos.

O mago de cabelos lilás ainda olhava para a tela, com a mesma expressão que o pai demonstrara.

- Você sabia... Você sabia que iria morrer, não é, pai? – Melvin abaixou o rosto entristecido. Algumas lembranças surgiram em sua mente. Lembranças de um penhasco tenebroso e lúgubre.

Após recuperar-se de seu estado sorumbático, Melvin voltou-se para a realidade, processando todas as informações que conseguiu por aquele vídeo. Uma delas o perturbava.

“Um outro sistema que também é manual, é a segurança da sala exclusiva para magos, onde alguns projetos de robôs com finalidade ofensiva são soltos no recinto principal.” Lembrou ele, as palavras do pai.

A menção de Joana de ter sido lesada na sala de monitoramento, e a última hostilidade que ele mesmo sofrera há poucos instantes incitaram uma conclusão alarmante.

Essa informação fazia-lhe pensar em algo intrigante.

“Defesas manuais... Isso quer dizer que...”

Após a conclusão, Melvin correu para a saída da sala o mais rápido que pôde. Tinha que ir a sala de segurança naquele exato momento. Passou pelo recinto largo, ignorando o robô ainda quebrado no chão. Algumas câmeras nesta mesma sala viraram-se para a pessoa que corria no meio do recinto. As imagens eram transmitidas para os monitores da sala de segurança e observadas por dois indivíduos.

- Venha, mago – disse um deles.

- Estamos esperando você – completou o outro, soltando uma risada em seguida.

Melvin entrou no corredor correndo determinadamente para a sala que não era muito longe. Poucos segundos depois, após ter virado uma curva à direita, já avistava a porta dupla que teria de entrar.

- Ali!

Colocou o dedo no leitor da porta e ela abriu-se lateralmente. Ele correu até o painel e olhou ao redor da sala. Não havia ninguém. O pique que dera até o lugar deixou-lhe um pouco cansado, mas em seu estado normal aquilo não aconteceria.

Ninguém foi avistado. Melvin era o único indivíduo naquele recinto. Voltou-se para os monitores a fim de encontrar Florisval e Joana. Após rolar os olhos em alguns, impressionou-se com o que achou.

Em um deles, Joana estava estendida no chão do primeiro corredor. Ele não sabia se ela estava morta ou apenas inconsciente, mas deduziu ser a última opção, pois não encontrou ferimentos no corpo dela. Melvin queria ir até a mulher, mas preocupou-se também com o camponês. Se Joana estava naquele estado, onde estaria Florisval, já que ambos estavam juntos há poucos minutos? Não demorou muito para o mago descobrir.

- Florisval! – disse o nome bem alto daquele que viu em um dos corredores próximos a sala de segurança. Melvin deduziu que o camponês estava indo encontrá-lo enquanto Joana estava tentando sair da base.

“Será que foi apenas uma decisão deles, ou eles perceberam que havia mais alguém aqui, e por isso Florisval mandou Joana sair? Faz sentido, pois os dois foram pegos. Mas estão em lugares muito distantes. Será que ele atacou Florisval primeiro, para depois perseguir Joana antes que ela saísse da base. Mas quando foi isso? E o ataque com aqueles robôs? Talvez não seja apenas uma pessoa. Podem ser até mais.”

Enquanto Melvin refletia aquela perigosa situação que se formava, seus olhos procuravam algum movimento nos monitores.

“Ele ou eles ainda devem estar aqui. Afinal, eles não conseguiram me pegar, se é o que tentaram agora há pouco. Talvez seja melhor eu ver Florisval e Joana, mas se eu fizer isso, deixarei esta sala vaga. É por esse lugar que se controla todos os sistemas de defesa.”

- Droga! Não posso sair daqui. O invasor com certeza voltará para esta sala. Apenas assim ele tem controle total da situação.

- Você tem razão – proferiu uma voz naquele mesmo recinto.

- Sim, você tem toda razão – adicionou uma outra voz. Ambos eram tons infantis, mas o mago vagamente reconheceu aquelas falas. – Sabíamos que se fosse inteligente, viria para cá.

- Mas é uma pena que não tenha notado nossa presença aqui – a outra voz falou, rindo um pouco de maneira afetada. – Não é de se surpreender. Afinal, passamos tanto tempo perto de você, e nunca notou nada.

Melvin ainda de costas, pôs-se a virar para as duas figuras que se encontravam no fundo da sala. Estreitou os olhos já sabendo de quem se tratavam antes de visá-los.

- Eu nunca imaginei que seriam vocês. Enganaram-me completamente desde o dia em que os vi – O mago virou-se completamente para confrontar os dois indivíduos na outra ponta do recinto. Os dois garotos mostraram sorrisos afetados diante de Melvin, que olhou para cada um deles, pronunciando seus respectivos nomes. – Ramon e Dimas!

29 de outubro de 2009

Mundo Sombrio - Capítulo 16 - Hostilidade

O mago de cabelos lilás permanecia estático diante daquelas pequenas e possíveis hostilidades. Não movia um músculo sequer, sua mente concentrava-se apenas em analisar a vagarosa aproximação daqueles insetos.
“O que são essas coisas? Será que vão mesmo me atacar ou somente vão me observar?” ponderou o mago.
De repente, numa ação harmônica, em cada flanco dos insetos pareceu ter saído uma espécie de cano. Mas na verdade, os sons que estes emitiram em seu surgimento, sugeriram algo muito pior. Melvin já ouvira aquele peculiar som uma vez há muito tempo, e sabia de que tipo de equipamento era: arma com balas.
Eram tubos que os insetos direcionavam para o mago. Sentindo a pressão que tal arma fazia, pois tinha conhecimento de seu poder destrutivo, ele recuou um dos pés para trás. Mas nesse único ato, por mais que tenha sido cauteloso, os olhos vermelhos dos robôs reluziram ainda mais.
Vários flashs amarelados irromperam na escuridão do recinto. Balas começaram a voar na direção do mago, que rapidamente percebeu o ataque e tratou de mover-se o mais rapidamente para a direita. Após alguns poucos passos para o lado, ele se jogou no chão, atrás de uma das divisórias. Nesse meio tempo, o estalo das balas que eclodiam no chão e na porta chegavam em questões de milésimos em seu ouvido.
Melvin encostou-se na parede da divisória, aproveitando que ela era feito de um metal rígido, suficiente para as balas não penetrarem. Logo sentiu que os projéteis também ricocheteavam acima dele.
A mesa antes arrumada era destruída pelos tiros que atingiam os papéis, até então organizados, e que agora, voavam. Um pote que guardava canetas, lápis e outros acessórios fizeram mais um barulho ao cair no chão. O mago estava sendo pressionado, e não demoraria muito para os atiradores o seguirem.
“Eu devia usar aquele poder para este tipo de situação, mas não acho que possa dar conta de cinco ao mesmo tempo. Posso deter alguns, mas serei um alvo fácil para os demais. Tenho que dar um jeito de acabar com eles sem ser atingido. Essas balas são como lâminas.” O mago refletia suas opções.
Nesse meio tempo, quatro atiradores continuavam metralhando com seus oito canos, a divisória onde o alvo se escondia. Enquanto isso, o inseto que se encontrava na direita, cessou os tiros e abaixou até a alguns centímetros do chão. Iniciou um sorrateiro vôo sobre o plano, rumando para onde o mago estaria, sem que este percebesse. O som do bater de suas asas era camuflado pelos tiros que colidiam com o metal acima do mago.
Um pouco depois que o robô da direita desceu, foi a vez do da esquerda fazer o mesmo. Ambos tinham um corredor livre pela frente que os levariam até a entrada do recinto. Enquanto o último ainda iniciava o seu vôo no chão, o primeiro estava a menos de três segundos do alvo.
Melvin apertou firme o seu cajado pensando em sua primeira investida. Os três insetos continuavam pressionando-o para que seus comparsas agissem. O inseto da direita se aproximou. Estava prestes a virar onde o alvo jazia, e pegá-lo desprevenido. Mas no momento desta ação, viu uma espécie de bastão crescer em seus olhos vermelhos. Com o braço esquerdo, Melvin impôs toda a sua força numa investida precisa com seu cajado bem em cima do inseto. Este se estraçalhou ao seu lado em muitos pedaços metálicos que tilintaram no chão. Seus olhos vermelhos que não passaram de pequenos globos avermelhados se apagaram.
- Não me subestimem, insetos de sucata – bradou o mago, mesmo sendo um pouco arriscado por perder o seu foco auditivo concentrado nos tiros. “Acha que não percebi que a média dos tiros diminuiu num pequeno intervalo de tempo?”
Não houve tempo para comemorar o primeiro inimigo vencido, e num rápido olhar para a direita, quando o mago tentava analisar novamente sua situação, revelou um segundo inseto no outro canto do recinto.
- Droga! – praguejou Melvin, agindo imediatamente para desviar das balas que este outro atirador lançaria.
Escondeu-se na outra parte da divisória, no caminho que o inseto anterior se encontrava. As balas lançadas pelo segundo acertaram o chão e a parede. A posição de Melvin ainda era incomodante, bastava apenas um movimento dos robôs que atiravam e ele seria um alvo fácil e sem proteção.
Esperou os tiros do segundo inseto cessarem, fitando a parede de concreto que era perfurada pelos projéteis. As balas dos outros três continuavam eclodindo na divisória apenas para entreter-lo. Melvin segurou fortemente o cajado com a mesma mão de antes, e virou o corpo para o local onde se encontrava anteriormente, ficando novamente na linha de tiro do inimigo. Mas o mago foi mais rápido e lançou um denso tiro carregado com um ar pesado que se chocou com uma bala no meio do caminho. O projétil foi facilmente parado, como se tivesse encontrado uma parede sólida, e como se não bastasse, mudou de direção para a mesma de onde o tiro de vento seguia. Ambos colidiram com o robô que foi lançado na parede logo atrás do mesmo. Ele foi amassado pela colisão, além de ter sido perfurado por sua própria bala. Assim como o outro que fora destruído, seus globos também se apagaram.
“Mesmo sendo perigosos, parecem ser feitos de um metal pouco resistente. Não sei se possuem algum tipo de inteligência, mas é mais provável que tenham ações de ataques pré-programadas em algumas ocasiões. Significa que não podem analisar uma situação inesperada... Minha energia Volaki parece estar se recuperando gradualmente. Eu posso senti-la se erguendo e alcançando padrões estáveis. Isso não devia acontecer, mas só de pensar que foi o Florisval quem cuidou de mim, eu posso esperar qualquer efeito... Bom, faltam três. Acho que vou sair do anonimato e atacar.”

Melvin lançou seu cajado para o alto, arremessando-o por cima do corpo quase no centro da sala. A atenção dos robôs foi despertada por aquele ato. Não recomeçaram os tiros novamente, pois pareciam estarem confusos com aquela arma jogada e nenhuma carne viva aparecer diante deles. Afinal, estavam mirando em matérias com movimento próprio e vivas.
Aproveitando tal descuido de seus inimigos, o mago que corria sorrateiramente e de forma agachada pelo canto do recinto, ergueu-se por trás de uma divisória e alçou a palma de sua mão para os oponentes. Lançou um tiro de vento assim como fez antes, mas não com a mesma intensidade já que estava carente de seu cajado. Entretanto, foi o suficiente para acertar o inseto que era seu alvo inicial. Este, foi arrastado pelo tiro de vento até colidir com um outro que se encontrava na mesma direção.
Nesse meio tempo, Melvin atirou mais três vezes consecutivas, e os mesmos dois insetos foram acertados em seu cheio, parando apenas quando ambos colidiram com o teto. Com o choque, ficaram em um estado semelhante ao que fora amassado com o primeiro tiro do mago. Ainda na colisão, algumas peças, incluindo os olhos, que compunham os dois insetos, se desprenderam e começaram a cair, e logo após, os mesmos caiam já sem funcionamento.
O único inimigo restante virou seu cano para atirar no mago, que logo tratou de se abaixar. Nem se passou um segundo, e o robô moveu-se rapidamente atrás do alvo. Parecia que sua programação para quando estivesse combatendo sozinho, dizia para eliminar o inimigo, caçando-o.
Aproximou-se pela esquerda de Melvin, e este que não podia ficar ali por muito tempo, correu para um corredor formado entre as divisórias que cortavam o meio da sala de leste a oeste. O mago notou a tempo o seu cajado – manipulado durante esse tempo por um vento que impedia sua queda rápida – que ainda caia no centro da sala. O inseto iniciou sua seqüência de tiros que atingiu o chão bem atrás do alvo, este que por sua vez, agarrou seu cajado com a mão direta antes que o mesmo caísse no plano.
O mago continuou correndo até o fim do corredor, e nele estava uma divisória com sua mesa no centro bem de frente para Melvin. Ele estreitou os olhos e continuou a corrida, certo do que iria fazer. O robô permanecia com sua chuva de balas atrás, massacrando o piso de forma impiedosa.
Melvin se aproximou da mesa, apoiou o pé na quina, e tomou um impulso para dar um mortal para trás. Enquanto girava 360º no ar, sua altura havia ultrapassado a do inseto que permanecia com seu vôo e seus tiros sem alvo. Não havia conseguido prever a ação do mago, e por isso não conseguiu tomar uma decisão em tempo rápido. Melvin, já em sua posição normal no ar, encontrava-se acima do inseto, vendo-o se aproximar. Segurou o cajado com as duas mãos e o movimentou firmemente para baixo, acertando em cheio a parte de cima do robô hostil. Este, que foi literalmente estraçalhado devido a forma que foi acometido. Peças de metal dilaceradas jorraram por toda a parte, e o mago pousou no chão, após o sucesso de sua investida, enquanto as peças destruídas tilintavam no plano.
Melvin olhou para elas, e depois para o recinto, certo de que não havia mais nenhum inimigo.
- Ufa! Acho que agora a hostilidade acabou – disse ele, aliviado.
Mas assim que terminou a frase, um outro som ecoou no recinto. Uma porta de metal ergueu-se num canto mais ao fundo da sala. Melvin olhou para tal lugar, e viu uma passagem escura se formando. Dentro dela, dois olhos vermelhos, muito maiores que os dos insetos cintilaram. Um novo inimigo surgia.
- Acho que me enganei – frustrou-se o mago. Estreitou os olhos e se preparou para o que viria.


Capítulo 16

Hostilidade



Uma figura bizarra e potencialmente mais hostil que os pequenos insetos de antes se mostrou perante o mago. Seus passos eram enfadonhos, devido ao forte peso de suas patas metálicas que foram iluminadas pela fraca luz do recinto. Logo, sua cabeça também se mostrou na forma de um paralelepípedo – semelhante à de um lobo – com seus olhos vermelhos e sua boca aberta, mostrando a escuridão fria em seu interior. Mais dois passos adiante, e foi a vez dos braços reluzirem seu metal cintilante. Não havia mãos, apenas um grosso cilindro nas extremidades, e que na metade do braço reduzia sua espessura.
Em seguida, o robô metálico deixou seu corpo arcado à mostra. Parecia um tipo de fera, pois urrava como uma. Era toda revestida de um metal rígido e com poucas curvas. Todos os seus membros eram praticamente eretos.
Atrás de seu corpo, alguns fios por onde corria um estranho líquido azulado, conectados em vários pontos nas costas, eram presos por outras extremidades na escuridão no fundo do lugar de onde a criatura saira. Então, subitamente, todos esses fios desvencilharam-se do robô jorrando filetes do tal líquido azul. Os orifícios onde os fios estavam conectados se fecharam, e os globos da criatura reluziram um brilho ainda mais avermelhado.
- E agora? Que negócio é esse? – indagou Melvin, espantado por aquele monstro de metal.
Logo após a pergunta, o monstro metálico urrou ferozmente movendo sua cabeça para os lados. Em seguida, ele encarou o mago, que se intimidou com aquela primeira impressão.
Melvin arrastou os pés para trás, demonstrando um leve temor pela criatura. Esta, que berrou mais forte e ergueu o braço direito na direção do oponente. A base do cilindro, onde ficaria a mão, abriu-se de uma forma suntuosa, como um círculo em expansão. Na escuridão de dentro dele, um cano saiu, e à medida que se alongava, sua espessura regredia. Ficou com apenas três centímetros de diâmetro. Um brilho frio e azulado saiu da ponta da arma, junto com uma fumaça gelada.
Melvin franziu a testa e sentiu uma energia Volaki dentro daquele pequeno cano. Uma estalagmite de gelo foi arremessada contra ele, que ainda estava surpreso, mas conseguiu desviar a tempo recuando com um salto. A estalagmite atingiu o chão e se quebrou em várias partículas sólidas e reluzentes na colisão.
Mal teve tempo de se sentir aliviado pela sua evasiva, e mais tiros do mesmo ataque foram investidos contra o mago. Este tentou o máximo possível desviar-se dos tiros, movendo-se de um lado para o outro, mas o pequeno espaço que as divisórias davam, impediam que se mexesse com maior mobilidade.
Com movimentos limitados, foi apenas questão de poucos segundos para uma estalagmite passar de raspão pelo seu ombro, rasgando seu tecido, ao mesmo tempo em que fez jorrar uma pequena quantidade de sangue. Ignorando a dor do recente ferimento, Melvin manteve-se atento contra os outros perigos que vinham a acometê-lo.
Saltou para o lado, pulando sobre uma divisória. Não podia continuar naquela situação, imprensado e com pouca mobilidade. Por sorte, durante o salto, nenhum tiro o acertou, mas eles eram consecutivos e pareciam incessantes.
Um novo rugido da criatura, provavelmente frustrada por não acertar o alvo, aumentou ainda mais a tensão do mago. Melvin viu-se obrigado a usar o seu cajado, uma hora ou outra, pois não conseguiria desviar-se a tempo de algumas que vinham de frente. Com sua arma sempre na altura do peito, o usou para quebrar alguns tiros quando não tinha tempo para esquivar. Mas tal feito exigia um alto reflexo, algo que não funcionaria por muito tempo.
Conforme os arremessos eram lançados e o mago se livrava dos mesmos, ele recuava na direção da porta, onde não havia nenhuma divisória, e onde teria uma região sem limitações para se mover. Mas mesmo lá, não sabia como parar a investida insistente do robô hostil.
O cansaço começou a surgir, e seus movimentos foram ficando mais demorados, resultando num maior perigo de ser acometido. Sentiu-se ofegante, e seus braços começaram a pesar de tanto usar o cajado para colidir com alguns tiros. Seus movimentos, como a mobilidade dos braços, e das pernas, deixavam a precisão de lado e se rendiam à fadiga iminente.
“Que droga! Isso não pode ficar assim!” refletiu o mago, exasperado.
Cansado daquela posição incômoda, Melvin aproveitou um longo intervalo entre as estalagmites e se jogou por trás de uma divisória, a mesma que usara para se proteger dos tiros dos insetos.
Assim que o mago encostou-se ao metal que serviria de proteção por algum tempo, ouviu acima dele, as estalagmites se partirem em pedaços na colisão com a divisória já bem danificada pelos ataques iniciais.
Após alguns tiros de insistência, o robô cessou-os. Logo em seguida, duas portinholas se abriram em seu peito revelando em cada uma delas, uma circunferência de metal cinzento envolto de pequenos canos. Tais canos foram carregados e começaram a despejar uma chuva de balas na divisória onde o mago se escondia.
Os projéteis produziam um dano considerável no metal rígido, já que as balas causavam alguns buracos não muito profundos, e que não chegavam a atravessá-lo. O mago ouviu a mudança sonora nos projéteis percebendo que não era mais gelo que vinha lhe acometer. Notou também que pelo som dos choques, era uma bala mais destrutiva que as dos insetos.
“Esse metal não vai agüentar por muito tempo se os tiros persistirem. Se eu notar um intervalo entre eles, irei atacá-lo com um tiro de vento na direção dos olhos. Tenho certeza que ele depende deles para enxergar minha posição.” ponderou o mago sobre um possível movimento seu.
No momento seguinte, aconteceu a brecha que o mago desejava. Os tiros cessaram, e Melvin não se ateve a pensar na razão para aquele fato, e sim em atacar o inimigo. Ele levantou-se já girando o cajado em sua mão, e virando seu corpo para o robô. Quando estava prestes a disparar o tiro, Melvin olhou a parte direita do peito da criatura metálica, e viu uma luz faiscante exalando uma nuvem branca, que na verdade, originou-se da extremidade de um míssil lançado da região da circunferência.
Ao perceber o potente ataque indo ao seu encontro, Melvin desistiu, sem hesitar, de contra-atacar, e procurou desviar daquilo. Saltou alto e distante para a esquerda para evitar o míssil que percorreu rapidamente a distância entre ele.
O míssil atingiu a divisória onde o mago estava, destruindo-a em pedaços junto com uma explosão ensurdecedora para Melvin, que se encontrava no ar, distante, mas não o bastante. Seu corpo foi acometido pelos estilhaços da explosão e pelo ardente vento que o jogou contra a parede esquerda do recinto.
Melvin colidiu de ombro, e desabou no chão enquanto a poeira da explosão ainda preenchia o canto direito do local. O mago ergueu-se com esforço ficando parcialmente em pé.
“Droga! Eu não esperava um míssil.” Irritou-se Melvin.
Quando se voltou para o robô, viu apenas um segundo míssil já rumando até ele.
- Essa não! – gritou o mago pelo ataque notado tardiamente.
Pouco depois, o míssil se chocou contra a parede de concreto originando uma explosão de poeira. Melvin se encontrava à direita da colisão, pois havia desviado poucos instantes antes do míssil atingir sua posição. O mago estava agachado em frente à porta do recinto, em meio à nuvem de poeira provenientes das duas explosões. Ele divisou a imagem borrada da criatura de metal com seus dois olhos reluzindo em vermelho.
Um som de carregamento foi ouvido. Melvin entendeu que o robô estava recarregando as suas balas, e que as despejaria em seguida. Mas foi apenas terminar esse pensamento, que o inimigo jorrou uma nova sequência de tiros sobre o alvo, este que ainda se encontrava em meio à poeira.
Os tiros continuaram por mais alguns segundos até que as balas do robô cessaram. Ele deixou seus olhos vermelhos escanearem a imagem adiante, conferindo se havia destruído o mago.
Melvin estava longe de ter sido abatido. Sua imagem jazia firmemente em pé, com sua mão estendida criando uma espécie de barreira translúcida. A barreira criada era de uma camada grossa o bastante para reter todas as balas lançadas contra ele.
Um outro fato que merecia destaque era mudança em sua pupila. Vários pontos pareciam emergir da escuridão dela como se a visão estivesse percorrendo um espaço negro cheio de pontos fixos, onde estes são vistos como listras que se arrastam. Tais pontos seriam como as balas que viriam a lhe acometer.
Melvin vacilou sua mão direita, e a barreira desapareceu, deixando as balas suspensas caírem num tilintar metálico. Os olhos do mago retornaram ao normal, mas sua face demonstrou grande exaustão. Com o braço abaixado, ele deixou seu corpo arcar e passou a resfolegar.
“Usei muita Energia Volaki de uma vez. Não deveria ter usado este método, mas contra projéteis metálicos era minha única saída. O preço a se pagar é o cansaço.”
Melvin agonizou por um instante, e teve atenção necessária para notar um barulho adiante. O robô metálico usou seu outro braço, e diferentemente do braço que lançara estalagmite de gelo, este tinha um buraco mais amplo. E foi através dele, que uma esfera de vento foi atirada contra o alvo que ficou imóvel.
Melvin teve tempo apenas de olhar para a esfera antes dela acometer seu corpo, arremessando-o contra a porta. A colisão foi forte e o mago soltou um grito agonizante. Ele olhou para o inimigo, e viu-o movimentar a mão para lançar mais um ataque enquanto sua boca proferia um som selvagem.
“Droga! Por que estou tendo estas lutas estranhas hoje? É exigir demais de mim.” Pensava o mago rindo ironicamente. “Pensando bem, eu já enfrentei oponentes piores...” O robô soltou um novo rugido. “... e mais desumanos.” Em seguida, os lábios de Melvin deixaram seu rosto sério. “Eu não posso terminar aqui. Meu destino com certeza... não pode terminar aqui.”
Melvin se ergueu pronto para contra-atacar o inimigo. Mesmo sem um plano consistente, ele teria de investir para descobrir alguma brecha.
Mas quando se preparava para avançar contra o robô, algo muito estranho aconteceu com o mesmo. Ele passou a emitir uma luz de um amarelo pálido em suas juntas, como se a origem fosse no interior do corpo metálico.
- O que está havendo? – indagou o mago.
Foi então que Melvin foi obrigado a colocar as mãos na frente do rosto, no mesmo instante em que o som de uma explosão chegou a ele. O robô explodiu em pedaços, arremessando suas peças para todo o lado, deixando uma grande nuvem cinzenta em sua posição. Sob o som das peças caindo no plano, Melvin observou adiante.
- O que? Ele... explodiu? – perguntou-se o mago, não compreendendo o que ocorrera.
Ele esperou a fumaça baixar para divisar o que sobrou do robô, mas o que avistou foram várias partes de metal ao redor de onde o corpo sólido se encontrava. Melvin precipitou-se até o local da explosão avaliando os fragmentos.
- Ele se autodestruiu. Mas por quê? Por que ele iria se destruir se não estava em uma situação crítica?
Melvin ficou matutando o acontecido pelos momentos seguintes, mas sem encontrar respostas. O que sabia era que não era bem bem-vindo naquele lugar. Algo ilógico, já que suas digitais tinham acesso àquela região. Se aquilo era algum tipo de sistema de defesa, então por que ele foi atacado? Seria ele realmente um intruso, apesar de ter permissão para entrar em local exclusivo? Melvin não compreendia mais nada sobre isso. E a única coisa que tinha em mente era desvendar os segredos do Refúgio da Esperança.
Ele voltou-se para o fim do recinto, e observou a porta pela qual o robô surgira. Não passava de um pequeno compartimento quadrangular feito apenas para reservá-lo ali. Havia apenas os fios transparentes soltos do robô no início, por onde corriam algum tipo de líquido antes de serem arrancados.
Melvin olhou um pedaço da lataria do robô perto dele, onde nela, estavam entalhadas algumas informações a respeito do mesmo.



TAPOLV-21
Máquina de ataque portadora de Líquido Volki
M


- Esse “M”. É realmente um produto de Midra. Significa que esse lugar não foi construído apenas por magos. Como eu pensava. Devia haver Midrianos com eles. Eu realmente preciso descobrir mais sobre este lugar.
Melvin caminhou até o fundo do recinto onde uma porta dupla era camuflada pela escuridão no lado esquerdo da sala. Foram tantas as conturbações na luta, que as lâmpadas que ainda funcionavam não suportaram e acabaram se desestabilizando. Muito poucas sobraram em funcionamento em pontos isolados, mas insuficiente para causar uma claridade aceitável.
- Luz! – gritou o mago, e a ponta de seu cajado passou a ser uma fonte luminosa, espalhando seus feixes de luz por todo o recinto, clareando muito mais que as lâmpadas anteriores.
O mago abriu uma das portas cautelosamente e se deparou com uma escuridão quase completa se não fosse pela incidência luminosa de seu cajado sobre aquele âmbito. Melvin adentrou já visando o que a luz lhe revelava.
A primeira coisa que notou foi a porção de cadeiras viradas de frente para a parede à esquerda. Notou também uma mesa na distância mediana até a parede oposta. Ao brandir o cajado para outros lugares, chegou a conclusão de que se encontrava no final da ala oeste de um auditório. Ele estava justamente na frente, no local ao lado de onde um palestrante estaria. As paredes do fundo do recinto foram irrompidas pela luz dando a entender de qual seria o tamanho daquele lugar. Tinha mais ou menos uns trezentos metros quadrados, com dez de largura e trinta de comprimento.
Contou aproximadamente sete fileiras com quinze cadeiras que iam até o final do recinto, totalizando trinta e cinco em cada lado daquele lugar. No meio, ao lado dos assentos acolchoados de tom rubi, estava um corredor ligando a mesa ao fundo do auditório.
- Para ter um auditório aqui, é porque é um ponto de encontro de muita gente. Como pensei, esse lugar não é para guardar apenas flores mágicas. Ele possui outra finalidade de muito mais importância. O nome Refúgio da Esperança indica que isso possa ser algum tipo de base para algum problema, talvez. – refletia o mago.
Um projetor desligado chamou sua atenção sobre a mesa. Melvin estreitou os olhos e apertou um botão de “ligar” na lateral do equipamento. No mesmo instante, a parede ao lado para onde o projetor apontava reluziu um retângulo dentro de uma moldura de metal preparada exclusivamente para este fim, formando uma tela na parede.
Uma imagem de alguns filetes cinzentos foram sendo preenchidos gradualmente sob uma mensagem dizendo “carregando”. Após o processo, uma outra imagem cobriu a tela. Tratava-se de várias colunas multicoloridas.
- Um vídeo? – disse o mago.
Silêncio. Melvin aguardou ansiosamente pela próxima imagem. E após alguns segundos de espera, ela mudou. Os olhos do mago se arregalaram instantaneamente.
Em frente a uma parede cor de mel, sentado atrás de uma mesa, num confortável assento suntuoso, jazia um homem com um ar imponente. Mas ao mesmo tempo, seu rosto transparecia uma preocupação profunda, como quem estivesse prestes a discorrer sobre algo sério. Melvin conhecia muito bem aquele homem de olhos verdes; cabelos esverdeados, cheios e bem repartidos; portando túnica azul. Tratava-se de alguém muito próximo a ele.
O homem da imagem pronunciou-se. Melvin ainda estava estupefato diante da tela.
- Meu nome é Zailon Hauker. Mago Supremo de Nerus do ano de 1460 da Terceira Era.
- Pai? – indagou Melvin.

17 de outubro de 2009

Mundo Sombrio - Capítulo 15 - Exploração

Capítulo 15

Exploração



Os passos do mago produziam um som metálico que reverbava por todo o imenso lugar. Encontrava-se sobre uma ponte de metal, feita de um piso de filetes metálicos e com um corrimão de meio metro de altura.
Rapidamente seus olhos foram atraídos pela branca luz emanada pelos refletores que pendiam no alto. O teto era arcado naquele local com uma dimensão circular. Uma pintura muito chamativa fazia parecer que não estava dentro de um recinto fechado. Tratava-se de um azul com algumas poucas nuvens desenhadas para dar a sensação de estar olhando para o céu.
Quinze metros abaixo da ponte estava o que havia de gracioso naquele lugar. Um perfeito cenário que imitava a natureza ao ar livre. Pequenos planaltos, morros, rios, um gramado do mais puro verde, e finalmente, as mais variadas espécies de flores cultivadas em pontos distintos. Aquele paraíso dimanava um singelo brilho para quem o olha-se
Ainda na parte oposta da ponte, no meio caminho, havia uma coluna cilíndrica que se estendia do teto até a parte de baixo do recinto, com sua estrutura atravessando a ponte, neste nível, mostrando uma porta. Melvin deduziu que poderia ser um elevador. Mesmo querendo checá-lo, voltou alguns passos para a entrada onde Florisval e Joana estavam, mas não chegou a passar pela barreira, ficando apenas atrás da mesma.
- Florisval, você não vem? – perguntou o mago.
- Não, eu não vou – respondeu o floricultor do outro lado, olhando para Joana em seguida. – A Joana não pode atravessar essa barreira por causa do sistema de segurança daqui. Eu não quero deixá-la sozinha, mas nós poderemos nos juntar a você se conseguir desarmar o sistema. Melvin, preste atenção. Ignore o paraíso de flores abaixo e o elevador na ponte, e vá para o final dela. Lá terá uma entrada para os outros recintos, que também são pontos bem relevantes nesta base. Um deles eu não consigo entrar, mas talvez, você que tem um acesso privilegiado possa conseguir. Esta porta fica no corredor oeste, a terceira porta à direita. Mas antes disso, você verá a sala de segurança numa porta à esquerda. Dentro dela há vários televisores como na sala de monitoramento que passamos agora a pouco. É possível contatar cada parte desta base por um microfone, já que há auto-falantes nas paredes. Não será tão difícil fazer isso.
- Certo. Entendi – Melvin voltou-se para o local adiante e começou a caminhar pela ponte.
Chegou ao elevador, e o ignorou. Continuou até chegar a uma porta idêntica a anterior, que necessitava de uma impressão digital. Ele notou o mesmo painel à esquerda e realizou o mesmo procedimento; a porta abriu-se lateralmente. Alguns metros adiante havia uma nova barreira igual a de antes. Melvin passou por ela sem problemas.
Diferentemente do corredor anterior, este tinha paredes e tetos revestidos com ferro. As lâmpadas ficavam em fileira nas duas paredes de encontro ao teto, de cada lado.
Suas botas soavam um “tac” como único barulho ali presente. Não se ouvia mais nada além disso. Parecia estar fazendo uma exploração num local desconhecido com um ambiente meio sinistro.
Alguns degraus para baixo foram avistados, e no fim dele, a passagem virava à esquerda. Em seguida, observou que o mesmo corredor virava para a direita mais adiante. Mas antes da curva, havia três portas: uma à esquerda, outra à direita, e a última, na parede oposta, logo à frente.
Mesmo sendo instruído para chegar à sala de segurança, Melvin queria saber mais sobre aquele lugar e suas particularidades. Caminhou até a porta esquerda, e adentrou ao cômodo que ela escondia; a porta tinha uma maçaneta, diferenciando-se das portas que passou até aquele momento. Algo mais “normal”, pra variar.
No lado de dentro, não havia iluminação. Apenas a claridade do próprio corredor iluminava levemente o recinto. O mago caminhou para o lado com as mãos tateando as paredes a fim de encontrar um interruptor. Não demorou muito, e ele acendeu as luzes.
Ao contrário do corredor, as paredes eram de concreto, pintadas na cor mel; o chão era branco com alguns pequenos metais aderentes ao piso, causando um certo brilhantismo. Alguns armários, uma mesa retangular central que se estendia horizontalmente pelo cômodo, que aliás, tinha uma largura bem grande para acomodar a grande mesa. Tal móvel parecia ser destinado a reuniões, tendo em vista os confortáveis assentos próximos a ela.
Melvin já parecia ter visto tal arrumação, o que deixou num momento nostálgico por alguns instantes. Fora o detalhe da mesa, havia uma parte da parede oposta à porta, que era retangular e feita de metal. Após observar este último detalhe, o mago se retirou.
Já no corredor, foi para a porta à frente do recinto de onde acabara de sair. Esta também era de maçaneta e foi facilmente aberta; e o cômodo também estava apagado, e a luz do corredor tratou de iluminar parcialmente o lugar. Melvin achou o interruptor e com a luz acesa, percebeu a função daquele cômodo.
Pás, vassouras, enxadas, colheres, regadores e outras ferramentas de campo jaziam nos mais distintos pontos daquele ambiente quadrangular. A luz era de uma lâmpada amarela, dando claridade semelhante a um monte de velas.
Melvin saiu deste cômodo, e voltou para o corredor. Queria entrar na porta restante, mas a ignorou temporariamente, pois gastaria muito tempo explorando todos os recintos daquele lugar. Apenas o local exclusivo para magos e a sala de segurança importavam naquele momento.
Virou a direita e após alguns metros de corredor, ele se dividiu para a esquerda e direita. Encaminhou-se para a esquerda como Florisval havia lhe instruído. Após ignorar mais algumas portas, encontrou a sala de segurança à direita. Acima da porta, uma placa na parede mostrava o nome da sala.
Um painel lateral indicava que uma impressão digital era necessária para abrir a porta. O mago colocou o seu dedão na pequena tela e aguardou o escaneamento. Um clique de destrancamento se propagou seguido de uma voz computacional de tom feminino pronunciando “Acesso válido”.
A porta dupla abriu-se lateralmente do meio para os respectivos lados da porta. Assim como na sala de monitoramento, a sala estava às escuras, sendo apenas iluminada pela luz do painel dos televisores, um pouco maiores se comparados aos que ele viu antes. Mas assim que o mago deu seu primeiro passo no recinto, a iluminação acendeu automaticamente. Melvin olhou para as luzes fluorescentes no teto, sabendo que tal receptividade era incomum.
- De volta a alta tecnologia – ele proferiu com nostalgia.
A sala era bem ampla, cheia de equipamentos tecnológicos para comunicação e monitoramento. Algumas mesas e cadeiras, pequenos armários guardando papeladas preenchiam o resto do recinto. Mas a parte mais importante era o painel de controle, um pouco a frente e na parede esquerda, tomando como referência a porta da sala, que fica na extremidade norte.
O grande painel era composto por vários botões e alavancas que a princípio não diziam nada para o mago. Ele procurou os televisores um pouco acima, observando todo o monitoramento dos cômodos daquela base. Principalmente na parte do “paraíso” mostrando a beleza natural de sempre. Varrendo um pouco mais os olhos pelos monitores encontrou a imagem de Florisval e Joana ainda próximos a barreira, apenas esperando o seu contato.
Melvin procurou no painel algo parecido com um comunicador. Encontrou alguns botões com números e apertou o que correspondia a tela do casal, agora bem próximos um do outro. Após estar apertado, o mago pegou um comunicador quadrangular preso a um fio semelhante à de um telefone.
- Florisval, está me ouvindo? – Melvin perguntou com os olhos observando o camponês pelo televisor.


. . . . . . . . . . . .



Joana e Florisval ainda permaneciam parados diante da barreira de segurança, apenas esperando o contato de Melvin. Mas enquanto esse momento não chegava, ficaram alguns instantes em silêncio, que enfim, foi quebrado pelo floricultor, após ficar um bom tempo com os olhos sobre a namorada, esta que não percebia, pois parecia estar com um olhar distante.
- Fico feliz por estar viva - disse o camponês, tirando Joana do transe, e colocando seu olhar sobre ele. – Quando eu vi seu corpo em chamas naquele campo, eu entrei em desespero. – Florisval falava enquanto seu semblante melancólico refletia suas angustiantes lembranças. – Eu senti tanta tristeza e ódio como eu nunca havia sentido antes. Só de pensar que havia perdido você, foi como se todo o sentido da minha vida houvesse se perdido de novo. Eu... preciso lhe dizer uma coisa. – Florisval olhou para a amada, receando o que iria falar.
- O que é? Fale – disse a jovem num tom suave, notando a cerimônia do outro.
- Eu... matei o Adler. – Joana pareceu ficar um pouco surpresa com a revelação e esperou o floricultor terminar. Suas próximas palavras foram pronunciadas de forma afobada com um claro nervosismo. – Eu estava com muito ódio no coração. Nunca perdoaria aquele homem pelo o que havia feito. Então... eu peguei o meu arco e...
- Tudo bem – Joana falou interrompendo-o. Ela aproximou-se de Florisval vendo que ele parecia ficar inquieto à medida que contava. – Não se preocupe com isso. – Ela acariciou o seu rosto suavemente, e deu-lhe um beijo. Afastou sua face e ficou com seu rosto quase colado ao dele, misturando o ar que cada um respirava e exalava. Florisval sentiu sua amargura decrescer e uma boa e contagiante sensação tomar conta de sua alma.
- Eu estou aqui agora. Não precisa se lembrar do que sentia naquela hora. Sinta apenas o que sente agora, neste momento. Eu sou tudo o que você está sentindo. Portanto, esqueça que já me perdeu uma vez, enquanto eu estiver junto a você.
Florisval se sentiu tocado, e percebeu que ela tinha razão. Do que adiantava ficar mergulhando naquela terrível lembrança? Joana estava bem na sua frente, viva, e tudo estava perfeito. Não havia necessidade de perder tempo com lembranças ruins, quando o presente tornava-se o melhor possível. Viver apenas o agora era tudo o que importava pra ele.
Ambos, sendo enrolados por um agradável sentimento, aproximaram suas faces mais alguns centímetros. Quando seus lábios estavam prestes a se tocarem para um beijo mais profundo, uma voz estrondosa ecoou pelo corredor.
- FLORISVAL!!! – O chamamento de Melvin saiu do pequeno alto falante no teto. O barulho foi tão intenso que o casal espremeu os olhos e afastou os rostos, acabando com qualquer possibilidade de um beijo. Ondas sonoras quebraram todo o clima amoroso, deixando o camponês um pouco frustrado. Joana também estava decepcionada, mas a expressão do floricultor indicava um maior aborrecimento.
- Opa! Desculpe – Melvin falava novamente. – Não chequei os volumes antes.
- Não acho que faria diferença. Esse não foi o problema. – Florisval olhava para a câmera no teto um pouco atrás dele.
- Hã? Como assim? – perguntou o mago inocentemente.
“Não está vendo que você quebrou o clima” Era o que Florisval queria dizer, mas achou melhor ficar quieto. Não era característica dele reclamar muito, mas naquela ocasião bem que gostaria.
- Esqueça – disse o camponês. Em seguida, mudou o foco. – Certo, está na sala de segurança. Na parte direita do painel, depois dos televisores há uma tela de computador. Há um teclado e um mouse por aí. Ligue o computador num botão azul por aí, e na tela vai aparecer alguns níveis de acesso. Vá para o quarto nível. Ele é responsável pela entrada e saída de pessoas da base. Aparecerão algumas opções. Escolha livre acesso de indivíduos.
Melvin ouvia atentamente as instruções do Guardião. Ele moveu-se para o lado reparando na tal tela de computador, que ocupava um tamanho considerável da parede.
- Por que você não me conta isso enquanto eu vou acessando... – Nessa hora, sentiu o comunicador parar em sua mão. O fio que o prendia já estava todo esticado.
- O comunicador não vai até aí. – Florisval disse.
- Obrigado pelo aviso – Melvin disse ironicamente. – Vou contatá-lo novamente após liberar o acesso.
Melvin foi para o computador e notou que as luzes do equipamento estavam acesas.
- Já está ligado? – Melvin estranhou no primeiro momento, mas depois se preocupou em mexer.
Quando tocou o mouse, a tela saiu do preto, e a imagem descrita por Florisval se mostrou. Havia cinco grandes botões na tela num fundo que parecia uma parede fria com um tom de cinza e azul. Nela, algumas flores desenhadas semelhantes as da porta também enfeitavam o papel de parede. Os botões eram de uma tonalidade acinzentada e com letras avermelhadas. Melvin clicou no quarto botão de cima para baixo, intitulado “Nível 4”.
Ao clique, o botão pareceu expandir-se por toda a tela e revelando uma nova imagem. Algumas informações foram jogadas na tela. Os olhos de Melvin se moviam de um lado para o outro, e refletiam a luz que a tela emanava. Seus olhos sérios recebiam toda a informação que era analisada por sua mente. Após vários cliques indo de diretório em diretório, ergueu os olhos ao ver as opções que queria alcançar. Uma delas, era a que procurava.
- Livre acesso – murmurou ele, clicando na opção logo em seguida, e depois indo num botão de OK abaixo da tela. Imediatamente, após o clique um som de atenção e uma mensagem apareceram na tela.
“Essa opção irá desarmar todos os sentimentos defensivos, visto que estes servem para proteger tantos determinados lugares como toda a instalação. Tenha absoluta certeza que indivíduos com más intenções ou que não possuam permissão para determinadas informações entrem em lugares inconvenientes.”
O mago apertou OK, e um som de confirmação foi ouvido. Apesar do trabalho ter sido feito, tal mensagem que sumira, deixou-o preocupado.
- Lugares inconvenientes... Acesso apenas para magos... Talvez isso não seja apenas um paraíso de flores. Há algo mais neste lugar.
Movido por essa preocupação, o mago saiu da porta rumo ao único recinto que ainda era um mistério.


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A camada protetora que impedia a passagem de Joana e Florisval se dispersou, liberando a passagem para o casal. A mulher logo notou uma intensa luminosidade invadir a parte do corredor, imaginando que tipo de claridade seria aquela.
- Parece que ele conseguiu – Florisval disse caminhando até onde antes jazia a barreira. – Venha, Joana. Eu quero lhe mostrar isso. – O camponês virou-se para a jovem que permanecia atrás, e estendeu a mão para ela se aproximar. Ela o fez. De mãos dadas, ambos adentraram no realmente chamado paraíso daquele lugar.
Joana abismou-se com o local, ao mesmo tempo em que seus olhos transbordavam de admiração. A surpresa era grande, e ela observava cada detalhe daquele ambiente, tanto o céu como a natureza abaixo a seduzia. Ficou ainda mais vislumbrada com as diversas flores espalhadas pelo terreno.
- O que é esse lugar? – indagou ela, extasiada.
- Um paraíso – respondeu o camponês. – Venha comigo. Vamos descer até lá.
O casal caminhou até a metade do caminho, e chegaram a uma espécie de pilastra com um porta amarronzada. Florisval apertou um botão do painel ao lado da porta, e Joana ouviu um som incomum que parecia vir de dento da pilastra, mas para o camponês era apenas a subida de um elevador. A porta se abriu, um pequeno recinto quadrado se revelou. O camponês encaminhou-se para dentro dele, e virou-se esperando que a amada fizesse o mesmo, mas esta apenas olhava receosa para o lugar onde ele estava.
- O que vamos fazer aí? – ela perguntou.
- Descer, claro.
- Mas eu pensei que fossemos usar uma escada. Esse negócio desce o mesmo?
- Mas é claro. Isso é um elevador.
Joana olhou para a pilastra acima. Ela já havia visto elevadores, mas não igual ao que estava adiante. Não havia roldanas, e nenhuma força humana agindo ali, ou talvez, ela pensasse que eles fariam tal força por algum método. No geral, elevadores eram sistemas de transportes usados para levar equipamentos de uma latitude para a outra. Mesmo sem saber que tipo de elevador era aquele que Florisval estava, ela entrou.
O floricultor apertou um botão em mais um painel o lado da porta, e a mesma se fechou 0da mesma maneira que abriu. Joana ficou temerosa quando as portas se fecharam e se viu presa naquele espaço apertado.
- Não tenha medo. Vamos apenas descer – avisou Florisval apertando um botão logo abaixo do que havia pressionado anteriormente.
Com um barulho de deslocamento, o elevador começou a se mover. Foi então que Joana sentiu uma sensação estranha, que nunca havia sentido na vida. Ela abriu os braços como se fosse perder o equilíbrio.
- Florisval, o que está acontecendo? – ela perguntou assustada.
- Eu disse para não ter medo. Isso vai acabar antes que seu coração saia pela boca – respondeu o floricultor rindo.
Um estrondo final, e o elevador parou. A porta foi aberta, e Joana ainda olhava para o chão, espantada.
- Esse elevador desce sozinho, e ao meu comando. Mas não precisa se preocupar em entender isso agora, apenas olhe pra isso.
Florisval virou-se para a imagem revelada na porta, e Joana sentiu a mesma iluminação de antes preencher o pequeno recinto do elevador. Ela subiu o rosto calmamente, e se deparou com uma imagem admirável.
O ambiente parecia cintilar em todos os pontos. Um gramado de uma cor verde tão viva que seus olhos nunca presenciaram. Borboletas voavam sobre as inúmeras flores cultivadas em pequenos canteiros. Não chegava a ser um campo florido, mas poderia se dizer que era um jardim, de tantas flores que possuía. Mais adiante, havia um lago com sua superfície resplandecendo devido a iluminação que vinha de cima, como se estivesse imitando a luz do sol. A luz artificial e o teto azul pareciam fazer a mesma impressão de uma água límpida e pura num dia aberto.
Joana caminhou até a margem do lago, e olhou tudo o que tinha ao redor. Florisval estava parado um pouco atrás, apenas observando a jovem se vislumbrar com aquele lugar.
- É lindo – disse ela referindo-se ao que realmente parecia ser um paraíso.
- É um segredo meu. Um lugar secreto que apenas eu sabia. Naquela vez que eu sai para pegar um remédio para o mago, eu usei uma dessas flores. – Joana fitou as belas flores, porém desconhecidas. – Não são flores comuns. São mágicas.
- Mágicas? – Joana lembrou-se então da flor que recebera do camponês naquele dia, e que numa ocasião passada salvara sua vida. Ela pousou a mão sobre o busto, e lá estava dentro de sua roupa, a flor que havia recebido. – Como essa? Choradella, não é?
- Sim, como a Choradella.
- Mas eu não entendo – Joana fitou o local ao redor com uma expressão confusa. A natureza presa àquele lugar subterrâneo ainda era uma incógnita para ela. – O que é esse lugar?
Florisval suspirou com um ar irônico e respondeu:
- Pra falar a verdade, nem eu sei direito. Mas não é nada que possa nos prejudicar. É um lugar como qualquer outro. Algumas coisas daqui você não vai entender de cara, mas aqui, onde estamos pisando, tenho certeza que não terá dúvidas. Essa base é como se fosse uma segunda casa pra mim. É uma amiga que não conheço totalmente, mas me ajudou muitas vezes. – Florisval pensava em quantas vezes utilizou as flores mágicas em seu benefício e a dos outros. Nos últimos dias, ele as usou freqüentemente: a misteriosa flor que foi notada pelo mago quando ela curou seus ferimentos; a Rosa do Ligamento, que serviu para se aproximar de Joana criando uma espécie de ligação entre eles, e que no dia seguinte, foi crucial para encontrá-la; a Choradella, que salvou a vida de Joana na caverna, e a de Melvin e Florisval há pouco tempo. Aquele lugar era mesmo muito bondoso com ele.
Joana ainda temia aquele local. Mesmo que seu amado dissesse tudo aquilo, um evento anterior não saia de sua cabeça. O gás avermelhado que fora jogado na sala de monitoramento quando esta se encontrava lá.
- Aconteceu algo mais cedo que não entendi direito – disse Joana, com um olhar distante tentando recordar o momento. – Um tipo de gás invadiu aquela sala, e eu fiquei desesperada. Mal tive tempo de reagir, e meu corpo começou a fraquejar até que eu desmaiei.
- Que tipo de gás? – Florisval perguntou com um estranhamento.
- Ele era vermelho. Só sei que aquilo me fez adormecer por algum tempo.
- Você tem certeza? – Florisval perguntou com anseio. Joana confirmou e ele pareceu ponderar, um pouco confuso. – Mas uma coisa dessa não poderia acontecer. Seria impossível no modo de sistema atual.
- Por quê?
- O que aconteceu com você foi a ação do sistema de defesa desta base. Evita qualquer intruso que se infiltra neste lugar, e logo começa uma série de hostilidades. Entretanto, esse sistema só é mais ativo após aquela grande porta na qual nós passamos. Antes disso, praticamente não há nenhuma segurança, exceto os gases que são jogados na sala de monitoramento e no corredor. Existem de várias cores, cada um com o seu efeito, alguns deles podem até levar a morte. Felizmente, foi o vermelho que foi lançado, este causa apenas sonolência. Mas o que me incomoda é como este gás foi lançado.
- Como assim?
- Pode ter sido uma falha no sistema, mas se fosse isso, seria a primeira vez. O lançamento de gás naquela sala só é feito manualmente na sala de segurança pra onde eu mandei o Melvin. Em hipótese alguma aquilo seria jogado sem mais nem menos. E isso só me deixa com uma única conclusão. - Florisval olhou firmemente para a jovem. – Existe mais alguém além de nós aqui dentro.


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Passos se aproximaram da porta que seria exclusiva para magos. Melvin olhou para o painel ao lado, e após suas impressões serem lidas, a porta dupla se abriu lateralmente.
Estava um pouco escuro, e a luz do corredor iluminava vagamente o recinto. Mas pelo o que se podia ver, parecia ser um tipo de local de trabalho. Várias divisórias, mesas, cadeiras e alguns equipamentos semelhantes aos da sala de segurança. Parecia estar bem arrumado a primeira vista. Logo ao entrar algumas lâmpadas se acenderam fracamente. A maioria parecia estar quebrada, e as que funcionavam, iluminavam de forma bem fraca. A escuridão ainda permaneceu mais presente em alguns pontos do recinto.
Melvin se aproximou de uma das divisórias de trabalho, e passou o dedo na mesa, devidamente arrumada com alguns papéis, sentindo a poeira. Esfregou-a com o outro dedo e deu mais uma olhada pelo local.
- Parece que ninguém entra aqui há um bom tempo – murmurou.
Foi quando um zunido estranho de origem desconhecida chamou sua atenção. Ele rapidamente varreu os olhos pelo resto da escuridão do recinto procurando o significado daquele som, mas recebeu apenas o silêncio. Ficou mais algum segundo na extrema cautela, e ouviu-o de novo. Parecia ser algum tipo de bater de asas de um inseto.
- Quem está aí? – o mago perguntou, firmemente, enquanto partículas de energia surgiam em sua mão para formar o cajado que logo segurou. Melvin fixou os olhos num ponto adiante, um pouco ao fundo da sala. Parecia que uma pequena silhueta erguia-se com o mesmo zunido de antes. Tratava-se de algo flutuando com asas cintilando um cinza na escuridão. Logo, duas esferas vermelhas surgiram diante daquela silhueta, mas o mago logo percebeu que elas pertenciam à mesma. Eram olhos.
Em seguida, silhuetas semelhantes começaram a se elevar em outros cantos mais a frente, com o mesmo som de bater de asas de um inseto.
- O que é isso? – perguntou-se o mago fitando as pequenas e possíveis hostilidades. Eram cinco ao todo, bem separados um do outro. Elas flutuavam no ar, encarando atrás da primeira divisória. Pareciam que iam atacá-lo.