Capítulo 15
Exploração
Os passos do mago produziam um som metálico que reverbava por todo o imenso lugar. Encontrava-se sobre uma ponte de metal, feita de um piso de filetes metálicos e com um corrimão de meio metro de altura.
Rapidamente seus olhos foram atraídos pela branca luz emanada pelos refletores que pendiam no alto. O teto era arcado naquele local com uma dimensão circular. Uma pintura muito chamativa fazia parecer que não estava dentro de um recinto fechado. Tratava-se de um azul com algumas poucas nuvens desenhadas para dar a sensação de estar olhando para o céu.
Quinze metros abaixo da ponte estava o que havia de gracioso naquele lugar. Um perfeito cenário que imitava a natureza ao ar livre. Pequenos planaltos, morros, rios, um gramado do mais puro verde, e finalmente, as mais variadas espécies de flores cultivadas em pontos distintos. Aquele paraíso dimanava um singelo brilho para quem o olha-se
Ainda na parte oposta da ponte, no meio caminho, havia uma coluna cilíndrica que se estendia do teto até a parte de baixo do recinto, com sua estrutura atravessando a ponte, neste nível, mostrando uma porta. Melvin deduziu que poderia ser um elevador. Mesmo querendo checá-lo, voltou alguns passos para a entrada onde Florisval e Joana estavam, mas não chegou a passar pela barreira, ficando apenas atrás da mesma.
- Florisval, você não vem? – perguntou o mago.
- Não, eu não vou – respondeu o floricultor do outro lado, olhando para Joana em seguida. – A Joana não pode atravessar essa barreira por causa do sistema de segurança daqui. Eu não quero deixá-la sozinha, mas nós poderemos nos juntar a você se conseguir desarmar o sistema. Melvin, preste atenção. Ignore o paraíso de flores abaixo e o elevador na ponte, e vá para o final dela. Lá terá uma entrada para os outros recintos, que também são pontos bem relevantes nesta base. Um deles eu não consigo entrar, mas talvez, você que tem um acesso privilegiado possa conseguir. Esta porta fica no corredor oeste, a terceira porta à direita. Mas antes disso, você verá a sala de segurança numa porta à esquerda. Dentro dela há vários televisores como na sala de monitoramento que passamos agora a pouco. É possível contatar cada parte desta base por um microfone, já que há auto-falantes nas paredes. Não será tão difícil fazer isso.
- Certo. Entendi – Melvin voltou-se para o local adiante e começou a caminhar pela ponte.
Chegou ao elevador, e o ignorou. Continuou até chegar a uma porta idêntica a anterior, que necessitava de uma impressão digital. Ele notou o mesmo painel à esquerda e realizou o mesmo procedimento; a porta abriu-se lateralmente. Alguns metros adiante havia uma nova barreira igual a de antes. Melvin passou por ela sem problemas.
Diferentemente do corredor anterior, este tinha paredes e tetos revestidos com ferro. As lâmpadas ficavam em fileira nas duas paredes de encontro ao teto, de cada lado.
Suas botas soavam um “tac” como único barulho ali presente. Não se ouvia mais nada além disso. Parecia estar fazendo uma exploração num local desconhecido com um ambiente meio sinistro.
Alguns degraus para baixo foram avistados, e no fim dele, a passagem virava à esquerda. Em seguida, observou que o mesmo corredor virava para a direita mais adiante. Mas antes da curva, havia três portas: uma à esquerda, outra à direita, e a última, na parede oposta, logo à frente.
Mesmo sendo instruído para chegar à sala de segurança, Melvin queria saber mais sobre aquele lugar e suas particularidades. Caminhou até a porta esquerda, e adentrou ao cômodo que ela escondia; a porta tinha uma maçaneta, diferenciando-se das portas que passou até aquele momento. Algo mais “normal”, pra variar.
No lado de dentro, não havia iluminação. Apenas a claridade do próprio corredor iluminava levemente o recinto. O mago caminhou para o lado com as mãos tateando as paredes a fim de encontrar um interruptor. Não demorou muito, e ele acendeu as luzes.
Ao contrário do corredor, as paredes eram de concreto, pintadas na cor mel; o chão era branco com alguns pequenos metais aderentes ao piso, causando um certo brilhantismo. Alguns armários, uma mesa retangular central que se estendia horizontalmente pelo cômodo, que aliás, tinha uma largura bem grande para acomodar a grande mesa. Tal móvel parecia ser destinado a reuniões, tendo em vista os confortáveis assentos próximos a ela.
Melvin já parecia ter visto tal arrumação, o que deixou num momento nostálgico por alguns instantes. Fora o detalhe da mesa, havia uma parte da parede oposta à porta, que era retangular e feita de metal. Após observar este último detalhe, o mago se retirou.
Já no corredor, foi para a porta à frente do recinto de onde acabara de sair. Esta também era de maçaneta e foi facilmente aberta; e o cômodo também estava apagado, e a luz do corredor tratou de iluminar parcialmente o lugar. Melvin achou o interruptor e com a luz acesa, percebeu a função daquele cômodo.
Pás, vassouras, enxadas, colheres, regadores e outras ferramentas de campo jaziam nos mais distintos pontos daquele ambiente quadrangular. A luz era de uma lâmpada amarela, dando claridade semelhante a um monte de velas.
Melvin saiu deste cômodo, e voltou para o corredor. Queria entrar na porta restante, mas a ignorou temporariamente, pois gastaria muito tempo explorando todos os recintos daquele lugar. Apenas o local exclusivo para magos e a sala de segurança importavam naquele momento.
Virou a direita e após alguns metros de corredor, ele se dividiu para a esquerda e direita. Encaminhou-se para a esquerda como Florisval havia lhe instruído. Após ignorar mais algumas portas, encontrou a sala de segurança à direita. Acima da porta, uma placa na parede mostrava o nome da sala.
Um painel lateral indicava que uma impressão digital era necessária para abrir a porta. O mago colocou o seu dedão na pequena tela e aguardou o escaneamento. Um clique de destrancamento se propagou seguido de uma voz computacional de tom feminino pronunciando “Acesso válido”.
A porta dupla abriu-se lateralmente do meio para os respectivos lados da porta. Assim como na sala de monitoramento, a sala estava às escuras, sendo apenas iluminada pela luz do painel dos televisores, um pouco maiores se comparados aos que ele viu antes. Mas assim que o mago deu seu primeiro passo no recinto, a iluminação acendeu automaticamente. Melvin olhou para as luzes fluorescentes no teto, sabendo que tal receptividade era incomum.
- De volta a alta tecnologia – ele proferiu com nostalgia.
A sala era bem ampla, cheia de equipamentos tecnológicos para comunicação e monitoramento. Algumas mesas e cadeiras, pequenos armários guardando papeladas preenchiam o resto do recinto. Mas a parte mais importante era o painel de controle, um pouco a frente e na parede esquerda, tomando como referência a porta da sala, que fica na extremidade norte.
O grande painel era composto por vários botões e alavancas que a princípio não diziam nada para o mago. Ele procurou os televisores um pouco acima, observando todo o monitoramento dos cômodos daquela base. Principalmente na parte do “paraíso” mostrando a beleza natural de sempre. Varrendo um pouco mais os olhos pelos monitores encontrou a imagem de Florisval e Joana ainda próximos a barreira, apenas esperando o seu contato.
Melvin procurou no painel algo parecido com um comunicador. Encontrou alguns botões com números e apertou o que correspondia a tela do casal, agora bem próximos um do outro. Após estar apertado, o mago pegou um comunicador quadrangular preso a um fio semelhante à de um telefone.
- Florisval, está me ouvindo? – Melvin perguntou com os olhos observando o camponês pelo televisor.
. . . . . . . . . . . .
Joana e Florisval ainda permaneciam parados diante da barreira de segurança, apenas esperando o contato de Melvin. Mas enquanto esse momento não chegava, ficaram alguns instantes em silêncio, que enfim, foi quebrado pelo floricultor, após ficar um bom tempo com os olhos sobre a namorada, esta que não percebia, pois parecia estar com um olhar distante.
- Fico feliz por estar viva - disse o camponês, tirando Joana do transe, e colocando seu olhar sobre ele. – Quando eu vi seu corpo em chamas naquele campo, eu entrei em desespero. – Florisval falava enquanto seu semblante melancólico refletia suas angustiantes lembranças. – Eu senti tanta tristeza e ódio como eu nunca havia sentido antes. Só de pensar que havia perdido você, foi como se todo o sentido da minha vida houvesse se perdido de novo. Eu... preciso lhe dizer uma coisa. – Florisval olhou para a amada, receando o que iria falar.
- O que é? Fale – disse a jovem num tom suave, notando a cerimônia do outro.
- Eu... matei o Adler. – Joana pareceu ficar um pouco surpresa com a revelação e esperou o floricultor terminar. Suas próximas palavras foram pronunciadas de forma afobada com um claro nervosismo. – Eu estava com muito ódio no coração. Nunca perdoaria aquele homem pelo o que havia feito. Então... eu peguei o meu arco e...
- Tudo bem – Joana falou interrompendo-o. Ela aproximou-se de Florisval vendo que ele parecia ficar inquieto à medida que contava. – Não se preocupe com isso. – Ela acariciou o seu rosto suavemente, e deu-lhe um beijo. Afastou sua face e ficou com seu rosto quase colado ao dele, misturando o ar que cada um respirava e exalava. Florisval sentiu sua amargura decrescer e uma boa e contagiante sensação tomar conta de sua alma.
- Eu estou aqui agora. Não precisa se lembrar do que sentia naquela hora. Sinta apenas o que sente agora, neste momento. Eu sou tudo o que você está sentindo. Portanto, esqueça que já me perdeu uma vez, enquanto eu estiver junto a você.
Florisval se sentiu tocado, e percebeu que ela tinha razão. Do que adiantava ficar mergulhando naquela terrível lembrança? Joana estava bem na sua frente, viva, e tudo estava perfeito. Não havia necessidade de perder tempo com lembranças ruins, quando o presente tornava-se o melhor possível. Viver apenas o agora era tudo o que importava pra ele.
Ambos, sendo enrolados por um agradável sentimento, aproximaram suas faces mais alguns centímetros. Quando seus lábios estavam prestes a se tocarem para um beijo mais profundo, uma voz estrondosa ecoou pelo corredor.
- FLORISVAL!!! – O chamamento de Melvin saiu do pequeno alto falante no teto. O barulho foi tão intenso que o casal espremeu os olhos e afastou os rostos, acabando com qualquer possibilidade de um beijo. Ondas sonoras quebraram todo o clima amoroso, deixando o camponês um pouco frustrado. Joana também estava decepcionada, mas a expressão do floricultor indicava um maior aborrecimento.
- Opa! Desculpe – Melvin falava novamente. – Não chequei os volumes antes.
- Não acho que faria diferença. Esse não foi o problema. – Florisval olhava para a câmera no teto um pouco atrás dele.
- Hã? Como assim? – perguntou o mago inocentemente.
“Não está vendo que você quebrou o clima” Era o que Florisval queria dizer, mas achou melhor ficar quieto. Não era característica dele reclamar muito, mas naquela ocasião bem que gostaria.
- Esqueça – disse o camponês. Em seguida, mudou o foco. – Certo, está na sala de segurança. Na parte direita do painel, depois dos televisores há uma tela de computador. Há um teclado e um mouse por aí. Ligue o computador num botão azul por aí, e na tela vai aparecer alguns níveis de acesso. Vá para o quarto nível. Ele é responsável pela entrada e saída de pessoas da base. Aparecerão algumas opções. Escolha livre acesso de indivíduos.
Melvin ouvia atentamente as instruções do Guardião. Ele moveu-se para o lado reparando na tal tela de computador, que ocupava um tamanho considerável da parede.
- Por que você não me conta isso enquanto eu vou acessando... – Nessa hora, sentiu o comunicador parar em sua mão. O fio que o prendia já estava todo esticado.
- O comunicador não vai até aí. – Florisval disse.
- Obrigado pelo aviso – Melvin disse ironicamente. – Vou contatá-lo novamente após liberar o acesso.
Melvin foi para o computador e notou que as luzes do equipamento estavam acesas.
- Já está ligado? – Melvin estranhou no primeiro momento, mas depois se preocupou em mexer.
Quando tocou o mouse, a tela saiu do preto, e a imagem descrita por Florisval se mostrou. Havia cinco grandes botões na tela num fundo que parecia uma parede fria com um tom de cinza e azul. Nela, algumas flores desenhadas semelhantes as da porta também enfeitavam o papel de parede. Os botões eram de uma tonalidade acinzentada e com letras avermelhadas. Melvin clicou no quarto botão de cima para baixo, intitulado “Nível 4”.
Ao clique, o botão pareceu expandir-se por toda a tela e revelando uma nova imagem. Algumas informações foram jogadas na tela. Os olhos de Melvin se moviam de um lado para o outro, e refletiam a luz que a tela emanava. Seus olhos sérios recebiam toda a informação que era analisada por sua mente. Após vários cliques indo de diretório em diretório, ergueu os olhos ao ver as opções que queria alcançar. Uma delas, era a que procurava.
- Livre acesso – murmurou ele, clicando na opção logo em seguida, e depois indo num botão de OK abaixo da tela. Imediatamente, após o clique um som de atenção e uma mensagem apareceram na tela.
“Essa opção irá desarmar todos os sentimentos defensivos, visto que estes servem para proteger tantos determinados lugares como toda a instalação. Tenha absoluta certeza que indivíduos com más intenções ou que não possuam permissão para determinadas informações entrem em lugares inconvenientes.”
O mago apertou OK, e um som de confirmação foi ouvido. Apesar do trabalho ter sido feito, tal mensagem que sumira, deixou-o preocupado.
- Lugares inconvenientes... Acesso apenas para magos... Talvez isso não seja apenas um paraíso de flores. Há algo mais neste lugar.
Movido por essa preocupação, o mago saiu da porta rumo ao único recinto que ainda era um mistério.
. . . . . . . . . . . . . .
A camada protetora que impedia a passagem de Joana e Florisval se dispersou, liberando a passagem para o casal. A mulher logo notou uma intensa luminosidade invadir a parte do corredor, imaginando que tipo de claridade seria aquela.
- Parece que ele conseguiu – Florisval disse caminhando até onde antes jazia a barreira. – Venha, Joana. Eu quero lhe mostrar isso. – O camponês virou-se para a jovem que permanecia atrás, e estendeu a mão para ela se aproximar. Ela o fez. De mãos dadas, ambos adentraram no realmente chamado paraíso daquele lugar.
Joana abismou-se com o local, ao mesmo tempo em que seus olhos transbordavam de admiração. A surpresa era grande, e ela observava cada detalhe daquele ambiente, tanto o céu como a natureza abaixo a seduzia. Ficou ainda mais vislumbrada com as diversas flores espalhadas pelo terreno.
- O que é esse lugar? – indagou ela, extasiada.
- Um paraíso – respondeu o camponês. – Venha comigo. Vamos descer até lá.
O casal caminhou até a metade do caminho, e chegaram a uma espécie de pilastra com um porta amarronzada. Florisval apertou um botão do painel ao lado da porta, e Joana ouviu um som incomum que parecia vir de dento da pilastra, mas para o camponês era apenas a subida de um elevador. A porta se abriu, um pequeno recinto quadrado se revelou. O camponês encaminhou-se para dentro dele, e virou-se esperando que a amada fizesse o mesmo, mas esta apenas olhava receosa para o lugar onde ele estava.
- O que vamos fazer aí? – ela perguntou.
- Descer, claro.
- Mas eu pensei que fossemos usar uma escada. Esse negócio desce o mesmo?
- Mas é claro. Isso é um elevador.
Joana olhou para a pilastra acima. Ela já havia visto elevadores, mas não igual ao que estava adiante. Não havia roldanas, e nenhuma força humana agindo ali, ou talvez, ela pensasse que eles fariam tal força por algum método. No geral, elevadores eram sistemas de transportes usados para levar equipamentos de uma latitude para a outra. Mesmo sem saber que tipo de elevador era aquele que Florisval estava, ela entrou.
O floricultor apertou um botão em mais um painel o lado da porta, e a mesma se fechou 0da mesma maneira que abriu. Joana ficou temerosa quando as portas se fecharam e se viu presa naquele espaço apertado.
- Não tenha medo. Vamos apenas descer – avisou Florisval apertando um botão logo abaixo do que havia pressionado anteriormente.
Com um barulho de deslocamento, o elevador começou a se mover. Foi então que Joana sentiu uma sensação estranha, que nunca havia sentido na vida. Ela abriu os braços como se fosse perder o equilíbrio.
- Florisval, o que está acontecendo? – ela perguntou assustada.
- Eu disse para não ter medo. Isso vai acabar antes que seu coração saia pela boca – respondeu o floricultor rindo.
Um estrondo final, e o elevador parou. A porta foi aberta, e Joana ainda olhava para o chão, espantada.
- Esse elevador desce sozinho, e ao meu comando. Mas não precisa se preocupar em entender isso agora, apenas olhe pra isso.
Florisval virou-se para a imagem revelada na porta, e Joana sentiu a mesma iluminação de antes preencher o pequeno recinto do elevador. Ela subiu o rosto calmamente, e se deparou com uma imagem admirável.
O ambiente parecia cintilar em todos os pontos. Um gramado de uma cor verde tão viva que seus olhos nunca presenciaram. Borboletas voavam sobre as inúmeras flores cultivadas em pequenos canteiros. Não chegava a ser um campo florido, mas poderia se dizer que era um jardim, de tantas flores que possuía. Mais adiante, havia um lago com sua superfície resplandecendo devido a iluminação que vinha de cima, como se estivesse imitando a luz do sol. A luz artificial e o teto azul pareciam fazer a mesma impressão de uma água límpida e pura num dia aberto.
Joana caminhou até a margem do lago, e olhou tudo o que tinha ao redor. Florisval estava parado um pouco atrás, apenas observando a jovem se vislumbrar com aquele lugar.
- É lindo – disse ela referindo-se ao que realmente parecia ser um paraíso.
- É um segredo meu. Um lugar secreto que apenas eu sabia. Naquela vez que eu sai para pegar um remédio para o mago, eu usei uma dessas flores. – Joana fitou as belas flores, porém desconhecidas. – Não são flores comuns. São mágicas.
- Mágicas? – Joana lembrou-se então da flor que recebera do camponês naquele dia, e que numa ocasião passada salvara sua vida. Ela pousou a mão sobre o busto, e lá estava dentro de sua roupa, a flor que havia recebido. – Como essa? Choradella, não é?
- Sim, como a Choradella.
- Mas eu não entendo – Joana fitou o local ao redor com uma expressão confusa. A natureza presa àquele lugar subterrâneo ainda era uma incógnita para ela. – O que é esse lugar?
Florisval suspirou com um ar irônico e respondeu:
- Pra falar a verdade, nem eu sei direito. Mas não é nada que possa nos prejudicar. É um lugar como qualquer outro. Algumas coisas daqui você não vai entender de cara, mas aqui, onde estamos pisando, tenho certeza que não terá dúvidas. Essa base é como se fosse uma segunda casa pra mim. É uma amiga que não conheço totalmente, mas me ajudou muitas vezes. – Florisval pensava em quantas vezes utilizou as flores mágicas em seu benefício e a dos outros. Nos últimos dias, ele as usou freqüentemente: a misteriosa flor que foi notada pelo mago quando ela curou seus ferimentos; a Rosa do Ligamento, que serviu para se aproximar de Joana criando uma espécie de ligação entre eles, e que no dia seguinte, foi crucial para encontrá-la; a Choradella, que salvou a vida de Joana na caverna, e a de Melvin e Florisval há pouco tempo. Aquele lugar era mesmo muito bondoso com ele.
Joana ainda temia aquele local. Mesmo que seu amado dissesse tudo aquilo, um evento anterior não saia de sua cabeça. O gás avermelhado que fora jogado na sala de monitoramento quando esta se encontrava lá.
- Aconteceu algo mais cedo que não entendi direito – disse Joana, com um olhar distante tentando recordar o momento. – Um tipo de gás invadiu aquela sala, e eu fiquei desesperada. Mal tive tempo de reagir, e meu corpo começou a fraquejar até que eu desmaiei.
- Que tipo de gás? – Florisval perguntou com um estranhamento.
- Ele era vermelho. Só sei que aquilo me fez adormecer por algum tempo.
- Você tem certeza? – Florisval perguntou com anseio. Joana confirmou e ele pareceu ponderar, um pouco confuso. – Mas uma coisa dessa não poderia acontecer. Seria impossível no modo de sistema atual.
- Por quê?
- O que aconteceu com você foi a ação do sistema de defesa desta base. Evita qualquer intruso que se infiltra neste lugar, e logo começa uma série de hostilidades. Entretanto, esse sistema só é mais ativo após aquela grande porta na qual nós passamos. Antes disso, praticamente não há nenhuma segurança, exceto os gases que são jogados na sala de monitoramento e no corredor. Existem de várias cores, cada um com o seu efeito, alguns deles podem até levar a morte. Felizmente, foi o vermelho que foi lançado, este causa apenas sonolência. Mas o que me incomoda é como este gás foi lançado.
- Como assim?
- Pode ter sido uma falha no sistema, mas se fosse isso, seria a primeira vez. O lançamento de gás naquela sala só é feito manualmente na sala de segurança pra onde eu mandei o Melvin. Em hipótese alguma aquilo seria jogado sem mais nem menos. E isso só me deixa com uma única conclusão. - Florisval olhou firmemente para a jovem. – Existe mais alguém além de nós aqui dentro.
. . . . . . . . . . . .
Passos se aproximaram da porta que seria exclusiva para magos. Melvin olhou para o painel ao lado, e após suas impressões serem lidas, a porta dupla se abriu lateralmente.
Estava um pouco escuro, e a luz do corredor iluminava vagamente o recinto. Mas pelo o que se podia ver, parecia ser um tipo de local de trabalho. Várias divisórias, mesas, cadeiras e alguns equipamentos semelhantes aos da sala de segurança. Parecia estar bem arrumado a primeira vista. Logo ao entrar algumas lâmpadas se acenderam fracamente. A maioria parecia estar quebrada, e as que funcionavam, iluminavam de forma bem fraca. A escuridão ainda permaneceu mais presente em alguns pontos do recinto.
Melvin se aproximou de uma das divisórias de trabalho, e passou o dedo na mesa, devidamente arrumada com alguns papéis, sentindo a poeira. Esfregou-a com o outro dedo e deu mais uma olhada pelo local.
- Parece que ninguém entra aqui há um bom tempo – murmurou.
Foi quando um zunido estranho de origem desconhecida chamou sua atenção. Ele rapidamente varreu os olhos pelo resto da escuridão do recinto procurando o significado daquele som, mas recebeu apenas o silêncio. Ficou mais algum segundo na extrema cautela, e ouviu-o de novo. Parecia ser algum tipo de bater de asas de um inseto.
- Quem está aí? – o mago perguntou, firmemente, enquanto partículas de energia surgiam em sua mão para formar o cajado que logo segurou. Melvin fixou os olhos num ponto adiante, um pouco ao fundo da sala. Parecia que uma pequena silhueta erguia-se com o mesmo zunido de antes. Tratava-se de algo flutuando com asas cintilando um cinza na escuridão. Logo, duas esferas vermelhas surgiram diante daquela silhueta, mas o mago logo percebeu que elas pertenciam à mesma. Eram olhos.
Em seguida, silhuetas semelhantes começaram a se elevar em outros cantos mais a frente, com o mesmo som de bater de asas de um inseto.
- O que é isso? – perguntou-se o mago fitando as pequenas e possíveis hostilidades. Eram cinco ao todo, bem separados um do outro. Elas flutuavam no ar, encarando atrás da primeira divisória. Pareciam que iam atacá-lo.

0 comentários:
Postar um comentário