As flores e a vegetação, que embora estivessem com uma aparência desolada em determinada parte do campo, moveram-se bruscamente devido a uma seca e violenta brisa, causada pelo voo rasante de um dragão. A Invocação Elemental de Melvin seguia com incrível velocidade na direção do oponente. Este, que mesmo a criatura estando a meia distância dele, permaneceu estático. Com a imagem do rosto do dragão, junto de sua enorme boca berrante, crescendo na vista de Karel, ele obrigou-se a se defender como podia.
Com a criatura bem próxima, o mago de cabelos alaranjados flutuou para o alto, com a mesma impressão de um enorme salto. Ele observou abaixo de seus pés, o corpo alongado do dragão percorrendo o caminho onde o alvo encontrava-se anteriormente.
Não muito longe, Melvin usava seu cajado para controlar sua criatura de água.
- Isso não acabou! – exclamou o mago, movimentando o seu cajado inclinadamente para o alto. Imitando este movimento, o dragão contornou, e mudou seu trajeto para cima.
- O que!? – Karel impressionou-se ao ver o dragão novamente voando em sua direção. Mesmo estando no ar, sabia que estaria
Uma enorme rajada de fogo proveniente das duas mãos avançou contra o dragão. As técnicas se chocaram e uma nuvem branca foi formada. Os metros finais do corpo alongado do dragão continuavam avançando, mas não se sabia se ele estava sendo detido ou não pelas chamas. Karel ria, certo de que havia anulado a criatura inimiga, mas sua certeza foi despedaçada ao ouvir um rugido vinda da nuvem à frente. O dragão de água ressurgia por cima do fogo, e berrava para o oponente ao mesmo tempo em que voava até ele.
- Não pode ser! – Karel não acreditou que não deteve o dragão. Cessou as chamas até então lançadas e se afastou na hora em que a criatura estava prestes a abocanhá-lo. O mago flutuou para trás e para o alto. – Maldição! Minhas chamas não fizeram nenhum efeito nele?
O dragão de água expeliu um jato de água na direção de Karel. Este que se surpreendeu pelo ataque, já que o inimigo estava apenas lhe seguindo até então. Exigiu de si mesmo para mudar o trajeto de seu vôo para baixo, desviando assim da rajada que passou muito perto.
Na superfície, a ponta do cajado de Melvin que jazia numa posição vertical, sendo segurada pelo seu dono, cintilou num tom azul claro.
- Invocação Elemental humana: Doppelganger – sibilou o mago de cabelos lilás.
O jato atirado pelo dragão anteriormente, ainda em movimento, começou a se comprimir e tomar forma. A imagem formada foi a de um humano, mas especificamente uma imagem líquida de seu invocador. Um Melvin feito de água se formou no ar.
- Inserir poder Elemental de Vento. – sibilou novamente o mago. Seu cajado brilhou no mesmo tom de antes.
Com isso, o Melvin no ar, voou em direção à Karel, que até então não havia o percebido, pois estava centrado de mais no dragão que ainda lhe perseguia. O mago de cabelos alaranjados, ainda voando para baixo de costas, fitou o dragão que vinha em sua direção.
- Eu não serei derrotado por algo como você! – disse o mago. De repente, ele foi forçado a parar, pois algo que não teve tempo de reconhecer, havia o segurado por trás. – O que? – perguntou Karel, se remexendo e olhando por cima dos ombros para saber quem lhe agarrava. – Você! Quando foi que... – Karel ainda estava impressionando pelo Melvin de água lhe segurando por trás. O rugido do dragão trouxe a atenção à frente. A invocação que lhe agarrava se aproximou de seu rosto e proferiu a mesma palavra que o Melvin na superfície.
- Dessa vez, você não escapará. – disse de forma séria e ameaçadora. Karel, abismado, e sem conseguir se soltar, por mais que tentasse se remexer entre os braços do agarrador, sentiu um crescente desespero.
- Me largue! Me largue! – gritou invocando labaredas que cobriu tanto ele quanto o Melvin que o segurava dessa vez. A água da invocação Doppelganger começou a evaporar, mas não da forma rápida que Karel queria. Este olhou para cima, e viu o dragão de água muito próximo. A criatura abriu sua boca, e rugiu para o alvo. – Que droga! Nãaao!
Num único ato, o dragão abocanhou o mago líquido e o outro. O Melvin se desfez em água, e Karel mergulhou dentro do corpo do dragão, que mudou o trajeto de seu vôo para o alto, pouco antes de quase se chocar com a terra.
Karel ainda gritava dentro do corpo cilíndrico e inundado de água da criatura, que aos poucos fazia sua “comida” se afogar. O mago se rebatia, mas a água penetrava em seu corpo. Foi então que sua boca bufou bolhas de ar, e ele parou de se mexer. Seu olhar era distante, e a vida presente nele, aos poucos foi se esvaindo.
“ Eu... vou morrer. Finalmente irei morrer...”
Lágrimas saíram de seus olhos, mesmo que impercebíveis naquele ambiente. Sentia-se livre finalmente. A agonia e o ódio por ter sido aprisionado durante séculos estavam lhe deixando. Tudo isso porque finalmente sua vida teria um fim merecido. A morte foi o seu único sonho e desejo para confortar sua alma, além de qualquer outro sentimento, até mesmo sobrepondo o ódio. Ele não buscava vingança, e sim uma paz justa e eterna.
O dragão começou a se desfazer. Borradas de água se desmanchavam e a forma da criatura desaparecia. O líquido encharcou o campo, abaixo de onde estava o dragão. No momento em que ele se desfazia no ar, nenhum sinal do corpo de Karel foi visto. Melvin já esperava por aquilo, até porque, tal mago nunca existiu. Eram apenas memórias materializadas que desejavam no fundo, um fim. Ela então desapareceu, e foi para um lugar de descanso e paz que não poderia ser alcançado por ninguém.
- Descanse em paz, Karel. – desejou o mago, com a respiração ofegante.
Há pouca distância dali, Joana e Florisval, observaram o mago distante. Ambos haviam assistido aquele último momento da luta.
- Ele conseguiu – disse Florisval, aliviado e feliz. – Ele conseguiu acabar com aquele estranho. – falou mais uma vez, a emoção de felicidade mais clara agora.
Melvin fez seu cajado sumir, e sentiu seu corpo bastante ofegante depois de realizar todas aquelas magias. Sabia que aquilo consumira muito a sua energia, e agora se sentia exausto. Bruscamente, ele pôs a mão sobre a boca e inclinou corpo. Sentiu um líquido subindo pela garganta que logo se transformou em um vômito. A grama queimada foi molhada com uma grande quantidade de água mesclada a sangue no meio dela. Uma tontura se apoderou do mago, e ele por pouco não desmaiou naquele mesmo instante.
- Essa não. Usei muito Energia Volaki, e agora meu corpo não consegue suportá-la. Efeitos colaterais... – ajoelhou-se e tossiu algumas vezes. Sua respiração e ritmo cardíaco aceleraram. Melvin agonizou perante as fortes dores no peito. – Droga...
Então o mago desabou no chão, inconsciente.
Episódio 14
Revelação da Miosótis
Não se sabia quanto tempo havia passado, mas o fato era que o mago já não se encontrava deitado no campo, mas em pé, num lugar fechado. A tonalidade azulada naquele cômodo vinha da luz do luar que provinha de uma janela aberta, apesar de que algo mais parecia realçá-la para um toque frio, mas agradável.
Melvin passou os olhos ao redor, e notou um homem sentado numa cama próxima, cuja pessoa era o dono do quarto. O mago fitou-o um pouco surpreso, pois aquela pessoa já não existia no mundo real. Chegou a conclusão de que aquilo se tratava de um sonho. Bartolomeu estava olhando para uma mesinha perto dele, onde havia um jarro com duas flores Miosótis.
Assim como na primeira noite de Melvin naquele quarto, a flor começou a liberar partículas de Energia Benigna pelo cômodo. Havia uma quantidade moderada espalhada pelo recinto, mas suficiente para despertar novamente a atenção do mago, este que foi surpreendido pela voz do homem na cama.
- Imagino que estas partículas representem os meus sentimentos, não é Sr.mago? – perguntou Bartolomeu, ainda com seu olhar sobre o jarro de flores que continuava emanando o brilho de seus sentimentos, segundo ele.
- É a energização de bons sentimentos. – respondeu o mago, fitando-as em seguida. – Com uma quantidade dessas, fica fácil sentir o que elas significam. – Melvin voltou seu olhar para o homem. – O senhor ama bastante as flores e o seu filho, não é?
- Sim. Eles são o que tenho de mais precioso no mundo. Por isso não consigo sair de perto deles. Tenho que olhá-los.
- Seu espírito ainda deve cuidar desse campo, não é mesmo? Mas ele tem seu filho também, e além disso, ele não estará sozinho de agora em diante.
- Sim, eu sei. Ele encontrou alguém especial que cuidará muito bem dele. Fico feliz por eles dois. E quanto a você, Sr. Mago, eu não sei quem é você realmente, mas apenas sabia que viria. – Melvin tentou dizer algo, mas apena tratou de escutar o que o outro tinha para dizer após o mesmo fazer um pedido com a mão erguida. – Deixe-me mostrar minha gratidão por ter protegido tudo o que mais amo.
De repente, uma luz iluminou o local, passando o ambiente para como se fosse de dia. Pela janela, ao invés da luz da lua, o que entrava agora era a luz solar, aquecendo o quarto agora bem iluminado. Pela porta do mesmo, entrou um jovem que Melvin logo reconheceu como Florisval. Ele caminhou até o pai, sentado na borda da cama.
- O senhor me chamou, pai? – perguntou o filho, num tom pouco animado. Melvin percebeu que ele se assemelhava ao Florisval desiludido após a morte do irmão
- Sim, meu filho. Chegue mais perto. – pediu Bartolomeu. Após o jovem ter se aproximado, o velho pegou uma das Miosótis no jarro, e mostrou-lhe ao filho. – Você sabe o que ela é? – Florisval apenas negou com a cabeça. – É uma Miosótis. Uma flor antiga e também mágica.
- Mágica?
- Sim. Dizem que ela é a chave para a abertura de portais que podem nos levar a um grande tesouro. Quando queremos encontrar segredos, basta apenas pegar essa flor, e a verdade se abrirá para quem desejar.
Foi nesse instante que Melvin arregalou os olhos, percebendo o que aquela frase lhe revelava.
- Miosótis... – sibilou o mago. – Então era isso!?
. . . . . . . . . . .
Melvin acabara acordando no mesmo quarto. O sonho rapidamente cessara sem nenhum indício de que terminaria. Já na realidade, o mago pôde ouvir sussurros ao seu lado. Era Joana, com uma expressão alegre, sibilando palavras de agradecimento. Ela virou-se para a porta e gritou pelo camponês.
- Florisval! Venha logo! Ele está acordando! – gritava ela.
- Joana... você... – Melvin ainda estava confuso por vê-la, pois antes mesmo ela se encontrava sem vida. Queria perguntar como estava viva, mas a voz do floricultor vindo da porta inibiu sua tentativa.
- Melvin! Que bom que acordou! Parece que o soro realmente fez efeito – disse o camponês se aproximado da cama.
- Soro? Isso veio de mais uma de suas flores, não? – Florisval ficou meio sem graça pra responder.
- É, foi sim. Mas o importante é que você está bem. Deve ter sido muito difícil lutar com aquele homem ou coisa, ou o que quer que tenha sido aquilo.
- Não se preocupe. Ele já não existe mais. “Na verdade, ele já não existe há muito tempo.” – Melvin deixou sua última frase para ele mesmo. Prontificou-se em esclarecer outro ponto. – Como foi que a Joana sobreviveu? Pensávamos que ela estava morta, afinal, vimos o corpo dela, ou não vimos? – Melvin ficou esperando uma resposta de algum deles, mas observava apenas a hesitação para contar. – Florisval, o que houve com a Joana? Por que ela está viva?
Florisval e Joana recordavam-se da conserva que tiveram poucos instantes antes com o namorado.
Joana, uma hora ou outra, limpava o canto da boca do mago, por onde escorria um pouco de saliva. Ela estava cuidando dele enquanto o corpo do homem jazia na cama do quarto de Bartolomeu. Florisval saira do quarto há quase meia hora e ainda não voltara. Ela ficou preocupada e ao mesmo tempo curiosa para saber o que ele andava fazendo. O camponês apenas lhe dissera que encontraria um remédio para ajudar Melvin, mas não mencionou para onde iria. Entretanto, Joana presumia que ele estava naquele estranho lugar o qual estivera algum tempo atrás.
Seus pensamentos sobre ele cessaram quando notou o mesmo entrar pela porta do quarto.
- E então? – Joana perguntou, sentada numa cadeira ao lado da cama. Florisval respondeu permanecendo com seus passos no cômodo.
- Isso aqui irá ajudá-lo – ele disse com um objeto peculiar na mão direita, e desconhecido por Joana. Tratava-se de uma vacina com um líquido esverdeado.
- O que é isso? – perguntou a jovem olhando para o item em questão.
- Um remédio... – respondeu Florisval, se aproximando do homem na cama. Ele aproximou a agulha da pele do mago, fitando-a com precaução. Joana receou-se com aquele ato, pois pensava que aquilo feriria Melvin. -... Irei injetar esse líquido nele. Isso o fará melhor. – Florisval explicou, reduzindo o estranhamento de sua namorada.
O camponês penetrou a agulha no braço do mago, e empurrou o embolo para o líquido entrar na circulação sanguínea. Feito isso, ele o retirou. Uma ponta de sangue saiu do furo que logo estancou.
- Eu não sei fazer essa coisa direito, mas espero que funcione como o esperado. – disse ele.
Joana o olhou com ainda maior confusão do que antes. Depois que Glin a jogara naquele lugar subterrâneo, ela se deparara com muitas anormalidades. As telas de vidros semelhantes a janelas que mostravam o campo e o interior da casa, a porta estranha sem maçaneta que abria lateralmente, o gás avermelhado jogado na sala, e até mesmo a tal caneta mostrada por Glin no dia anterior. Não pareciam ser coisas do seu mundo, mas o fato é que existiam, e ela queria uma explicação para tudo o que vira de incomum.
- Florisval... o que está acontecendo? – ela perguntou com uma expressão mista de temor e curiosidade. O camponês virou-se para ela, mas sem entender a pergunta. – O que são aquelas coisas estranhas?
- Do que está falando?
- Eu estive naquele lugar estranho. – Neste instante, Florisval arregalou um pouco os olhos imaginando se ela estaria falando do local que ele pensava. – Havia coisas incomuns que eu nunca tinha visto na vida. Uma luz que não vinha do fogo, uma porta que se abria de um jeito estranho e ... janelas que mostravam outros lugares.
- Como... como você chegou a esse lugar? – perguntou o floricultor, incrédulo por Joana ter descoberto o seu segredo. Joana apertou a roupa na altura do joelho, sabendo que seria algo difícil de contar. Foi neste momento, que Melvin acordou.
Joana suspirou, e enfim, começou a contar.
- Foi Glin quem me avisou que o Adler estava no campo. Ele disse para eu me esconder, mas eu não sabia onde até ele me indicar um lugar. Tal esconderijo ficava no quarto de Florisval. Então... ele usou uma flor.
- Não precisa contar essa parte, Joana. – Florisval a cortou. Não queria revelar ao mago o seu esconderijo, apesar de Glin e Joana terem o descoberto. Melvin analisou bem a expressão do camponês.
- Acho que nem será preciso – disse o mago, passando a encarar o floricultor. – É a Miosótis, não é? Ela é a chave para o seu segredo. – Florisval o olhou, incrédulo. A imagem da flor estava ao lado do mago, depositada normalmente dentro de um jarro sobre uma mesinha ao lado da cama.
- Co...como você descobriu? Não me lembro de tê-lo contado.
- Bem... digamos que apenas conclui. – Melvin disse desviando o olhar, escondendo o fato de alguém ter revelado o segredo do filho. – O que houve depois? – perguntou o mago retomando o assunto. Joana continuou.
- Após uma passagem ser aberta, algo aconteceu com o Glin. – Florisval e Melvin fitaram a jovem atentamente. – Ele se transformou em mim.
- Hã!? Como assim se transformou em você? – Florisval perguntou, surpreso.
- Era... como se estivesse olhando para o espelho. – recordou-se a mulher.
- Um poder Volaki de autotransformação... – Melvin supôs. – É uma explicação possível já que o Glin guardava uma esfera Volaki. É provável que ele tenha tido contato com outras esferas enquanto agia como guardião delas. Mas não faço idéia dos motivos que o levaram a adquirir tal poder. Diferente dos humanos, os gnomos têm aptidões para forças mágicas, o que leva o suporte de um poder Volaki algo fácil. Mas continue. – Melvin olhou de volta para Joana. – Para onde vocês foram em seguida?
- O Glin me empurrou – contou a jovem com uma expressão melancólica mergulhando no passado. O sorriso gentil que ela via na Joana disfarçada ficara marcado em sua memória. – Eu cai dentro daquela passagem e não consegui mais subir. Mas... e o Glin? – Joana perguntou voltando-se para os dois com uma expressão ansiosa. – Eu quero saber onde ele está. Vocês o viram, não viram?
Florisval abaixou o rosto depressivamente ao se lembrar do momento em que pensara ter visto o corpo de Joana
- Ele... – Florisval hesitava em falar, pois sabia que aquilo chocaria sua namorada. Ela, por outro lado, ansiava ainda mais pela resposta.
- Está morto – foi Melvin quem completou, olhando para a janela. Ele recebeu o olhar incrédulo de Joana, depois de ouvir aquela cruel resposta.
- Mo...Morto? – ela perguntou ainda não acreditando. Tentou dizer algo mais, vendo que não recebia resposta. Seus lábios tremiam por aquela trágica verdade.
- Ele se sacrificou... por você. – Melvin disse. – Talvez, ele tenha se sentido culpado por não ter sido capaz de proteger o tesouro de sua família, e quis compensar sua falha no final. Glin cumpriu até o fim, o seu trabalho como guardião.
Joana não conseguiu se agüentar, e logo caiu
- Vamos enterrar o corpo de Glin mais tarde. – Melvin disse fitando a mulher. – Antes disso, terei de entrar nesse tal lugar misterioso.
- O que!? – Florisval falou, surpreso.
- Esse tal lugar que você esconde... já está na hora de eu vê-lo. – O mago encarou o camponês. Pegou uma das flores que jaziam no vaso ao lado dele. – Além do mais, eu sei muito bem como entrar.
Florisval já não podia deter o mago. Ele hesitou, mas finalmente desistiu de esconder o jogo. Pegou a flor da mão de Melvin e caminhou para o seu quarto dizendo que abriria o portal. Melvin levantou-se um pouco com dificuldade, e o seguiu, assim como Joana. Momentos depois já estavam no quarto com a entrada no chão.
A paisagem encontrou-se aberta para as pessoas no cômodo. Joana olhava mais uma vez para aquela entrada, mas com receio do que havia abaixo. Melvin analisou a simples passagem subterrânea.
- Foi esse o lugar onde entrou, Joana? – o mago perguntou sem tirar os olhos do buraco.
- Sim. – ela confirmou.
- Certo! Vou descer.
- Eu irei junto. – disse o camponês.
- Eu também – manifestou a mulher. – Não quero ficar aqui sozinha. Prefiro acompanhá-los, mesmo sabendo o que há lá embaixo.
- O que há lá embaixo? – Melvin perguntou, notando certo temor no rosto da jovem.
- Você verá – disse Florisval, iniciando a descida pela escada.
Instantes depois, os três já se encontravam no subterrâneo, no mesmo corredor onde Joana estivera anteriormente, esta que fitava o local recordando-se de ter estado nele. Melvin analisou as luzes acima deles que iluminavam o corredor.
- Lâmpadas?... Há eletricidade correndo por aqui? – perguntou o mago olhando para o alto. Logo percebeu que a passagem por onde vieram não estava mais lá, sumira dando lugar ao teto.
- Já deve ter percebido que não é um lugar comum, não é? – Florisval falou caminhando à frente. Os demais o acompanharam até chegarem a uma porta à esquerda do corredor.
- Foi nesse lugar onde entrei – Joana falou olhando para ela.
Melvin apertou um botão no painel ao lado da porta, e ela correu para a direita. Logo de cara, o mago notou uma luz meio cinzenta emitida pela imagem sem sinal dos televisores ao fundo da sala. Apenas três telas estavam com sinal, mostrando o interior da casa do camponês. Florisval foi o primeiro a entrar. Já dentro do recinto, andou para a direita, e após alguns passos, encontrou um interruptor. As luzes se acenderam nas oito lâmpadas retangulares aderentes ao teto, divididas em duas fileiras de quatro, da entrada ao final do recinto. Florisval caminhou até o centro da sala, aonde Melvin e Joana chegaram
- São câmeras de vídeo – explicou Florisval. – Provavelmente foram quebradas pelo fogo que destruiu quase todo o campo. Inicialmente mostraria aquele lugar, mas apertando alguns botões no painel é possível ver outros lugares como minha casa, as montanhas, e a floresta aqui próxima.
- Um sistema de segurança deste nível é necessário para proteger um lugar como esse? Foi injetada muita tecnologia aqui. – Melvin desviou o olhar das telas e fitou o camponês. – Quantas espécies de flores mágicas você guarda aqui embaixo?
- Eu vou lhe mostrar – Florisval disse, caminhando de volta para a saída. Melvin o seguiu, mas Joana ficou parada ainda olhando para o resto da sala. Tudo parecia ainda meio confuso para ela e até um pouco assustador, mas limitou seu medo, e confiou em Florisval, que era o dono daquele lugar.
Voltaram ao corredor inicial e caminharam mais um pouco até virarem à esquerda. Joana ainda não tinha ido por aquele caminho, sentia-se ansiosa e um pouco espantada. Eles chegaram numa grande porta de metal cobrindo toda a passagem adiante. Nela, estavam entalhadas no metal, desenhos de várias flores. À frente desta porta, no lado esquerdo, havia um pequeno altar com um painel composto de apenas uma tela negra de dez centímetros quadrados, e duas luzes: azul e vermelha, sendo que a última estava acesa. Joana lembrou que um sistema semelhante guardava o tesouro Goldin no cofre de Glin.
Florisval se aproximou do painel e ameaçou colocar o dedo na tela, mas parou no meio do caminho.
- Sei que minhas impressões digitais são a chave para abrir esta porta, mas... – o floricultor fitou o mago, parado próxima a Joana. – ...é provável que as suas também sirva, afinal, esse lugar originalmente pertence a vocês, magos.
Melvin franziu a testa com a revelação, e caminhou para o painel. Hesitou alguns instantes, analisando o sistema diante dele, e finalmente pôs o seu dedão sobre a tela negra. Imediatamente, uma listra azul correu a tela horizontalmente, escaneando as impressões digitais do mago. Após o processo, a luz azul do painel acendeu, e a vermelha se apagou. Ouviu-se um pesado som de destrancamento, e o mago então retirou se dedo do scanner, pondo-se a observar a grande portal de metal se abrindo.
Ela dividiu-se no meio, e cada parte movia-se lateralmente para seu respectivo lado. Um forte arrastamento acompanhava a abertura. Logo puderam ver mais alguns metros de corredor, e algo bem peculiar adiante. Parecia uma camada protetora semelhante a uma porta, mas era transparente, dando para ver o outro lado borrado através dela. Um tipo de energia parecia dançar em sua espessura.
- O que há do outro lado? – Melvin perguntou. O grupo já estava em frente à camada, recebendo uma luz refratada que vinha do outro lado.
- Um arsenal de flores mágicas, e algumas coisas, e outras que nem eu faço idéia. – Florisval respondeu.
- Arsenal? E nem mesmo você sabe o que tem aqui? – o mago o olhou, um pouco surpreso.
- Esse lugar... foi construído pouco antes da “Guerra da Energias”, há seis anos. Vários magos trabalharam na sua construção, e meu pai foi o escolhido para ser o Guardião desta base. Mas... eu apenas soube disso pouco depois de sua morte. O Sr.Balto, dono de uma taberna em Govenrrar, me entregou uma carta alguns dias após a morte do meu pai.
“ Meu filho, preciso lhe revelar um segredo que não pude contar enquanto estava vivo. Tive medo do choque que poderia causar nos seus olhos sem vida. Pedi para o Balto lhe entregar isso quando sua alma estivesse curada. Preste muita atenção, pois o que vou revelar nesta carta poderá mudar toda a sua vida um dia.
Enquanto você e Eric estavam em Seylor, um mago me visitou dizendo que precisava de minha ajuda. Ele disse que fui reconhecido pela minha bondade e honestidade e que por isso, seria o encarregado de guardar um importante segredo.
Os magos começaram a construir uma espécie de base ou arsenal subterrâneo sob o campo florido. Pude constatar que esse lugar ficava a mais de
Eventualmente, eles começaram a despejar flores estranhas na base. Me deram um livro para eu saber sobre elas e suas respectivas “propriedades”. Elas não são flores comuns, são mágicas, portanto, tome cuidado ao manuseá-las.
Ao entrar nessa base, você encontrará vários documentos que o ajudarão a administrá-la. Você será um Guardião. Esse título será seu, assim que eu falecer. Os magos usaram esse lugar na época da guerra, e desde então, nenhum outro mago apareceu. Entretanto, o mago de cabelos verdes, que parecia ser o líder do grupo que construiu esse lugar, me assegurou que a base seria usada novamente por um outro mago deste mesmo grupo, num futuro próximo. Me alertou também para contar sobre o lugar apenas para magos, mas aqui vai um conselho pessoal: não conte para ninguém, mesmo se um mago aparecer na sua frente. Quando isso acontecer, finja que nunca leu esta carta na vida. É provável que ele não seja do grupo responsável pela base, e isso pode acarretar alguns problemas que nem imagino quais sejam. Apesar de um mago ser um mago, não creio que todos sejam confiáveis. Se algum mago daquele grupo retornar, ele saberá como entrar por conta própria ao invés de ficar investigando.
Não se esqueça, Florisval. Você é o Guardião. Eu consegui suas impressões para que você também tenha acesso ao interior da base. Como Guardião, cabe a mim decidir aqueles que podem ou não entrar no local secreto, e agora essa missão será sua. Os únicos humanos que podem entrar lá somos nós, apesar de que apenas pessoas escolhidas possuem as impressões digitais que são a chave para abrir a porta de acesso
Espero que esteja preparado para isso. Sei que não vai entender esta carta na primeira vez que ler, mas uma hora entenderá. Não se preocupe com as anormalidades. São avanços de um povo superior, e não farão mal a você.
Despeço-me aqui, meu filho. Boa sorte!”
- Eu sou o Guardião desta base, e você, uma pessoa escolhida para ter acesso a esse lugar. – falou o floricultor.
-Eu não entendo. Em que se baseia essa escolha? Por que eu?
- Isso eu não sei. Até mesmo o Guardião tem seu nível de acesso a informação limitada, o que provavelmente não deve acontecer com um mago escolhido. Melvin, nesse lugar, sua autoridade é maior que a minha. Agora que sei que você é um dos escolhidos, não preciso temê-lo. Fiquei em dúvida sobre você, já que não sabia como entrar nesta base, e muito menos tinha conhecimento sobre ela, e por isso deduzi que não fazia parte do grupo que construira esse local seis anos atrás.
- De fato, é a primeira vez que estou aqui.
- Mas se a porta abriu, significa que você tem acesso ilimitado às informações daqui. Cabe a vocês descobri-las. – disse o Guardião fitando a camada protetora. – Apenas as pessoas escolhidas passam por essa camada, não precisa temê-la.
- Certo. Eu verificarei. Tem muita coisa nessa história que ainda precisa ser revelada. – Melvin disse ficando de frente para a camada na iminência de penetrá-la. – Aqui vou eu.
- Eles chamaram este lugar de... – Florisval dizia enquanto o mago passava pela camada que em nada lhe fazia efeito. – Refúgio da Esperança.

2 comentários:
Oi Luiz! Como vai?
Comecei hoje a acompanhar seu blog, e uma proposta a lhe fazer. Sou autor do RPGS, e estou procurando novos escritores para se unirem a mim no site. Talvez você recuse por já escrever no Mundo Sombrio, mas a minha intenção é que você passe a escrever os textos que publica aqui no RPGS, ao invés de como faz atualmente. Quero unir vários autores no meu blog para, além de aumentar a frequência das postagens, aumentar o dinamismo das histórias (veja meu primeiro post explicativo).
Já lhe enviei uma mensagem com o pedido para que possa se tornar escritor do RPGS, caso concorde. Meu e-mail é tulicloure12@yahoo.com.br, caso queira se comunicar. O que acha da idéia? Acredito que seja proveitoso para nós dois.
Ah certo, nesse caso realmente não dá.Mas se quiser colocar lá também é só avisar. Quando acabar o livro me manda as informações que aí eu coloco uma propaganda lá e, quem sabe, até compro um.
Qualquer coisa dá pra fazer participações especiais nas histórias Abertas, só colocar nos comentários ou enviar para rpgsproject.blogspot.com.
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