23 de setembro de 2009

Mundo Sombrio - Capítulo 13 - O sacrifício de Glin

Capítulo 13


O sacrifício de Glin

O aviso do gnomo assustou Joana, que se viu alarmada com a situação inesperada. Não sabia como reagir até ouvir o conselho de Glin.

- É melhor se esconder. Ele não pode te ver aqui.

- Mas me esconder onde? Eu posso fugir pela porta...

- Não, não. Ele pode te alcançar – desaprovou o outro resgatando sua idéia em seguida. – Eu sei de um bom lugar. – Glin falou de forma firme.

z88;

Florisval observava atentamente atrás de uma brecha da porta. Joana dormia profundamente na cama do quarto de Bartolomeu. Uma tênue luz noturna adentrava pela janela iluminando levemente o rosto sereno de sua amada.

Após analisar se Joana estava realmente dormindo, encostou a porta e andou suavemente pelo corredor como se não quisesse fazer barulho. Colocou o rosto para observar a cozinha, e fitou sobre a mesa, a luz amarelada da lamparina incidir sobre a face sonolenta do gnomo. Ele dormia encostado num pote de geléia inacabado; sua cabeça levemente abaixada, e de olhos fechados denotavam o que o floricultor esperava. Mesmo que ainda estivesse desconfiado, pois Glin aparentava sibilar algumas palavras em sono. Entretanto, era o suficiente para o que almejava.

Tomou o caminho do quarto em passos sorrateiros, e calmamente aproximou-se da frente de sua cama. Retirou uma Miosótis de seu colete, e executou o que fazia naquela ocasião.

Na cozinha, Glin começou a resvalar suas costas para o lado enquanto murmurava para si mesmo.

- Minha geléinha... volte...Eu preciso...eu preciso de você... minha geléinha.

Foi então que Glin acordou sobressaltado, após ter caído de lado sobre a madeira da mesa.

- Ah, o que? Geléinha... – falava o gnomo recém-acordado. Ficou sentado e pôs-se a olhar para trás. Sorriu aliviado e feliz ao notar o pote de geléia atrás dele. Fez uma cara manhosa e abraçou o vidro. – Arf, você está aqui. Não perdi você. Ainda bem. – Afastou o rosto do pote e permaneceu com o sorriso. – Acho que vou bater uma boquinha antes de cair no sono de novo.

Glin estava prestes a abrir o pote, quando suas orelhas moveram-se devido a sua audição aguçada. Uma voz soando bem baixa quase como um murmúrio podia ser escutada.

- O que é isso? – Glin perguntou-se. Movido pela curiosidade, como sempre, desceu pelo pé da mesa, e caminhou de forma sorrateira pelo corredor. Seguindo a tal voz parou em frente à porta do quarto de Florisval que se encontrava entreaberta.

- Joana... irei te dar um presente especial. – disse o camponês com um rosto distante e feliz. Enquanto fitava o chão, nem imaginava que um pequeno ser lhe observava pela fresta da porta.

Florisval depositou a flor sobre o chão e proferiu outras palavras. Ao pedir um tipo de revelação, linhas brancas começaram a delinear um quadrado que logo se enchei de um intenso brilho para em seguida esvaecer mostrando um buraco.

"O...O que foi que ele fez" perguntou-se o gnomo. Quando sem querer, soltou um soluço. Pôs as mãos sobre a boca dando-se conta da besteira que tinha feito. "Essa não!". Florisval virou-se na direção da porta, e notou uma figura escondendo-se atrás dela.

- Quem está aí? – perguntou ele de forma segura. Glin, sabendo que fora descoberto, abriu a porta vagarosamente. – Glin! – exclamou o camponês vendo o gnomo com cara de arrependido.

- Desculpa, desculpa! Eu não tive a intenção de espioná-lo – discorria o gnomo, um tanto nervoso. – Eu estava dormindo, ou melhor, acordado, quando ouvi alguém falar alguma coisa. Então eu vim ver o que era, mas não sabia o que você estava fazendo. Seja lá o que foi isso, juro que se quiser, eu não vou querer saber. Eu... – Florisval apenas suspirou em meio às palavras alarmadas que escutava.

- Não se preocupe, Glin. Eu não vou pegar no seu pé por ter descoberto esse segredo.

- Não?

- Não. Mais cedo ou mais tarde, eu contaria a Joana sobre esta passagem. E conseqüentemente, você também saberia. – Florisval fitou o buraco quadrado no chão, com uma escada de metal aderente a parede no lado onde o camponês estava. – Seria difícil esconder um lugar desses convivendo com mais duas pessoas aqui.

- Hã? Quer dizer que vai me aceitar definitivamente como da família? – Glin perguntou. Florisval voltou seu olhar para ele.

- Se eu não fizer isso, a Joana vai brigar comigo, e eu não quero criar uma quando nunca tive.

- Dá impressão de que se não fosse por ela, eu estaria na rua.

-Mas é isso mesmo. – disse o camponês de um jeito cínico, que deixou o gnomo constrangido. – É brincadeira. É legal ter sua companhia aqui, desde que não me leve à falência comprando potes de geléia.

- Er... eu vou tentar. "Tomara que ele não seja muito mão fechada". Glin guardou sua última frase no pensamento.

Florisval voltou o olhar para a passagem. Glin sentiu-se invadido novamente pela curiosidade.

- Já que não é mais nenhum segredo, pode me contar o que é isto?

- É um lugar secreto de... Bem, acho que só você vendo pra saber. – disse Florisval. – Venha comigo!

Atraído pelo convite do camponês, Glin caminhou até a passagem para descer.

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- Que lugar? – Joana perguntou.

- Venha rápido, por aqui – Glin a levou até o quarto de Bartolomeu e pediu para ela pegar uma Miosótis depositada dentro de um jarro ao lado da cama. Feito isso, se dirigiram para o quarto de Florisval. Por sorte a janela estava fechada, assim Adler não os poderia ver do campo. Lá, Glin pediu a flor e proferiu as palavras que ouvira na noite anterior.

- Libere o seu segredo!Abertura do portal!

- O que é isso? – Joana perguntou fitando o buraco.

- É uma passagem para o subterrâneo – disse o gnomo. se aproximando da jovem. – Adler nunca irá achá-la se resolver vasculhar a casa à sua procura. Mas antes de entrar lá, uma coisa precisa ser feita. – Joana fez uma cara curiosa. – Encoste o dedo na minha mão e permaneça com ele encostado. – disse estendendo sua mão.

- O que irá fazer? – Joana perguntou fazendo o mesmo.

- Você verá – Glin respondeu pouco antes do toque entre os dedos da humana e a mão do gnomo.

No instante do toque, uma luz branca proveniente do mesmo emanou pelo recinto. Essa mesma luz pareceu ressonar no corpo de Glin que foi envolvido por uma forte claridade. O mais impressionante era que a forma de seu corpo foi mudando. Sua altura foi se elevando e sua musculatura se aproximando a de um humano, mais especificamente de uma mulher. Joana admirava aquela transformação. Mas ficou mais impressionada ainda, quando a luz cessou lentamente e o novo corpo de Glin, que não se parecia nenhum pouco com um gnomo, se revelou.

Joana tentou proferir algumas palavras, mas a tamanha surpresa a impedia. Ela praticamente olhava-se no espelho. Á sua frente, estava uma outra Joana, que na verdade, era Glin.

- E então? Estou parecida com você? – perguntou ele com a mesma voz de Joana.

- O...o que... o que você fez? – a jovem perguntou, ainda abismada.

- Desculpe se te assustei. Não era a minha intenção. Mas eu tive que me transformar. Esse é um dos meus poderes que ainda não pude mostrar para vocês.

- Transformação... – disse Joana olhando para a outra Joana, analisando cada detalhe semelhante que esta tinha com a original. Até mesma a roupa, havia sido copiada. – Mas... o que pretende fazer com isso?

Glin sorriu e movimentou seu corpo. Joana não esperava um abraço daquela pessoa. Ainda com o sorriso no rosto, ele se afastou e com as mãos dadas com Joana, a fez mover seus pés sem ela perceber por estar confusa com o ato anterior. Atrás de Joana, estava a passagem subterrânea.

- Desça, Joana. Estará segura lá embaixo – Glin disse gentilmente.

- Glin, não me diga que você vai... – Joana apenas observou o sorriso da outra. Ela a viu se aproximando ainda com o sorriso no rosto.

- Obrigado... – agradeceu ele. – ...Por serem meus últimos amigos. – Após a fala, Glin deu um suave empurrão em Joana, mas o suficiente para ela se desequilibrar e cair no buraco. Seus pés não acharam mais uma base sólida, e Joana viu-se caindo na pequena passagem. Sua mão direita estava tentando alcançar a outra Joana, que apenas mostrava um sorriso de "adeus".

- GLIIIN! – O grito de Joana ecoou enquanto ela caia.

Não se passou nem dois segundos da queda, e seu corpo já colidira com algo sólido. O piso branco foi responsável pela dor em seu corpo. Não caiu de mau jeito, mas o joelho bateu com um pouco de força na queda. Sentiu-o dolorido. Ela pôs a mão nele, fazendo um careta para agüentar a dor.

Rapidamente olhou para cima, e impressionou-se ao ver apenas um teto pintado de branco. A escadaria de metal jazia na parede atrás dela, mas terminava quando chegava no teto de pouco mais de dois metros. Joana não compreendeu, pois ao ver a passagem de cima, parecia ser de grande profundidade pela escuridão que aparentava. E agora a mesma já não estava mais ali.

- O que!? Por quê? – perguntava-se ela, confusa. Encontrando-se num corredor iluminado por uma luz branca vindo do teto, não muito longe dela.

No térreo, Glin havia fechado o portal. Ele olhou uma última vez para o chão onde era aberta a passagem.

- Desculpe, Joana. Mas é para o seu bem. – disse ele. Caminhou para a cozinha e abriu a despensa. Lá, havia mais um único pote de geléia. – Que droga! Eu queria ter acabado com a geléia daquele camponês. – falou ele sorrindo. Algo além da geléia lhe chamou atenção. Uma flor jazia escondida na escuridão da despensa. Quando Glin usou a mão para puxá-la, esta se revelou ser uma Choradella.

- Esta flor... – murmurou ele. Sorriu e colocou adentro de sua roupa. – Agora, eu me pareço mais com a Joana.

Fitou a porta, e finalmente tomou coragem para ir afora. Deu uma última olhada para o interior da casa e saiu. Deu a volta na moradia, e parou em frente a mesma. Fitou o homem que se encontrava parado no campo. Adler avistou-o. Glin pôs-se a andar até ele.

Parou na frente dele murmurando o nome do homem.

- Adler...

- Parece que você percebeu, minha querida – disse o homem num tom sarcástico. – Todo o meu plano para conseguir pôr as mãos no tesouro de sua família foi executado perfeitamente. Embora alguns contratempos, eu consegui superar todos os obstáculos. Entretanto, ainda falta algo essencial para que isso acabe... – pausou com um sorriso afetado no rosto. - ...Matá-la! Imagino que esteja cheia de raiva e ódio por ter despedaçado sua vida. Afinal, fui eu quem matou o seu pai e roubou o seu tão precioso tesouro. – continuou ele, achando graça de suas próprias palavras.

- O que você pretende fazer com esse poder? Isso não te levará a lugar nenhum – Glin disse, sem medo, tentando confrontar o homem.

- É incrível como pessoas que possuem uma mente tão madura sejam tão ingênuas. Não parece que pertence a uma família de nobreza. Seu jeito de ver as coisas é totalmente o contrário de suas raízes. É patético! Você me enjoa pelo fato de não conseguir largar os sentimentos de seus pais. Eles já morreram. Não fazem mais parte deste mundo. A única coisa aproveitável deles já foi queimada naquele incidente que eu mesmo causei. – Glin mostrou uma expressão de agastamento. Maldades como as que ouvi com pessoas que ele ama faziam-lhe ficar irritado.– Pessoas como você, quando enfrentam caras como eu, são fáceis de lidar. Nossas mentalidades são diferentes, nossas motivações são diferentes, nossas próprias imagens na sociedade são diferentes, assim como nosso estado físico neste mundo. Um morre e outro vive. – Adler ergueu sua mão direita em direção a Glin, como se estivesse prestes a lançar uma de suas rajadas. – E acho que você sabe quais pessoas morrerão, não sabe? – Glin moveu seu rosto para baixo, demonstrando que estava refletindo, mas ao mesmo tempo denotava infelicidade em seus olhos.

- Justo agora que havia encontrado pessoas especiais. Quando estava prestes a conhecer uma nova vida. Eu... morrerei aqui?

- É o cenário perfeito, não acha? Não é você que adora flores? Faça companhia pra elas até depois de sua morte – disse soltando uma risada em seguida. Glin estremeceu, apenas fechou os olhos e preparou-se para a pior dor física de sua vida. – Adeus, família Goldin! – proferiu o homem antes de lançar uma rajada que atingiu em cheio o corpo de Glin. Ele caiu para trás, enquanto Adler continuava a incinerá-lo, e sua risada se misturava ao som dos gritos da falsa Joana e das chamas que a queimavam. Suas gargalhadas continuaram quando que com as duas mãos, ele passou a lançar suas chamas por todo o espaço em volta. Glin tinha seu corpo estendido no chão envolto pelas chamas que consumiam sua carne. O grito dele ainda era audível, o que incitava ainda mais a risada de seu assassino. As lágrimas do gnomo apesar de profundas, não apagaram as chamas que invadiram os seus olhos.

As labaredas pelo campo rapidamente tomaram proporções maiores, e grandes lumes se formaram, consumindo todas as flores que tiveram o mesmo destino de um gnomo que morrera perto delas, por ter salvado a vida de uma mulher.

"Eu nunca imaginaria que o dia da minha morte estivesse tão perto. É uma pena que eles não saibam, mas... as últimas horas... valeram mais que centenas de anos da minha vida."


Joana socava o teto da parede enquanto sua outra mão segurava o degrau da escada de ferro, e seus pés pousavam em outro mais abaixo.

- Glin! Glin! Me tire daqui! Glin! – gritava ela permanecendo com os socos que não fizeram nada além de causar dor em seus dedos. Incomodando-se com essa dor, ela parou e apenas fitou o teto acima. – É inútil. A passagem não quer aparecer.

A mulher desceu as escadas, e desviou sua preocupação pela primeira vez para o lugar onde estava. Seria um corredor comum se não fossem pelas estranhas luzes provenientes de vidros retangulares em algumas partes do teto. A luz branca clareava mais que qualquer tipo de lamparina. Não pareciam ser brilhos causados pelo fogo, e sim por uma outra coisa, talvez por magia, ela pensou.

Ignorando este detalhe, ela passou a observar o corredor inteiro. Era um pouco comprido, até o final que virava em um outro corredor para a direita. As paredes tinham uma cor bege, com uma pintura tão serena que reincidia a luz proveniente de cima. Joana sentiu-se relutante em caminhar por aquele lugar, mas era a única saída. Mesmo sem saber que tipo de local se encontrava, viu-se obrigada a explorá-lo para sair dali.

Os passos sobre o piso quebravam o silêncio absoluto no corredor, que ecoava o som por todo a sua extensão. A jovem sentiu-se amedrontada. Algo naquele lugar lhe fazia sentir estranha. Mal sabia que um certo objeto a observava, pois esta era a sua função. Uma mini-câmera com menos de cinco centímetros de diâmetro jazia no encontro entre o teto e parede esquerda do corredor. Além desta, haviam outras espalhadas em pontos de modo a não pender pontos cegos.

Joana fixou os olhos em algo curioso a esquerda, pouco antes do fim do corredor.

- Uma porta? – ela aproximou-se desta, e observou seus detalhes. Era de metal mas sem nenhuma maçaneta à vista. Havia um botão sobressalente numa placa de metal na parede na altura de onde estaria uma maçaneta. Atraída pelo dispositivo incomum, tateou a mão sobre o mesmo até sentir seus dedos afundarem na direção da parede, apertando o botão de forma meio inconsciente.

Houve um estalo semelhante a um trinco se destrancando, fazendo Joana sobressaltar; rapidamente tirando a mão do botão que voltou alguns centímetros, e dando alguns passos para trás.

Ainda temerosa pelo som, viu a porta abrindo-se lateralmente gerando um barulho incomum para a moça. Não tinha culpa se aquilo em frente provinha de uma tecnologia avançada e nunca antes vista por ela.

A porta revelava uma peculiar escuridão mesclada com uma tênue luz oriunda de uma origem desconhecida. Mas à medida que o local era revelado pelo correr da porta, Joana ergueu os olhos ao ver a origem daquela luz. Seu coração bateu forte, assustada com o desconhecido.

- O... O que é isso? – perguntou-se fitando o local adiante.

O lugar era uma sala escura formada por paredes e piso de escuridão, que ganhavam manchas claras e tonalidades amenas, causadas pela incidência dos feixes luminosos provenientes do fundo do recinto. Em seu final, algumas cadeiras giratórias jaziam em frente a um painel. Nele, continha alguns botões, e mais acima, suspensos numa placa vertical e retangular, estavam vários televisores.

Da distância de onde Joana se encontrava, pouco notava-se o que via dentro das TVs. Procurou palavras para explicar aquilo, mas conseguia apenas formular perguntas como "O que é este lugar?" O que mais lhe intrigava era estar abaixo da casa de Florisval, este que devia saber sobre o lugar, assim como Glin. Com a lembrança do gnomo voltando a memória, lembrou-se que foi ele quem a jogou naquele estranho lugar para a segurança dela. Logo, não poderia ter nada perigoso por ali. Foi com esse pensamento que Joana sentiu-se capaz de adentrar naquela sala.

Encorajou alguns passos e atravessou a porta lentamente. Seus olhos deixaram de fitar por um momento a luz dos monitores e olhou o redor da sala. Algo que lhe chamou a atenção foram alguns quadros levemente iluminados pela mesma luz. Notava-se que alguns pareciam ter imagens de flores; outros não se podiam ver muito por falta de visibilidade, mas pensava que também seriam de flores.

Voltou-se para os televisores e iniciou novamente a caminhada até eles. A distância era curta. Apenas dez metros separavam o painel da porta. No meio do caminho, Joana parou ao ouvir um barulho que ouvira a poucos instantes. A porta estava se fechando. A mulher olhou para trás no mesmo instante em que a porta trancou-se. Joana sentiu vontade de ir até lá e abri-la novamente, pois a sensação que ela deixou a ser fechada não foi das melhores. Entretanto, a luz que reincidia sobre a sala, atiçou sua curiosidade para saber o que era aquela fonte de luz.

Virou-se e andou lentamente até painel com os televisores. Logo pôde notar algumas imagens que mostravam praticamente o mesmo: um campo florido. Joana soltou um "hã!?" ainda mais confusa com o que via. Cada televisor divulgava uma imagem diferente, mas maioria mostrava o mesmo lugar. Pensou na possibilidade de ser o campo de Florisval, já que algumas imagens pareciam ser bem familiares. Impressionou-se ainda mais ao perceber que algumas telas mostravam os cômodos da casa do floricultor. Seja o que aquilo fosse, Joana percebia que podia ver ao mesmo tempo, todos aqueles pontos. Não eram imagens fixas, pois percebia algumas flores se movendo com o vento.

Varrendo os olhos nas quase vinte telas, uma lhe chamou atenção. Nesta, havia um homem visto de um ângulo lateral que ela conhecia muito bem.

- Adler!? – exclamou surpresa, vendo-o dentro do vidro. Ela recuou um passo, pensando na possibilidade de ser vista. Mas passou alguns segundos e nada aconteceu. Joana continuou fitando o homem na tela ainda não compreendendo – Será que ele não pode me ver?

Joana tomou coragem para erguer a mão e dirigi-la até o vidro da tela. Curiosa, mas ao mesmo tempo assustada, tocou o vidro. Parecia ser um vidro comum à primeira vista, mas sem ter seu reflexo como um espelho. Como nada aconteceu, resvalou os dedos até a imagem de Adler. Novamente nada aconteceu.

"Mesmo eu o tocando ele não pode me ver?" refletia a mulher.

Foi então que um raciocínio prematuro, mas conciso se formou em sua mente. Ela atuava como uma observadora e não importando o que fizesse naquele lugar, ninguém dentro da tela a notaria. Mas a dúvida era sobre como alguém tão grande caberia ali dentro? Dúvida que foi interrompida por uma nova variante. Joana arregalou os olhos ao notar que ela mesma aparecia na tela onde Adler se encontrava. Ela caminhava, também sob um ponto de vista lateral em direção ao homem.

- Eu? – Joana perguntou-se, confusa. Observava na tela, Adler e Joana frente a frente, sendo que ela não estava lá. Como poderia? Era o que não compreendia.

Foi quando lembrou-se que não era a única Joana presente no mundo.

- Glin! – gritou descobrindo a verdadeira identidade da pessoa por trás da imagem da Joana na tela. O campo de Florisval, Adler, e agora uma falsa Joana. Aquilo tudo indicava para ela que aquela cena ocorria naquele exato momento, pelos fatos dos fatores baterem com essa dedução. – Será que essa coisa serve para espionar outros lugares? – Joana deu uma rápida olhada de relance para as outras telas. Tudo fazia sentido, mesmo não sabendo como aquilo poderia ser possível.

Um ato chamou a atenção de Joana. Adler havia erguido a mão na direção da mulher na tela.

- Glin! Glin! Saia daí! – ela gritou, mesmo concluindo anteriormente que era algo inútil. Mas ainda assim, persistiu. – Glin! Você vai morrer! GLIN!

Enquanto a jovem ecoava sua voz no recinto, uma câmera camuflada pela escuridão do lugar lhe espionava. Esta, aumentou o zoom no rosto de Joana, que naquele momento ocupava-se em gritar para a tela. Uma luz vermelha se acendeu na parte inferior da câmera.

Joana teve de interromper seus gritos ao ouvir uma série de barulhos consecutivos pela sala. Era como se vários compartimentos pequenos houvessem abertos. Por causa da escuridão do recinto não se podia saber a origem do som, mas parecia vir de todo o lugar. Joana olhou por toda a sala perdidamente, sobressaltada.

Cortando o preto do lugar, um vermelho esbranquiçado apareceu de repente. Ela vinha de vários pontos das paredes e também do teto. Foi só então que Joana percebeu que aquilo eram nuvens avermelhadas de um gás sendo cruelmente jogado no recinto, seguido de um som de esvaziamento gasoso.

- O que!? – aquilo de cara assustou a jovem. Em poucos segundos a sala já estava tomada pelo gás avermelhado. Joana sentiu seu corpo fraquejar, e o peso de suas pálpebras aumentarem bruscamente. Sibilou um som de fraqueza, e viu-se dobrando os joelhos e desabando no chão. Inconsciente, não teve tempo de ver que atrás dela, a tela do televisor enchia-se de um fogo desumano. Logo, as outras telas foram tomadas pelas mesmas chamas para então a tela se mostrar num tom cinza e branco como se tivessem perdido as imagens das câmeras.

. . . . . . . . . . .

Contrário quanto a luminosidade no último local onde estava, uma luz intensa preencheu os seus olhos, que aos poucos se acostumaram com o lugar. Ela estava olhando para um céu azul e radiante. O mesmo vento fresco que movimentava as poucas nuvens no céu resvalou em seu corpo. Ela percebeu que se encontrava deitada num solo fofo, mas especificamente sobre uma trilha de grama.

- O que...? – Joana olhou ao redor, levantando a parte de cima do corpo, pondo-se sentada na grama. Próximo, estavam inúmeras flores de um belo campo. A jovem percebeu que estava num lugar familiar. – O campo de Florisval... – A paisagem era idêntica. Ainda sentada, virou-se para trás e enxergou a casa de Florisval ao fundo, e mais a frente do casebre, na mesma trilha de Joana, havia um homem nunca visto por ela.

Joana levantou-se e fitou aquele homem enquanto iniciava uma caminhada até ele. O desconhecido colhia algumas flores com o corpo agachado no chão. Era calvo e tinha um bigode. Vestia-se com uma calça marrom, botas e um casaco de lã num tom verde capim.

- Você gosta de flores? – perguntou o homem com uma voz gentil assim que Joana se aproximou. Ela ficou um pouco surpresa com a pergunta e antes que a respondesse o outro voltou a falar. – Sim. Eu sei que você gosta, até demais. – disse o homem continuando a colher algumas flores e as pondo numa cesta no lado esquerdo. – Sabe, meu filho também adora flores. Ele vem fazendo um ótimo trabalho com esse campo ultimamente. Eu já não tenho o mesmo vigor que ele. Já estou velho, e meu corpo não suportaria cuidar desse lugar inteiro. Mas meu filho, ele tem muita disposição para isso.

- Seu filho... – Joana falou já imaginando quem ele seria.

- Sim. Você o conhece. – o homem virou o rosto para a mulher. – É o Florisval.

- Então, você é o pai dele. Sr,Bartolomeu. – Joana disse descobrindo a identidade. – Mas como? O Sr... está...

- Eu sei. Eu não deveria estar aqui. Mas simplesmente não pude largar meu filho desde aquele dia. Ele vem se culpando deste então.

- Como assim? Desde que dia? – perguntou a moça interessada e curiosa com aquele fato.

- Aquele burro não lhe contou, então eu lhe falarei. Houve uma época em que Florisval estava muito mau. Parecia fora da realidade, ou até mesmo morto por dentro. Ele nunca aparentava essa parte machucada dele para as pessoas que pensavam que ele estava bem, mas por trás do sorriso que ele sempre esboçava escondia-se uma tristeza profunda e um desapego imenso pela sua vida. O único motivo dele fingir que estava feliz era por se culpar da morte do irmão, não o tendo impedido na época em que queriam se tornar arqueiros. Eric foi morto pela guerra, não pelo seu irmão. Mas não importava o quanto eu o convencesse disso, Florisval sempre dizia que a culpa era somente dele. Na verdade, o culpado fui eu por tê-los deixado partir. – Joana ouvia atentamente o lamento de um pai. – Eu não podia mais ver meu filho naquela situação. Então... tive de fazer uma importante escolha. Algo necessário para ascender o desejo pela vida em meu filho.

- O que o senhor fez? – Joana perguntou, curiosa e atenta a história sobre seu amado.

- Bebi o chá de uma flor que na verdade, era um veneno mortal. Com isso, rapidamente fiquei doente. Florisval percebendo que não estava bem se preocupou comigo. Então, em uma hora de mal estar, deitado na cama, eu lhe pedi um favor. Fiz ele procurar em uma página de um livro sobre flores, uma específica que pudesse me curar. Ele não sabia que eu havia me envenenado, apenas disse que estava mal e com dores. Eu indiquei uma flor peculiar que podia me ajudar na minha recuperação. Entretanto, esta flor eu havia cultivado a pouco tempo no campo, bem perto da colina. Florisval caminhou por esse campo até encontrar a tal flor, e a apanhou. Fez um chá dela e me serviu. Depois de beber, eu disse o seguinte.

Bartolomeu estava deitada na cama de seu quarto. Havia acabado de beber o chá dado pelo seu filho, este que se encontrava sentado numa cadeira ao lado da cama.

- Este chá é muito bom – Bartolomeu disse pouco antes de tossir. Florisval o fitava com um olhar distante e sem vida, mas levemente preocupado. Seu pai olhava para o teto. – Espero que seja mesmo essa flor. Eu não lhe contei, pois confio no seu conhecimento botânico, mas essa flor possui uma informação importante que não está no livro que lhe mostrei. Existe uma outra flor parecida com essa, mas que é venenosa.

Só de ouvir a última frase, o jovem floricultor ergueu um poucos os olhos, adicionando um pouco mais de vida e preocupação nos mesmos.

- Como assim? – ele perguntou, ainda com desânimo, mas que levemente denotava um ar de aflição.

- Nada a se preocupar. Já disse que confio em suas habilidades como um floricultor. Não há como ter errado, pois é meu filho. E se errou em alguma coisa, a culpa é de quem o ensinou... Ahn... sinto o sono querendo me pegar. – A voz de Bartolomeu fraquejou, mas ainda teve forças para dizer algumas palavras. – Quero lhe fazer um último pedido. – O homem virou o rosto para o filho. – Nunca largue esse campo e o seu amor às flores. Se assim o fizer, encontrará a verdadeira felicidade algum dia – disse Bartolomeu antes de cair em um sono, que mal sabia o jovem camponês, seria pela eternidade. Florisval apenas arregalou um pouco os olhos, sentindo-se tocado com aquelas últimas palavras.

- Pai... – Florisval disse, notando o adormecer estranho de seu pai.

Bartolomeu suspirou depois de contar a cena.

- Desde então, ele vem realizando o meu último pedido até hoje. Ele vem se culpando pela minha morte, mas eu não quero que ele pense nisso. Por isso, esperei um bom tempo até que a verdadeira felicidade dele aparecesse. – Joana ouvia emocionada enquanto o pai de Florisval batia os olhos sobre ela. Ele sorriu e continuou. – Sim, você é a verdadeira felicidade que meu filho estava esperando. Por isso, quero que diga a verdade a ele... Que ele sempre foi um ótimo floricultor.

- Sim – Joana disse esfregando as costas do braço nos olhos marejados.

- Conto com você – Bartolomeu falou sorrindo no mesmo instante em que uma luz preenchia os olhos de Joana novamente.


Quanto tornou a abri-los, já não estava no campo, e sim no local escuro do subterrâneo. Acordou no chão duro, e sua vista logo notou algo peculiar em frente ao rosto. Uma Miosótis jazia ao lado dela no chão. A sala já não estava com o gás avermelhado, e a luz dos televisores, agora todos fora do ar, mostrando apenas os cômodos da casa, permaneciam como a única iluminação daquele lugar. A mulher arrastou o braço pelo chão até a flor e a pegou-lhe admirando-a. Pôs-se a sentar no chão olhando a flor na altura do peito.

- Lembre-se de mim – sibilou ela sorrindo, relembrando o significado da flor. Apertou a Miosótis contra o peito e fechou os olhos desejando do fundo de seu coração. – Por favor, me leve até Florisval.

Após o pedido, um feixe de luz cortou o ar na frente de Joana. Ela abriu os olhos ao notar uma nova luminosidade. O mesmo feixe se abriu revelando uma passagem branca como se fosse uma porta. Joana levantou-se impressionada com a imagem. Sentiu que seu pedido tornara-se realidade. Caminhou até o portal luminoso e o atravessou.

Encontrou-se em uma região com flores mortas e secas, e sobre elas, alguns metros a frente, observou o corpo de seu amado. Florisval jazia inconsciente até então. Seus olhos foram lentamente sendo abertos e avistando de baixo para cima a imagem de Joana. A surpresa de Joana não foi a mesma de Florisval, que pensava que ela estava morta. Mas contrariando o pensamento lógico de ambos, estavam frente a frente, emocionados e na iminência de soltar um sorriso de felicidade.

- Joana... – Florisval não acreditava. Levantou-se de súbito e correu gritando o nome da amada novamente mais alta. – Joana!

- Florisval! – Joana gritou, pouco antes dos dois se encontrarem num vívido abraço. O camponês resvalava lágrimas em seus olhos, assim como sua amada. Partículas benignas cintilantes floresceram do abraço de ambos, formando uma bela imagem ao redor. Tão belo quanto o sentimento de seus corações.


Bem próximo dali, em outra parte do campo, o olhar do mago incidia seriamente sobre o Fantasma Volaki. Este olhava para o Dragão de Água que rugiu mais uma vez.

1 comentários:

+ + † Srta. Vate † + + disse...

Historia muito legal!
Em algumas partes me vi até fazendo algumas expressoes dos persornagens...

Muito bom! adorei seu blog
ficarei feliz se retribuir a visitinha! ^^x
abraços!

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