Livros de diversos autores, mas discorrendo sobre o mesmo tema cruzavam os olhos de um jovem mago enquanto caminhava pelo corredor entre duas estantes de livros. Suas botas produziam um agudo som ao bater sobre o chão de madeira polido de tom marfim, semelhante à cor das estantes. O mago cessou os passos para pegar mais um livro numa fileira de obras na altura de seus olhos. Em seguida, o colocou sobre a pilha de livros que segurava com a outra mão.
- Acho que é o suficiente – disse olhando para os cinco livros na mão; alguns mais grossos que outros, e apresentando cores variadas entre vermelho, azul e verde.
- Parece que está ocupado – comentou uma pessoa próxima ao jovem, que tirou os olhos do livro e pôs-se a fitá-la. Um homem de cabelos brancos e longos e portando túnica verde com detalhes azuis sorria para o garoto.
- Sr. Roland – reconheceu o jovem, o mago que havia surgido de súbito. Nem mesmo os seus passos pelo chão denunciaram sua aproximação, talvez pelo fato do garoto estar distraído anteriormente.
- Tendo trabalho com a Academia? – Roland perguntou. Estava com as costas apoiadas na estante oposta de onde Melvin, o jovem, retirara os livros.
- É apenas uma pesquisa para a semana que vem. Mas prefiro deixá-la logo pronta.
- Que pontual você é, garoto! Até me lembra quando tinha a sua idade. – disse o outro soando como um elogio que fez Melvin corar um pouco.
- Por favor, não me compare ao senhor – O jovem ainda corava pelo elogio, mas se sentia feliz por ter ouvido aquilo. Roland sorriu e fez outra pergunta.
- E então? Sobre o que é esse trabalho?
- Ah, é... Energia Volaki.
- É um assunto bem amplo. Talvez eu possa te ajudar.
Em seguida, ambos começaram a caminhar pelas várias seções daquele recinto. A biblioteca era iluminada por lâmpadas fluorescentes que pendiam no teto em um formato retangular. A luz clareava as paredes cor de creme da imensa biblioteca proporcionando um agradável ambiente de estudo e pesquisa.
Melvin e Roland chegaram a um espaço aberto rodeado pelas inúmeras seções da biblioteca que ali se conectavam a tal lugar. Nele, jaziam muitas mesas e cadeiras enfileiradas e bem organizadas. Era um local de estudo, que naquele momento se encontraria vazio se não fosse a presença de mais dois jovens – um garoto e uma garota – sentados um pouco longe de onde Melvin se assentou. Ele e Roland se acomodaram na mesa mais próxima e o jovem de cabelos lilás esparramou os cinco livros sobre ela.
- Cada aluno pegou uma pesquisa diferente. Mesmo as que eram do mesmo tema, cada um ficou com certo conteúdo distinto. Minha pesquisa sobre a Energia Volaki é sobre os tipos de poderes que ela pode proporcionar – Melvin explicou para Roland, sentado ao seu lado.
- Mas você não fará isso sem antes saber direito o que é uma Energia Volaki, não é?
- Ora, é a energia responsável por nossos poderes - disse o mago soando óbvio.
- Sei que alguém deve ter se encarregado de falar sobre a origem da Energia Volaki, mas é melhor você se informar sobre isso. Contarei de forma sucinta sobre essa energia. Assim não perderá muito tempo nos detalhes desses livros, já que nem todos os assuntos são de seu interesse por enquanto.
- Conte-me, por favor – Melvin alegrou-se pela explicação que estava para iniciar.
- Os magos já existem há muitas gerações. Não se sabe muito das primeiras, pois não há relatos escritos sobre aquela época longínqua. Mas passamos a conhecer a história dos magos a partir de um certo ponto, um evento para ser mais específico. Nessa época, os magos podiam dominar os mais variados tipos de magia, não todas, mas as que mais tinham afinidade. Entretanto, um dia, um mago chamado Roldain fez algo imperdoável.
- O que ele fez? – Melvin perguntou com curiosidade. O mago continuou sua explicação num tom normal, como se já tivesse dito a mesma histórias dezenas de vezes, mas sempre passando um ar de raridade.
- Lançou uma maldição – disse Roland.
- Maldição? Seria... – O outro mago assentiu com a cabeça antes do jovem terminar. Melvin já ouvira vagamente falar sobre tal maldição.
- Todos os magos perderam seus poderes. Exceto seis que conseguiram se livrar da maldição. O que seria algo bom, se não fosse por um temor. Que os magos sobreviventes da maldição exterminassem todos os outros. Foi por causa desse medo que os outros magos se juntaram e com a ajuda de uma relíquia chamada SEMT, criada por um mago antigo, conseguiram aprisionar os seis magos. Não há registros que mostrem de forma detalhada como aconteceu, mas o fato é que os espíritos destes seis magos adormeceram em seus próprios poderes dentro da relíquia. Após isso, um mago desconhecido com o poder de criar relíquias como a SEMT apareceu. A partir dos poderes aprisionados na relíquia, ele criou as Esferas Volaki, assim chamadas pelas iniciais dos nomes de cada um dos seis magos. As esferas que você conhece hoje são fruto dos poderes dos magos Volaki.
- Incrível! – impressionou-se Melvin que ouvira a história atentamente. – Então essa é a Maldição dos Magos? Eu já tinha ouvido sobre isso, mas não dessa forma.
- Hoje em dia o título da maldição foi modificado, e o nome Roldain esquecido até mesmo nos livros de História.
- Mas por que apagar vestígios de alguém que já está morto, e não pode fazer mais nada?- Melvin perguntou, confuso.
- Bem, eu não faço idéia – O garoto olhou para Roland sentindo que algo naquela fala soara de forma estranha. – Mas... dependemos dessa energia para impor a ordem no mundo. – Melvin abaixou o rosto e fitou a palma de suas mãos sobre a mesa.
- Cada mago tem seus poderes, mesmo que não sejam de sua afinidade. A escolha de um poder Volaki é muito arriscado. Fico me perguntando que tipo de poder eu irei ter. Se conseguir suportá-lo... – Melvin deixou suas últimas palavras como uma condição solta no ar.
- Você irá – Roland o incentivou. – Use sua intuição e quando chegar o momento você saberá qual, ou melhor, quais poderes irá querer adquirir.
- Acredita tanto assim em mim, Sr.Roland? – o jovem perguntou fitando ansiosamente o rosto do mago.
- Claro! Afinal, você não é nenhum mago comum, é? – Roland disse olhando gentilmente. Melvin sorriu sentindo-se feliz.
- Sim. Eu vou conseguir – disse ainda sob influência das palavras de apoio do adulto.
Pegou um dos livros que havia depositado sobre a mesa e o folheou. Tinha uma capa vermelha com detalhes dourados, e não era muito grosso. Entre as inúmeras páginas que eram batidas pelos olhos do mago, uma por acaso lhe chamou a atenção despertando um “hã?” de seus lábios.
- O que é, ou melhor, quem é este? – Melvin olhava para a imagem de um homem que ocupava quase a página inteira. Apesar de estar em preto e branco, chamava a atenção pelo seu traje semelhante à de um mago. Um sobretudo lhe cobria o corpo, assim como uma mecha de seus cabelos fazia com seu olho esquerdo. Os cabelos longos recaiam suavemente pelos ombros. O olho direito, que era o único visível, escondia algo profundo. A feição daquele indivíduo pareceu crescer na vista de Melvin que analisava a imagem cada vez mais atraído por ela.
- Ódio – Roland falou ao ver que o jovem afrontava a figura. – Esse é um fantasma Volaki.
- Fantasma... Volaki? – Melvin perguntou fitando o seu mestre. Ele olhou de volta para a página e percebeu um título que dava nome àquela imagem. – Karel...
- Sim. Ele é um dos seis magos Volaki.
- O que isso quer dizer? – Melvin perguntou voltando para o mago ao lado.
- Quando um corpo não consegue suportar a energia Volaki dentro dele por motivos de sincronização, essa energia se liberta por si só. Como eu lhe contei antes, os seis espíritos estavam dentro da relíquia de onde foram retirados nossos poderes, logo, não foram apenas os poderes que abduzimos, mas também seus espíritos. Cada Esfera Volaki tem uma letra que denomina o mago de onde o poder foi retirado, e também uma numeração que indica o poder contido nela. Quando tocamos em uma, absorvermos tanto o poder quanto o espírito. Se não sincronizarmos com a energia, o espírito irá guiá-la e se libertará junto com ela. Quando saem do corpo, se materializam na forma humana que tinham antes, como essa imagem do livro. – Melvin fitou novamente o mago chamado Karel. – Está vendo o olho dele. Sabe o que ele está sentindo, não é? Ódio por todos os magos que lhe aprisionaram e lhe usaram.
Melvin fitou a figura recém-formada pelo fogo no céu. Sem dúvida alguma, aquele mago era o mesmo que um dia vira num livro sobre Energia Volaki. O olho dele, assim como naquela página em preta e branco se assemelhava ao vermelho, agora vivo na frente de Melvin. Seu nome era...
- Karel – disse o mago, reconhecendo um dos seis fantasmas Volaki.
Capítulo 12
Fantasma Volaki
Florisval ainda abismava-se com a figura flutuante.
- O que é aquilo? – perguntou-se. Não fazia idéia do que ou quem poderia ser. Mas tinha quase certeza de que era um inimigo.
Karel moveu suas orbes lentamente para o homem de capa negra. Os olhos que expressavam sempre o mesmo sentimento incidiram sobre o sério e atento olhar de Melvin. Então seus lábios se moveram pronunciando sua primeira palavra que soou lentamente.
- Mago.
Contrariando a velocidade do som de sua fala, sua mão ergueu-se subitamente na direção de Melvin. Da palma inclinada direcionada para baixo, saiu uma forte e rápida rajada de fogo. Os olhos de Melvin arregalaram-se pegando o movimento inesperado de Karel. Sem pensar duas vezes, pulou para trás utilizando-se de sua energia do vento. Poderia ter desviado para o lado, mas quando viu a rajada vindo a uma incrível velocidade sentiu-se acuado, e moveu-se com base na urgência de fugir daquilo de qualquer maneira.
A rajada chocou-se violentamente contra o solo mostrando seu furioso poder de fogo ao levantar terra e poeira. Melvin ainda estava no ar quando o ataque colidiu com o chão a poucos metros adiante. Ainda teve tempo de sentir os grãos de terra que beliscaram o seu rosto bruscamente. Além disso, o vento forte da explosão fez o mago colocar seus braços à frente para se proteger de qualquer coisa ricocheteada pela rajada. Melvin arrastou seus pés violentamente ao pousar no solo. Parou meio que curvado e procurou o mago que executara o ataque. Karel jazia no céu, com sua mão ainda erguida, enquanto fixava seus olhos sobre o mago que se recompunha.
Apesar da única investida daquele indivíduo, Melvin sabia o quão forte era o seu inimigo.
“Ele não é um mago qualquer. É um dos seis magos lendários dotados de inúmeros poderes. Entretanto, ele pode usar apenas o poder de fogo, mas mesmo assim em um nível muito elevado. O poder dele com esse elemento pode ser facilmente comparado a de um General. Não vai ser fácil derrotá-lo.”
- Mago – proferiu Karel mais uma vez.
Dessa vez, o mago de fogo soltou vários tiros como os do redemoinho, embora esses fossem um pouco maiores e mais rápidos. Melvin estava atento, mas percebeu que a quantidade de tiros e sua velocidade faziam de sua fuga algo impossível. Sem alternativa, e sem muito tempo para pensar, ele ergueu seu cajado e iniciou uma sessão de tiros de água. Os tiros de Melvin colidiram com os de fogo ocasionando várias explosões brancas pelo céu. Entretanto, alguns ataques de Karel sobressaiam na colisão e ainda tinham força e velocidade para atingir o mago.
Devido a falta de agilidade em seus ataques, Melvin viu um dos tiros atingir seu braço direito. A colisão foi que nem uma explosão, o que resultou na carência de força para segurar o cajado. Os tiros de água cessaram e os de fogo encontraram-se livres para atingir o alvo. Várias explosões cinzentas foram formadas.
- Melvin! – Florisval gritou preocupadamente ao observar uma nuvem cinzenta tomar o lugar onde o mago se encontrava. O som das explosões indicava que os tiros foram bem sucedidos. Karel cessou o ataque e fitou pacientemente a fumaça abaixo. O camponês ainda mostrava uma expressão inquieta e amedrontada, afinal o mago fora atingido, sem sombra de dúvida.
Quando a fumaça começou a dissipar, parte de uma figura azulada mostrou-se no meio dela. Uma fina camada de água cintilante envolvia os membros dos pés e das pernas. Uma brisa forte levou a fumaça que cercava o mago para longe. Melvin foi completamente revelado. A camada protetora envolvia todo o seu corpo, até mesmo o cajado. Ela tinha uma aparência viscosa que brilhava num tom azul. Através desta camada, o mago encarou seriamente o seu oponente.
O líquido que envolvia o corpo de Melvin começou a se desfazer da cabeça para baixo como se estivesse derretendo. Ele se espalhou lentamente pelo gramado no chão em volta dele.
- Barreira visguenta! – proferiu o nome de sua defesa.
Karel afastou o cabelo que tampava o olho com sua mão esquerda, e estreitou os dois olhos em direção a Melvin. O afrontamento entre eles era sério, e um deles transpassava toda uma frustração e ódio.
O mago Elemental iniciou uma descida no ar, após seu olho ser novamente encoberto pela mecha. Lentamente seu corpo declinou-se verticalmente até seus pés tocarem o solo suavemente. O único olho vermelho continuava encarando o mago à frente.
- Um Elemento de água, não é? – perguntou a voz do mago que até então só tinha dito um único tipo de palavra. Sua voz era madura e temerosa, mas não a ponto de assustar o outro mago. – Entretanto, esse poder não é seu.
- Não, não é – Melvin confirmou o que ouvira. – Mas... eu estou o usando como deve ser usado. Sei que vocês sofreram no passado e...
- Você não sabe de nada – Karel cortou. – Não sabe qual é a sensação de ficar a eternidade aprisionado. Junto com a reprodução de nossos poderes, estão também nossos espíritos. Há milhões de espíritos “Karel” aprisionados em outras esferas. Você não pode imaginar a solidão que temos. A culpa é de vocês.
- Por que não me conta sobre sua época? Está colocando seu ódio sobre todos os magos por motivos passados...
- Cale-se! – Karel disse secamente. – Levaram nossos poderes e nossos espíritos. Então lhe daremos o nosso ódio.
Chamas envolveram a mão de Karel que sem perder tempo a ergueu na direção de Melvin como se quisesse dar um soco.
- Punhos de Fogo! – gritou o mago executando o seu ataque.
Uma porção de rajadas em forma de braços alongados com o punho cerrado saiu das chamas que envolviam a mão de Karel. Melvin começou a desviar pulando para trás no momento em que o primeiro punho tentou lhe acertar de cima pra baixo. Dois seguintes, bem próximos um do outro tentaram lhe incidir de frente. Melvin novamente pulou para trás, dessa vez com uma cambalhota. Os punhos passaram rente a sua cabeça na hora do movimento – quando ele se encontrava de cabeça para baixo – e acertaram o solo um pouco mais atrás dele. Quando Melvin foi pousar quase no mesmo local onde esses dois punhos acertaram, percebeu mais quatro que vinham de frente.
Quatro explosões foram ouvidas, e nuvens de poeira foram soltas ao ar. Da parte de cima dela, uma figura ergueu-se para o céu. Era o mago que acabara de fugir dos quatro ataques anteriores. Na verdade, Melvin estava voando em vez de um simples pulo para o alto. Estava olhando para baixo, quando sentiu que a luz do sol fora interrompida. Voltou-se para cima, e viu Karel tampando a luz solar em seu rosto. Totalmente surpreso, Melvin tentou parar o vôo, mas o oponente também voou em sua direção. O resultado foi um soco no rosto de Melvin que foi arremessado para o chão num sentido inclinado. O murro havia lhe deixado desnorteado, e por isso, não conseguiu se recompor ainda no ar. Além disso, sua mão havia soltado o cajado. Seu corpo chocou-se contra o solo e arrastou-se por quatro metros. A colisão com o chão não fora tão violenta por um lado.
Sem perder tempo, Melvin se levantou voltando-se para o local onde o oponente se encontrava. Mas neste mesmo instante, um vento quente acertou o seu rosto. Melvin arregalou os olhos ao notar que Karel encontrava-se bem na sua frente. Este ergueu sua mão e aplicou um novo soco, dessa vez, bem no meio do rosto, acertando-o no nariz e na boca. Melvin caiu para trás sobre sua capa negra que se encostou ao solo. Ainda no chão, enquanto voltava com seu rosto machucado – um pouco de sangue escorria de sua boca – olhou para o inimigo há menos de dois metros. Karel sorria maleficamente.
- Parece que magos não são tão bons em lutas de curta distância, não é? Só posso lutar desse jeito já que não posso chamar meu cajado, mas... isso será o suficiente para derrotá-lo. – Karel envolveu sua mão direita com chamas, e a puxou para trás pronto para dar um soco flamejante no mago caído.
Mas neste instante, ele parou seu movimento ao sentir uma incomodante dor em suas costas. Uma flecha estava fincada atrás dele, e há cem metros de distância, Florisval mantinha seu arco alçado. O intuito de salvar o mago daquela situação perigosa havia se concretizado. O camponês atrapalhara a execução do ataque chamejante do inimigo.
Entretanto, Karel pareceu incomodar-se apenas por alguns segundos. Esboçou um sorriso malicioso e reiniciou sua investida.
- Punho de Fogo! – gritou enquanto as chamas saltaram na forma de punho de sua mão.
- O que!? – Melvin pulou para trás em cambalhota. Os punhos saíram da mão do inimigo e tentaram acertar o mago. Este se esquivava com saltos mortais para trás recuando cada vez mais enquanto os tiros que não o acertavam chocavam-se com a terra em frente a ele ocasionando as explosões que faziam a poeira do solo se erguer. Quando percebeu que desviou de todos os tiros, cessou o recuo e olhou adiante para observar o oponente. Para a sua surpresa, ele não estava no mesmo lugar de antes, e sim num muito pior.
Florisval erguia cada vez mais os olhos abismados. Um pavor crescia diante daquela figura perigosa. Karel fitava o pobre camponês sentado no chão, que havia caído depois de ter percebido que ele vinha em sua direção. Karel levantou o braço e pairou a mão bem próxima do rosto do floricultor que soava frio ainda com os olhos arregalados de medo. Ela começou a emitir um brilho alaranjado da onde sairiam as chamas mortais para o floricultor.
- NÃÃÃÃÃOOO! – Um grito chamou a atenção de Karel a ponto dele virar o rosto para o lado. A imagem de Melvin cresceu diante de seus olhos. O mago vinha executando um vôo rasante sobre o campo que já não era tão florido. Karel teve apenas tempo de olhar, antes de receber uma investida do mago. Melvin chocou-se violentamente contra o corpo do inimigo. Um vento forte proveniente do vôo do mago de cabelos lilás colidiu com o rosto de Florisval, fazendo-o colocar a mão em frete ao mesmo.
Nesse meio tempo, Melvin e Karel estavam praticamente colados no ar. O mago de cabelos lilás segurava o outro pelos dois braços. Diminuiu a altura de seu vôo, e fez o corpo do oponente se arrastar no chão. Uma nuvem de terra se alastrou ao mesmo tempo. Seus dentes cerrados e seus murmúrios de esforços mostravam que ele usava toda a sua força para prender Karel enquanto o arrastava no solo.
Após algum tempo, ele soltou-o e continuou com seu vôo na horizontal até pousar mais adiante com seus pés se arrastando na terra. Terminou o pouso meio que ajoelhado. Rapidamente sentiu o cansaço tomar conta de seu corpo. Ofegava bastante enquanto jazia com o joelho apoiado no chão, recuperando o fôlego de seu último ataque.
Atrás dele, a nuvem de terra levantada começava a se dissipar. Melvin virou-se para observar que efeito sua investida havia causado no oponente. Mostrou uma feição atenta e curiosa quando notou uma sombra aparecendo entre a poeira. Inesperadamente, algo alaranjado pulou daquela nuvem e rumou até o mago. Melvin observou algo parecido com uma corda voando em sua direção. Surpreso e indeciso sobre o que fazer quanto aquilo, foi pego de surpresa pela velocidade dela. Quando se deu conta, seu braço estava enrolado por uma mecha de cabelo laranja. O cabelo era preso por alguém dentro da nuvem de poeira à frente, que enfim, havia se dissipado, e revelado Karel.
O mago estava com uma aparência suja, roupa desgastada, e alguns arranhões, mas nada que mostrasse alguma preocupação. Algo completamente absurdo pela proporção do ataque que havia sofrido. O cabelo laranja era o complemento da mecha que tampava seu olho esquerdo, que devido a isso, não se mostrava mais encoberto.
- Não pode ser! – Melvin ficou surpreso pelo seu último ataque ter falhado.
- Elemento água e elemento vento. Esses são seus únicos poderes? – Karel perguntou com um sorriso zombeteiro no rosto. – Os magos dessa época são bem fracos pelo que estou vendo. Mesmo com o poder alheio não consegue ter a mesma força que as gerações mais antigas... Patético!
A última palavra de Karel soou como um grito, e Melvin sentiu seu braço ser puxado para frente. Seu corpo voou de encontro ao mago inimigo que preparou sua mão direita volteado por chamas. Melvin sentiu a dor causada pela força do oponente. As chamas pareciam ter explodido no contato da pele de seu rosto com a mão de Karel. Melvin foi jogado violentamente para trás e seu corpo caiu há trinta metros de onde Karel se encontrava. O corpo do mago ainda arrastou-se por mais alguns metros até que seu braço ainda enrolado pelo cabelo lhe fez parar.
O corpo de Melvin estava estendido no chão, e seu braço encontrava-se a frente da cabeça. Parecia inconsciente ou muito fraco para se mexer. Karel caminhou serenamente até o mago adiante. Florisval, ainda distante, apenas podia ver o que se passava. Colocou a mão no seu arco, mas desistiu da idéia ao lembrar-se do que passara a poucos momentos. Entretanto, o fato de ver Melvin levando a pior naquela luta não era de seu agrado. Desconfortável pela situação do mago, o camponês segurou firmemente o arco.
Melvin estava com seus olhos abertos fitando a grama ao seu lado. Karel olhou para ele e levantou o corpo dele através de sua própria mecha do cabelo. O braço de Melvin posicionava-se no alto e seu corpo um pouco acima da altura de Karel. O mago de capa preta não movia um músculo para contra atacar. Seu olhar estava distante fitando algo que não existia.
- O que foi? – Karel perguntou. – Já desistiu de lutar? Parece que já se deu conta de que não pode me vencer. Eu vou te matar. Não é semelhante a estar aprisionado durante séculos, mas posso garantir a você que é muito mais confortável. – disse o mago com um pouco de raiva em suas últimas palavras.
Sem mais nem menos, Karel ergueu o braço para o lado e soltou uma rajada na direção de uma flecha. As chamas colidiram com ela, e após tê-la desintegrada, rumaram em direção ao floricultor. Este tentou pular para desviar do ataque, mas não foi o suficiente para se livrar dele totalmente. A rajada atingiu o chão perto dele, que sofreu com o vento causado pela colisão. Caiu a alguns metros além, e bateu fortemente a cabeça no solo. Ficou desacordado.
- Não tenho interesse em matar um humano, mas não quero que ninguém me atrapalhe – Karel falou olhando para o floricultor inconsciente ao longe. Em seguida, voltou-se para o mago em frente. Este havia virado o seu rosto para Florisval, mas o mesmo olhar distante permanecia. – Ei, você realmente não tem mais nada? – Não ouve respostas. – Já que esses são seus únicos poderes permita-me tentar uma coisa.
Karel avançou com sua mão direita aberta numa posição reta no peito do mago. Melvin sentiu uma dor na região atingida, como se algo lhe tivesse perfurado. Mas não era exatamente o caso, pois nem mesmo o tecido que cobria o peitoral se rasgou. A mão simplesmente atravessara a roupa e a pele do mago sem atingir nenhum órgão vital dentro do corpo.
- Não se preocupe. Minha mão nem mesmo tocou em seus órgãos, apenas em sua energia Volaki. – Karel explicou.
Melvin olhava para a o braço estendido adiante cuja mão fincava dentro dele. Sem fazer nada para sair daquela situação, notou uma luz reluzente na cor laranja emanando na região de seu peito em que fora acertado. Por alguns instantes, Melvin sentiu uma desordem em sua força. Sentia seu nível de energia alternando entre baixo e alto como se não conseguisse controla - lá.
Subitamente, Karel retirou sua mão do peito do mago cessando a luz no mesmo instante. Ele mostrou uma feição decepcionante.
- Que pena – disse Karel. – Parece que seus poderes Volaki não são compatíveis com minhas partículas. Significa que ganhou os elementos de algum dos outros cinco magos restantes. Eu estava pensando em unir suas partículas com as minhas, mas não será possível. Nesse caso, terei que tirar outra coisa de você – Melvin fitou seu olhar fraco e esgotado no oponente. – Não se preocupe! Só vou precisar de uma informação. Quero que me diga a localização dos outros magos desa época. Irei acabar com todos eles – disse Karel com ansiedade.
Melvin fitou o rosto do inimigo. Sentia seu corpo fraco e cansado, mas algo que não dependia de sua força física o impedia de mover seu dedo para lutar.
Melvin ainda fitava a imagem do fantasma Volaki na página do livro. Ele virou-se para Roland ao seu lado.
- O que fazemos quando um desses aparece? – perguntou o jovem. Roland soltou uma pequena risada e respondeu tentando confortá-lo.
- Você não precisa se preocupar com esse fenômeno. Vai demorar anos pra ver um desses, e ainda assim, é raro disso ocorrer. Mas se por acaso colidir com um... – Roland mudou seu tom, desta vez um pouco mais sério querendo dar um importante conselho. -... Elimine-o!
- Eliminá-lo? – Melvin ficou um pouco assombrado com a sugestão.
- Um fantasma Volaki não é nenhum tipo de ser vivo. É apenas um espírito que retorna depois de sua própria morte, portanto, não faz parte deste mundo. Ele é apenas uma alma cheia de ódio que não pode ser sentida por nenhuma Captação Maligna, pois ele simplesmente não existe. É uma ilusão. O verdadeiro ódio está preso há vários séculos no passado. É apenas a memória da energia Volaki. Além disso, essa memória não quer matar todos os magos por vingança. Isso é apenas uma desculpa para seu real objetivo. Que é...
Melvin movimentou seus dedos demonstrando um pouco mais de vivacidade em sua feição. Encarou Karel, ao mesmo tempo em que sua alma tentava sentir algum ódio vindo dele. Mas não sentia nem um pingo deste sentimento.
- Você... – Melvin falou depois de ter ficado por um longo tempo calado. Karel ficou atento em seus lábios. – ...disse que a morte era melhor do que estar aprisionado, não é? Nesse caso... irei lhe dar o que realmente quer. – Melvin ergueu os olhos e movimentou sua mão rapidamente. No mesmo instante, um forte e concentrado vento a volteou. Usando a lateral da mão como uma espécie de lâmina, ele cortou o cabelo que prendia o seu braço acima dele.
Karel impressionou-se com o movimento e Melvin sentiu seus pés caindo gentilmente sobre o solo. Aproveitando que o oponente ainda estava surpreso por ter se soltado, Melvin ergueu a palma de sua mão direita para frente. O vento que saiu dela não foi tão forte, mas o suficiente para fazer Karel pôr os braços na frente para se proteger ao mesmo tempo em que recuava com um salto para trás.
O mago de capa escura fitou o inimigo pousando novamente no chão. Melvin ergueu o braço esquerdo para o lado. O cajado que se encontrava há mais de cinqüenta metros dele, foi cercado por um vento que o fez flutuar lentamente. Este mesmo vento que envolvia a arma moveu-se de forma veloz na direção do mago. Melvin abriu a mão e segurou o cajado firmemente enquanto seus olhos miravam Karel.
- Vamos acabar com isso – disse erguendo seu cajado para o alto. Neste instante, pequenas gotículas de água começaram a aparecer no céu, provenientes do próprio vapor d’água presente na atmosfera. Utilizando-se dos únicos elementos que dominava: ar e água, ele diminuiu a temperatura na umidade, ocasionando a condensação da água na atmosfera, esta que ele a controlava para não cair. Acima deles, podia-se notar uma porção gigantesca de gotículas penduradas no céu azul.
- O que está tentando fazer? – Karel perguntou olhando para o alto.
- Mesmo que esse poder não seja meu, eu posso usá-lo tão bem quanto seus verdadeiros donos. Estou aproveitando a umidade do ar acima de nós, e com isso, o vapor de água se condensa e vira pequenas gotículas de água suspensas. Não se esqueça que também posso controlar a água independente de seu estado físico, e por isso posso fazer o que bem entender com ela. Mas irei lhe mostrar o que realmente é isso – Melvin explicou.
As inúmeras gotículas de água suspensas começaram a se aglomerar num único ponto, e a partir deste, começaram a desenhar uma figura no céu. Algo comprido e de formato cilíndrico que no final foi diminuindo sua grossura. A região da cabeça estava sendo finalizada. Logo, uma cabeça de dragão composta apenas por água se formou. Ele rugiu soltando um forte ar gelado de sua boca. Seus olhos eram fundos e num tom azul mais escuro que a água que lhe formava. Um dragão de corpo alongado flutuava sobre o campo para a surpresa de Karel. Melvin apenas o fitou e proferiu o nome de sua técnica.
- Dragão de água! – A criatura aquática no céu soltou um rugido estrondoso.
Florisval acordou, provavelmente pelo mesmo rugido. Sentiu seu rosto encostado na grama e movimentou seus olhos para frente. Ainda estava um pouco avoado, e viu a necessidade de se levantar para saber o que estava acontecendo. Entretanto, antes mesmo de seu corpo fraco se erguer, ainda deitado, ele fitou os pés de alguém. Deixou seus olhos subirem lentamente pelo desconhecido, até que no meio do caminho, se assustou. O avental branco e as roupas de sua mãe lhe deram uma possibilidade impossível, mas que se concretizou quando alcançou o rosto da pessoa. Esta lhe fitava preocupadamente, mas com um olhar radiante.
- J...Joana? – perguntou o floricultor, incrédulo.

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