6 de agosto de 2009

Mundo Sombrio - Capítulo 10 - Campo Flamejante


Joana entrou na cozinha após ter passado um bom tempo caminhando pelo campo florido. Ela ficou surpresa, mas depois soltou uma tímida risada ao ver o pequeno Glin deitado sobre a mesa, após ter consumido todo um pote de geléia. O gnomo acariciava sua barriga com uma expressão muito satisfeita.
- Parece que você não vai precisar almoçar – disse a mulher adentrando ao cômodo. O gnomo ficou sentado e sorriu para ela.
- Não se preocupe. Eu não como isso que vocês humanos gostam. Geléias e outras coisas doces são o suficiente pra mim.
- Não sei como seu estômago agüenta isso – comentou ela andando até a pia. Nela, havia algumas sacolas com legumes. Falando em comida favorita, Florisval adorava uma sopa, e era o que ela tinha em mente para o almoço. – Parece que será um almoço a dois – pegou os mantimentos e os preparou.
Glin desceu pelo pé da mesa, e caminhou até a porta entreaberta.
- Então irei conhecer um pouco mais do quintal da minha casa, que parece ser bem grande.
- Pra você principalmente – riu Joana. – Quer dizer que vai mesmo ficar aqui com a gente, não é?
- Mas é claro! – exclamou o gnomo virando-se para a mulher. – Quem vai me dar geléia se eu não ficar aqui?
- Ah, então era por isso – compreendeu a jovem, um pouco sem graça.
Glin saiu para o ar livre, e deu a volta na casa para observar o imenso campo à frente. Para ele, aquilo era quase como um lugar de vegetação que precisava urgentemente ser reparada. Algumas flores tinham quase o seu tamanho. Sorte a dele que havia trilhas no meio do campo, assim não se perderia entre as milhares de flores adiante.
No momento em que o gnomo adentrava no campo, acidentalmente ele notou algo esquisito no céu enquanto apreciava a vista ao redor. Um objeto muito peculiar que sob o céu azul parecia um cometa ardente, que para aflição do pequeno, vinha na direção do campo.
- O que é aquilo? – perguntou-se. Temendo aquela anormalidade no céu, ele voltou para perto da casa. Correu até a parte de trás, mas não chegou a entrar, e sim permaneceu do lado de fora para espreitar aquilo que em seguida encontrava-se numa altitude bem próxima.
A tal coisa flamejante parou de forma flutuante uns vinte metros acima do campo, e revelou sua imagem. O próprio Adler encontrava-se envolto por uma aura ardente de tom avermelhado. Mas o mais impressionante eram suas asas de fogo, semelhantes às de um anjo. Elas eram formadas por uma energia pura de tom vermelho coberto de chamas.
- A-Aquele é o tal Adler!? – Glin mostrava-se surpreso pela visão. – Não pode ser! Ele não estava sendo vigiado por aquele mago? Será que ele não deu conta e deixou esse homem escapar? Isso é ruim! Tenho que avisar a Joana.
Glin rapidamente entrou na casa, onde viu Joana tranquilamente preparando o almoço.
- Joana! Joana! Ele está aqui! – gritou o gnomo, surpreendendo a jovem moça que o fitou confusa.
- O que foi, Glin?
- O Adler... O Adler está aqui! Ele veio atrás da gente.
- O que!? – exclamou a jovem.
Adler ainda encontrava-se parado sobre o campo de Florisval. Ele fitou o terreno abaixo com uma expressão séria, e em seguida, iniciou um gentil pouso sobre ele. No momento em que seus pés tocaram o solo, suas asas bateram pela última vez jogando um vento quente e sufocante nas flores mais próximas, e desapareceram logo depois em chamas que foram consumidas no ar. Sua aura também havia se dissipado, voltando a ter superficialmente a imagem do Adler de sempre.
Ele fitou as várias flores adiante, e sorriu lembrando-se de uma coisa que fizera há uma semana. Ele, seu pai, e seus capangas atearam fogo na casa dos Goldins. Mas ainda não satisfeito com as labaredas que preenchiam a mansão, Adler também havia queimado a estufa que Joana tanto cuidara. E agora, novamente diante de seus olhos, ele reencontrava flores que novamente seriam queimadas.
Sua atenção voltou-se para o casebre próximo ao campo. Ele sorriu ao ver uma pessoa parada em frente à casa, justamente quem estava procurando.
- Aí está você, Joana – proferiu para ele mesmo.
A jovem olhou para o seu ex-noivo com uma normal expressão que levemente demonstrava confiança. Abusando de toda a sua coragem, ela deu passos calmos e lentos até o homem que lhe esperava no campo com um sorriso maléfico estampado no rosto. Joana caminhou por entre a trilha que dava direto para Adler, posicionado sobre uma porção de flores, esmagando-as sem hesitação.
- Adler... – disse ao se aproximar.
- Parece que você percebeu, minha querida – disse o homem num tom sarcástico. – Todo o meu plano para conseguir pôr as mãos no tesouro de sua família foi executado perfeitamente. Embora alguns contratempos, eu consegui superar todos os obstáculos. Entretanto, ainda falta algo essencial para que isso acabe... – pausou com um sorriso afetado no rosto. - ...Matá-la! Imagino que esteja cheia de raiva e ódio por ter despedaçado sua vida. Afinal, fui eu quem matou o seu pai e roubou o seu tão precioso tesouro. – continuou ele, achando graça de suas próprias palavras.
- O que você pretende fazer com esse poder? Isso não te levará a lugar nenhum – Joana disse, sem medo, tentando confrontar o homem.
- É incrível como pessoas que possuem uma mente tão madura sejam tão ingênuas. Não parece que pertence a uma família de nobreza. Seu jeito de ver as coisas é totalmente o contrário de suas raízes. É patético! Você me enjoa pelo fato de não conseguir largar os sentimentos de seus pais. Eles já morreram. Não fazem mais parte deste mundo. A única coisa aproveitável deles já foi queimada naquele incidente que eu mesmo causei. – Joana mostrou uma expressão de irritação. – Pessoas como você, quando enfrentam caras como eu, são fáceis de lidar. Nossas mentalidades são diferentes, nossas motivações são diferentes, nossas próprias imagens na sociedade são diferentes, assim como nosso estado físico neste mundo. Um morre e outro vive. – Adler ergueu sua mão direita em direção a Joana, como se estivesse prestes a lançar uma de suas rajadas. – E acho que você sabe quais pessoas morrerão, não sabe? – Joana moveu seu rosto para baixo, demonstrando estar refletindo, mas ao mesmo tempo denotava infelicidade em seus olhos.
- Justo agora que havia encontrado pessoas especiais. Quando estava prestes a conhecer uma nova vida. Eu... morrerei aqui?
- É o cenário perfeito, não acha? Não é você que adora flores? Faça companhia pra elas até depois de sua morte – disse soltando uma risada em seguida. Joana estremeceu, apenas fechou os olhos e preparou-se para a pior dor física de sua vida. – Adeus, família Goldin! – proferiu o homem antes de lançar uma rajada que atingiu em cheio o corpo de Joana. Ela caiu para trás, enquanto Adler continuava a incinerá-la, e sua risada se misturava ao som dos gritos da jovem e das chamas que a queimavam. Suas gargalhadas continuaram quando que com as duas mãos, ele passou a lançar suas chamas por todo o espaço em volta. Joana tinha seu corpo estendido no chão envolto pelas chamas que consumiam sua carne. O grito dela ainda era audível, o que incitava ainda mais a risada de seu assassino. As lágrimas da jovem moça, apesar de profundas, não apagaram as chamas que invadiram os seus olhos.
As labaredas pelo campo rapidamente tomaram proporções maiores, e grandes lumes se formaram, consumindo todas as flores que tiveram o mesmo destino de uma mulher que morrera perto delas.


Capítulo 10

Campo flamejante


“Está tudo tão escuro. Onde eu estou?”
- O que está fazendo, pusilânime? – perguntou uma voz que o mago conhecia bem. – Por que está com seus olhos fechados? Por que seus músculos não se mexem? Sua motivação e seu objetivo são tão fracos assim? Já pensou que na sua ausência, uma pequena parte do mundo pode estar sendo destruído? Você não quer levar a culpa depois que o pior já tiver acontecido, quer? Se não quer... Acorde!

As chamas bruxuleavam em sua vista. O quarto onde se encontrava ardia em chamas causando a ambientação alaranjada que nem mesmo a luz do dia poderia mudar. Tal luz penetrava fracamente pela enorme janela que Adler explodira para escapar. O fogo consumia os quadros, os móveis, e principalmente a cama que estava praticamente coberta por labaredas.
Melvin tinha um profundo corte na parte superior direita de sua testa, escondido pelas mechas de seu cabelo. O sangue escorria passando pelo olho, e resvalando pelo seu rosto, até pingar do queixo para sua roupa. O mago havia batido a cabeça com muita força na explosão causada por Adler, e por isso encontrava-se sentado no chão e encostado a parede.
Sua visão estava embaçada e sua mente ainda não conseguia absorver totalmente a realidade. Sentia-se tonto pela forte batida na cabeça. Ele ouviu o som de passos esmagando os estilhaços de vidro da janela do cômodo. Apesar das chamas, o barulho dos passos sobressaía naquele lugar.
Com a cabeça abaixada, Melvin pôde notar um sapato feminino de cor branca, e a julgar pelo seu tamanho, parecia ser os pés de uma criança. Após fixar-se em frente ao mago, ela soltou uma inocente risada que denunciou sua voz. Era mesmo uma menina. Melvin queria saber quem era aquela garota, mas sua cabeça custava a se levantar. Estava rapidamente perdendo os sentidos, e mais uma vez voltou a perder a consciência.
O mago acordou novamente, mais dessa vez sentiu algo diferente. A incomodante dor em sua testa havia sumido misteriosamente. Não se sentia mais fraco, e sim com a mesma disposição de sempre. Parecia que nada lhe havia acontecido.
“O que houve?” perguntou-se. As falas que ouvira daquele homem, que era seu mestre, e a imagem dos sapatos da garotinha permaneciam em sua memória. A misteriosa garota era o fato que mais lhe perturbava, juntamente com sua incompreensível cura.
Colocou a mão em seu ferimento, e percebeu que até o sangue escorrido fora limpo. Alguém havia cuidado dele? Melvin calmamente levantou-se, e olhou para o quarto em chamas. O intrigante era que o fogo consumia tudo de forma lenta e preguiçosa, como se estivesse quase morrendo. As pequenas chamas aos poucos desapareciam. Aquele pequeno incêndio em um dos cômodos da hospedaria pouco demonstrava risco para a mesma.
Ele então notou que Adler não estava em lugar algum do recinto. Havia desaparecido deixando suas chamas. Melvin sabia que a explosão fora causada pelo nobre, e ele aproveitara a chance em que o mago estava desacordado para fugir. Mas o que o mesmo se perguntava, era onde Aler estaria. Explodir tudo chamou muita atenção.
E além disso, Melvin ficou fitando as chamas sobre a cama.
“Essas chamas estão se comportando de forma estranha. Será que há algo de errado com o poder Volaki dele?”
Neste momento, a porta do quarto foi aberta. Ela não havia sido derrubada pela explosão. Alguns funcionários da hospedaria, com expressões aflitas, ficaram na entrada do quarto, e observaram o mago parado mais adiante. Entretanto, este não deu muita atenção, apenas concentrou-se em seus pensamentos.
“Ele não está por aqui. Deve ter ido a algum lugar. Mas onde?” Melvin lembrou-se de que Adler os reconhecera no dia anterior, pois havia recebido toda a informação de um dos guardas de Joana.
- Essa não! – exclamou o mago após sua dedução. – Ele foi atrás da Joana! O campo de Florisval!
Foi quando um homem apareceu no meio das quatro pessoas da porta. Ele também era um funcionário da hospedaria, vestido de forma mais elegante, provavelmente era o dono da estalagem. – Vocês viram aquela coisa voando no céu? Eu tenho certeza que ela saiu daqui! – disse aos seus colegas de trabalho, para só então olhar para o quarto. Ele deixou seu rosto estático quando notou a presença do mago. Este se interessou pelo o que ouvira.
- Como assim? Que coisa voadora? – perguntou ele.
- Era... era algo que parecia uma estrela cadente, mas em chamas. Toda a cidade viu. E tenho certeza que saiu deste quarto – disse o homem sem hesitação, mas um pouco nervoso.
Melvin aumentou sua preocupação ao saber daquilo. Olhou para janela estilhaçada, e viu que tudo se encaixava.
- Ele voou – conclui. – Não posso ficar aqui parado.
Percebendo a gravidade da situação, o mago fechou os olhos e se concentrou. Tinha que alcançar aquele homem o mais rápido possível, antes que uma tragédia acontecesse. O ar em sua volta, apesar de quente, começou a rodeá-lo. O pessoal que estava na porta colocou as mãos na frente dos rostos por causa do vento quente que resvalava neles.
“Isso vai me fazer gastar muito da minha energia Volaki, e além do mais, precisarei de uma alta taxa de energia pra essa magia. Entretanto...”
O vento que rodeava o mago tornou-se mais rápido e até mais violento para o pessoal que estava na porta, que não teve outra saída a não ser se afastar. Os pés de Melvin lentamente começaram a se elevar. Seu corpo subiu sem pressa pelo quarto. Estava flutuando. Ele abriu os olhos, e olhou o céu pela janela.
“Chegarei bem rápido!” terminou sua linha de pensamento.
- Desculpe, Oráculo! Nunca fui bom em seguir ordens à risca. – disse ele.
Logo em seguida, inclinou seu corpo e saiu em disparada pela janela iniciando o voo sobre a cidade. Sua velocidade era semelhante à de Adler, igual também era a surpresa nas pessoas da cidade, que olharam para o céu notando um incomum homem voando.
O vento que circundava o mago podia ser visto com uma forma semelhante à de um cometa. No caso do Melvin, podia-se de forma vaga ver quem estava dentro. O mago voou para o leste de Govenrrar, o mesmo caminho que Adler seguira minutos atrás. Sem precisar avançar muito, ele pôde notar uma incomum coluna de fumaça ao longe.
- Isso é ruim! Mais rápido! – aumentou sua velocidade ao máximo.


. . . . . . . . . .


- Joana... – Florisval olhava para a amada, ajoelhado ao lado dela. O corpo da jovem ainda encontrava-se em volta pelas chamas de Adler. Soluçando, o camponês tentou tocar sua mão nela, mesmo com o corpo todo em chamas. Mas ele logo parou quando elas tentaram atacar sua mão por conta própria. Com ela afastada, ele olhou incrédulo para a jovem. – Joana... – repetiu num tom melancólico e incrédulo.
- O corpo está ficando irreconhecível, não? – disse Adler intrometendo-se, já que apenas observava aquela cena satisfatória. – As chamas não deixarão o corpo de Joana, até que o último pedaço carne seja cremado.
Florisval cerrou os punhos, e olhou para Adler com os olhos marejados e cheios de raiva. Seu inimigo apenas sorria cinicamente.
- Seu desgraçado! – Florisval correu para cima do nobre, já preparado para dar um soco na cara de quem xingou. Entretanto, Adler apenas segurou o pulso do camponês quando este se aproximou. No mesmo instante, Florisval sentiu uma queimação na região onde a mão de Adler lhe segurava. Ele começou a gritar enquanto um vapor saia do local que era queimado.
- Está queimando? – perguntou o nobre, com um sorriso maléfico em meios aos gritos do floricultor. Adler soltou uma risada devido ao grito angustiante da pessoa em frente, que tentou inutilmente com sua outra mão, soltar a mão do inimigo que prendia seu outro braço, que foi solto logo em seguida. Mas Florisval acabou recebendo um soco no rosto, fazendo-o cair para trás.
O pulso do camponês estava com uma aparência degradante. Sua pele havia sido quase desgastada, restando apenas a parte do tecido muscular, e com um pouco de sangue escorrendo dali. Os ouvidos de Adler ainda escutavam os gritos aflitivos causado pelo ferimento no pulso.
- Quando sua namorada morreu, ela sentiu uma dor muita maior do que essa. Imagine essa pequena dor espalhada por todo o seu corpo. Foi isso o que ela sentiu.
Florisval, ainda se contorcendo no chão, parou e olhou para Joana ainda em chamas atrás dele. Aquela cena triste e lamentável lhe fez esquecer até sua própria dor física, trazendo uma ainda pior.
- Joana... Joana... – murmurou ao mesmo tempo se arrastando até o corpo da amada. Não se importava em ter que passar por cima de algumas flores para isso, visto que em breve teriam o mesmo fim dela. Naquele momento, se importava apenas em aceitar o que seus olhos presenciavam. Ele esticou o braço em direção ao corpo que se encontrava ainda meio distante.
Inesperadamente, seu pulso queimado foi esmagado pela sola de Adler, cessando a possibilidade ilusório de chegar até Joana. Ele movimentou o pé como se estivesse amassando a pele de Florisval, que apenas pôde gritar.
- Seus berros angustiantes já me satisfizeram. Vamos acabar logo com isso – disse Adler com sua mão aberta para o camponês. – Irei ver qual dos gritos será o mais penoso. O seu, ou o de Joana. – Adler esboçou um malicioso sorriso, enquanto Florisval fitava de olhos arregalados, a mão do inimigo de onde poderia sair as chamas que poriam fim em sua vida. – Adeus, floricultor! Queime junto com o seu campo! – proferiu o nobre, finalizando o destino do camponês.
Subitamente, Adler recebeu um jato de água que o fez voar dez metros para o lado; seu corpo foi se arrastando em meio às flores que se soltavam do solo. Totalmente confuso, Florisval olhou para o lado e viu a figura de um mago a sua direita. Melvin estava com seu cajado erguido depois de ter soltado sua magia de água sobre o oponente. Suas mechas movimentavam com o vento quente do campo. Seu rosto demonstrava seriedade enquanto fitava os dois homens à frente ao mesmo tempo.
Melvin ergueu seu cajado para o alto e executou a mesma técnica que realizou naquele campo na noite em que chegou.
- Chova!
Uma coluna de água proveniente de seu cajado se elevou ao céu, e se espalhou ao atingir certa altura, formando um manto d’água por todo o campo. Desse manto, várias gotas começaram a cair originando uma chuva que começou a apagar todos os focos de chamas sobre o lugar.
- O que!? – Adler, que ainda estava deitado no chão depois de receber o golpe, apenas observou com o olhar surpreso, a chuva caindo sobre o terreno. A água também apagou as chamas que estavam no corpo de Joana. Uma leve fumaça de resfriamento saiu do que sobrou do corpo dela, que tinha uma aparência negra. A chuva parou totalmente quando toda a água do manto acabou, e o campo agora estava sem nenhuma chama. Mais da metade das flores havia virado cinzas, e grandes áreas que antes apresentavam beleza, agora eram apenas locais sem vida. Melvin caminhou até Florisval, que ainda permanecia no chão, se apoiando pelos joelhos e pelas mãos.
- Cheguei tarde, não é? – perguntou o mago num tom normal, mas que escondia uma profunda frustração. Florisval olhou para o corpo de Joana atrás dele, abruptamente ficou cabisbaixo. Sua raiva pela imagem era notável, assim como sua tristeza. – Sinto muito... – lamentou o mago. – A culpa foi minha por tê-lo deixado escapar. Mas dessa vez irei pôr um fim nisso.
- Você irá matá-lo? – perguntou o camponês ainda com a cabeça abaixada.
- Não – A resposta simples e rápida do mago fez o camponês se levantar rapidamente. Ele agarrou a vestimenta sobre o pescoço de Melvin e o fitou furiosamente.
- O que disse? – Sua voz era alta e irritada. – Se ele estivesse morto, Joana não teria morrido. Sabe quantas pessoas esse homem deve ter matado só pra atingir seus objetivos estúpidos? Ele merece morrer!
- Sendo assim, você também merecia – disse o mago olhando-o profundamente. – Por acaso se esqueceu que você matou seu próprio pai. – Florisval gelou com as palavras do mago. Ele tremeu os lábios e gaguejou suas próximas palavras.
- A-aquilo foi... foi... um acidente. Não foi minha intenção! – defendeu-se o camponês.
- Errado. A culpa pela morte do seu pai foi totalmente sua e conscientemente. Tudo começa com as escolhas erradas que se toma na vida. Suas escolhas são de sua inteira responsabilidade. Você preferiu viver uma vida como um arqueiro em Seylor, e deixou seu pai sozinho tendo o árduo trabalho de cuidar desse campo. Depois que seu irmão morreu, você voltou para casa, mas de maneira diferente. Estava abatido pela morte do irmão e arrependido de ter deixado o campo. Mas ao invés de você voltar fielmente a sua vida de floricultor, você começou a fingir que realmente era um , quando na verdade, sua alma se remoia de remorsos pela sua decisão errada. Você começou a se perder em sua própria vida, e entrou em depressão mesmo que superficialmente não parecesse. A culpa foi toda sua, e inteiramente sua.
As últimas palavras do mago estremeceram o camponês que largou a túnica de Melvin, e afastou-se com a mão na cabeça. Sua mente parecia querer se destruir e negar toda a realidade. O seu lastimável grito denotava tal fúria e tristeza
- Não! Não! Não! – gritava o camponês, ajoelhando-se.
- Por isso eu quero que tome a decisão certa agora. Afaste-se e deixe eu cuidar disso – falou o mago. – Fique em espera na sua casa.
- Mas... – Florisval foi interrompido pela ordem de Melvin.
- Vá logo! Já disse que resolverei as coisas aqui!
Florisval fechou as mãos com força tentando seguir a ordem dada pelo mago, mas por fim, acabou por aceitar. Ele então começou a correr em direção a sua casa, sem mesmo olhar para trás ou para os lados. Apenas com a cabeça abaixada, chateado por não poder fazer nada.
- Ora, ora! Parece que ele acabou mesmo te obedecendo – comentou Adler caminhando sobre as flores sendo amassadas por seus pés. Melvin lentamente virou seu rosto para ele, com um olhar bem sério. – É a questão dos mais fortes. Aquele rapaz estava no lugar errado. A única coisa que ele poderia fazer aqui era extravasar o seu ódio e morrer em seguida. Coisa que eu estava executando se você não tivesse me interrompido.
- E não será apenas isso. Irei também interromper suas ambições. Parece que nada do que eu disse no nosso último encontro fez diferença para você.
- Ah, por favor. Não vamos entrar naquela conversa de novo. Se pensa que vai mudar o meu jeito de pensar está muito enganado. Não sou que nem o garoto que por ser fraco, teve de acreditar em suas palavras.
Florisval adentrou em seu quarto, e olhou o campo pela janela. Ainda com os punhos cerrados, sentia-se ruim por não fazer nada naquela situação. De forma alguma se conformava em ficar escondido. Seus olhos pairaram sobre o corpo de Joana no campo. Um ódio ainda maior o tomou, lhe fazendo socar a parede do cômodo.
- Droga! Droga! – repetia alto enquanto batia na parede. Foi quando seus olhos encontraram algo bem peculiar no canto do quarto, que imediatamente fizeram o camponês cessar o seu acesso de fúria. O arco jazia como uma opção, encostada no concreto. Ele estreitou os olhos sabendo o que faria com aquela arma.
Adler e Melvin ainda conversavam no campo. Por enquanto, apenas executavam uma batalha entre seus diálogos.
- Vamos acabar com isso de uma vez, mago Melvin – desafiou Adler.
- Eu irei abrir os seus olhos! – exclamou já lançando uma rajada de água com seu cajado. Adler soltou uma de fogo e ambos permaneceram medindo forças. Uma nuvem branca originou-se do choque entre os dois elementos. A fumaça branca começou a tomar mais espaço ente eles a ponto de nenhum dos adversários se enxergarem.
Florisval estava na janela com seu arco posicionado para atirar.
- Droga! A nuvem tampou o desgraçado! – exclamou ele, frustrado.
Melvin e Adler continuavam lançando suas rajadas. Um colocando cada vez mais força na técnica que se chocava com cada vez mais velocidade e violência, gerando ainda mais fumaças de resfriamento.
“Acho que já está na hora.” pensou o mago, analisando sua estratégia. Ele desfez sua técnica e pulou para o lado saindo da trajetória da rajada do inimigo. As chamas passaram ao lado do mago, enquanto Adler nem se dava conta do que acontecia. Melvin avançou através das nuvens que parecia uma névoa em volta dele.
- O que!? – Adler foi surpreendido quando a imagem do mago apareceu ao lado dele. Melvin movimentou o seu cajado e com a ponta de sua arma, atingiu a testa do oponente, que no mesmo instante cessou sua rajada.
- O toque divino que abre a mente desiludida. A verdadeira pessoa sob as vestes da escuridão revela-se para um novo mundo. Técnica secreta: Purificação da alma! Liberte sua paz!
O mago puxou o cajado, e uma luz se originou na testa de Adler. Dali, várias partículas negras foram expelidas. O homem soltou um fraco grito de dor. Melvin apenas o fitou até as partículas cessarem. A luz se desfez deixando em Adler, uma expressão desolada. A névoa ainda era densa em volta deles.
- O que... – O homem tentou dizer algo, mas não conseguia achar as palavras.
- Como se sente, Adler? Ainda quer acabar com suas testemunhas? – perguntou o mago.
- Melvin... Eu posso ver. É estranho – O próprio tom de Adler parecia confuso. – Coisas que antes eu não percebia, eu agora percebo. Eu... eu simplesmente não acredito que fiz tantas coisas sem saber disso.
- Você liberou toda a Energia Maligna que distorcia sua mente. Além do mais, você executou muitas coisas que qualquer um classificaria como condenáveis. É natural você ter esse choque.
- Meu pai... minha família... dessa vez eu estou enxergando um outro lado da palavra ganância. Um lado bem sujo. Mas não é apenas isso... os guardas, Joana... eu... – Adler olhou para a palma de suas mãos levantadas na altura do peito. - ... os matei por uma coisa tão...desnecessária. – Ele então fitou o mago adiante. – Por quê? Por que eu cometi esses atos e agora percebo que isso é errado? – perguntou com uma expressão pasma.
- Porque para alguém era certo – respondeu o mago. – A sociedade nobre de onde você veio moldou seu estilo de vida, que até então, você aceitou como algo certo.
- Quer dizer... que essa minha visão de agora é que é a certa? - perguntou Adler. Melvin hesitou em responder.
- Talvez – disse com uma expressão indecisa. – Mas... é o que eu acredito. Caso contrário, fazer o que fiz com você agora seria inútil.
A fumaça originada do choque entre os ataques de ambos, finalmente começava a se dissipar. Era visível a luz do sol abrindo caminho entre a névoa acima deles.
- Mas quer saber? – disse Adler. – Eu também irei acreditar. – A decisão daquele homem causou um sorriso no mago.
“Está ali!” Pensou o camponês com seu arco em posição. “Morra!”
No mesmo instante em que Florisval disparou a flecha, Melvin captou um pico de Energia Maligna bem próximo. Ele olhou para o lado, e observou a flecha saindo da janela do casebre.
- Agora eu só preciso... – A fala de Adler foi cortada pela voz do mago.
- Adler! – gritou Melvin.
Adler mal teve tempo de ver o que era, pois no mesmo instante, a flecha cravou lateralmente em seu pescoço lhe atravessando até metade da seta. Sangue foi jorrado enquanto o corpo caia lentamente para o lado. Melvin olhava a cena de forma pasma e em câmera lenta. Florisval a assistia de longe, com olhos cheios de ódio, mas satisfeitos.


Próximo Capítulo: Fogo ascendente

1 comentários:

demimpravocê disse...

Poxaa obrigada por ter deixado aquele comentário la no meu "bloghistória", na verdade eu tava quase descontinuando porque achei que não era interessante e que ninguém ia querer ler sei la...é, é meio como se fosse uma biografia, mas...acho que se você continuar lendo quando eu escrever mais um pouco vc vai conseguir compreender melhor.Aliás, você é meu primeiro incentivo pra continuar escrevendo!Espero que seja meu crítico também!:D..em breve o primeiro capítulo!

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