Florisval olhava respeitosamente o túmulo diante dele. Um monte de terra prendia uma cruz de madeira com um cordão florido. Ali, jazia o corpo de seu querido pai.
No céu, uma grande nuvem filtrou parcialmente os raios solares, deixando uma luz meio pálida incidir sobre a terra. O camponês, cercado pelo seu campo, cerrava os punhos de seus braços agachados como se estivesse se culpando por estar olhando para aquela imagem.
- Eu não sei se o senhor vai me perdoar. Se eu não fosse tão idiota, e tão fraco, o senhor estaria ao meu lado. Não precisaria de um sacrifício deste para retornar ao meu estado são. Por isso, - Florisval suspirou, sentindo toda a sua responsabilidade dali pra frente -, eu cumprirei a promessa que fiz ao senhor, pai. Cuidarei desse campo como se fosse a minha própria vida.
Uma brisa agradável passou por todo o campo e acometeu delicadamente o corpo do floricultor. Seus olhos, que antes não demonstravam vivacidade, agora denotavam o verdadeiro Florisval. Ele agora iria recomeçar sua vida, estimulado pelo último desejo do pai.
E para um bom começo, a nuvem que veludava a radiante luz do sol, passou, deixando o campo de Florisval reluzir sua beleza única.
Um pouco distante dali, num pequeno morrinho na encosta da estrada que passava ao lado do campo, duas figuras espionavam o camponês ao longe. Tais indivíduos sentavam-se sobre um meio muro que sobrara dos restos de uma casa antiga.
- É aquele? Aquele é o Guardião, Lehan? – indagou um deles ao irmão.
- Sim. Parece que o anterior acabou falecendo e a tarefa passou para o filho.
- Ora, se o atual Guardião morreu não seria mais prudente dar um fim neste e tomar posse do tal lugar? Ele ainda deve ser inexperiente.
- Não aja sem pensar, Hanel – replicou o irmão. – Não temos nenhuma informação a respeito do filho. Temos que nos aproximar e descobrir o quanto ele sabe sobre o Refúgio da Esperança. Vamos seguir à risca o que foi nos incumbido de realizar.
- Está bem. Isso vai ser um trabalho longo, mas estou ansioso para contracenar com aquele floricultor.
- Sim – assentiu o irmão com um sorriso. – Vamos dar início ao roteiro.
Capítulo 19
Ramon e Dimas
Uma luz prateada empalidecia o recinto de Florisval que dormia profundamente em seu leito. Apenas o som de sua respiração suave em harmonia com o vento noturno que entrava pela janela podia ser ouvido.
Foi quando uma sombra escura surgiu repentinamente no chão. Ninguém havia notado a presença do misterioso intruso, nem mesmo o camponês, que se encontrava inerte em seu sono. A pessoa, que tinha um rosto esbranquiçado, delineou um sorriso medonho pondo seus dentes branqueados à mostra. Ele ergueu sua mão direita e tocou levemente a fronte de Florisval.
Subitamente o camponês abriu os olhos, talvez assustado com alguma coisa, ou sentindo algo de estranho que o fizesse ter acordado. Confuso, ele olhou para o quarto iluminado de maneira tênue pela luz do luar. Fitou a janela sentindo uma brisa frígida e misteriosa que a noite lhe trazia.
Tudo parecia normal. Não sabia o motivo de ter acordado daquele jeito, mas rendeu-se novamente ao sono. Fechou os seus olhos procurando novamente o caminho do descanso.
No lado de fora da casa, Hanel caminhava serenamente sob o céu enegrecido em uma noite de lua cheia que proporcionava uma tonalidade mais prateada ao seu rosto. O palhaço dirigiu-se para a estrada tomando a trilha de terra que ligava a casa do camponês com a estrada que passava ao lado do campo. Após pegar a estrada, caminhou para a direita, com o campo como paisagem neste mesmo lado. Em seguida, foi para a encosta esquerda da trilha e subiu uma pequena elevação até chegar aos muros abandonados de uma antiga casa, no alto do mesmo morro.
- Como foi? Descobriu alguma coisa? – perguntou o irmão de Hanel que o esperava sentado em cima do mesmo muro em que espionaram o floricultor no entardecer daquele dia.
- Está me subestimando? Eu sou seu irmão. Estaria menosprezando você também – disse Hanel se aproximando.
- Desculpe, mas em todos os roteiros existem falhas nas cenas quando os atores estão atuando. Como um dos co-diretores e atores, devo cogitar todas as possibilidades – disse Lehan. O diálogo entre os irmãos parecia ser leve, assim como suas vozes, não importando o rumo que o assunto tomasse.
- Nós somos mestres na atuação. Não admitimos falhas. Como nós planejamos, eu conheci a vida daquele personagem campestre.
- Conte-me – pediu o irmão com ânsia.
- O Guardião que teve contato com os magos que construíram o Refúgio da Esperança faleceu há alguns dias. Parece que o camponês chamado Florisval soube a apenas dois dias da existência da base por meio de uma carta dado por um taberneiro da cidade de Govenrrar, a qual Florisval trabalha como floricultor em uma loja. Ele ainda não entende todo o sistema da base, mas está aprendendo. E ele parece só ter tido contato com magos na Guerra das Energias, em Seylor, quando o reino combateu o Exército Maligno há alguns anos. Parece que ele vai reerguer o comércio de sua floricultura amanhã de manhã – explicou Hanel.
- É uma história interessante pelo o que me contou. Estou certo de que viu muito mais do que me disse até agora.
- Sim. Vi outras coisas bem peculiares na mente daquele rapaz, mas o importante para a nossa missão eu já contei.
- Então... – Lehan pulou do muro o qual estava sentado e fitou o campo florido alumiado com um tom prateado. – Como vai ser nossa inserção na história do Florisval?
- Eu já montei essa parte da história – respondeu o irmão, soltando uma orgulhosa gargalhada.
. . . . . . . . . . . . .
O dia amanhecia de forma bonita naquela manhã. O céu amarelado aclarava um pequeno campo de trigo graciosamente. Seus ramos ondeavam com a refrescante brisa matinal. Próximo desta cultura, havia uma casa de madeira, a qual vivia um casal que cuidava daquele campo.
Enquanto a mulher preparava o desjejum, seu marido ajeitava sua roupa agreste para trabalhar novamente no milharal que ocupava apenas um quilômetro quadrado ao lado de sua moradia. Era apenas mais um dia comum, com suas ações prototípicas de toda manhã. Mas dessa vez, um anomalia bateu à porta. O casal se entreolhou estranhando uma visita já tão cedo.
- Eu irei ver quem é – disse o homem partindo para porta.
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Um camponês de nome Florisval procurava ajeitar os vasos de flores em uma das estantes de sua loja. Ela andara desarrumada por um tempo e necessitava de um rápido ajeitamento. O floricultor caminhava de lá pra cá, ordenando cada flor, vaso, e ajeitando-os de uma forma que chamasse atenção. Além disso, uma vassoura jazia encostada numa estante, e um monte de terra erguia-se no chão diante do objeto. O camponês parecia muito atarefado, e tal preocupação estava expressa em seu rosto.
A luz do sol iluminava vagarosamente pela janela, dando um aspecto matinal a floricultura. Ainda era início de manhã, e por isso a luz era fraca. Florisval acordara antes do galo cantar, para chegar cedo na loja, com o fim de arrumá-la para as vendas naquele dia. O trabalho fez-lhe dar um suspiro cansativo.
- Não sei se vou conseguir tomar conta disso sozinho. É muita coisa pra uma pessoa só.
A porta da floricultura foi aberta, e duas sombras se precipitaram em frente a ela. Quando Florisval ouvir o ranger da mesma, direcionou o olhar para fora e fitou dois garotos que nunca vira antes na vida. Eles eram simples, e trajavam uma roupa gastada, mas o que chamou mesmo a atenção do floricultor era a gentileza em suas feições.
- Bom dia! Nós estamos à procura de trabalho. Será que o senhor pode nos ajudar? – perguntou um garoto de cabelos lisos e curtos. Uma expressão de carência se formou em seu rosto, impressionando ainda mais o camponês.
- Nós precisamos muito de um trabalho. Temos que ajudar nossa família – disse o outro garoto com a mesma feição do que falara antes.
- Vocês... – Florisval ia dizer algo, mas foi interrompido pelo primeiro garoto que lhe falou.
- Por favor! Podemos fazer qualquer coisa. Não precisa nos pagar muito. O pouco que nos der já é o suficiente – A voz carente permaneceu adicionando um tom de imploração. Florisval ficou os olhando por algum tempo sem saber o que responder. Aquilo fora muito repentino, mas ao parar para pensar melhor, pareceu ter vindo na hora certa. Ele delineou um gentil sorriso para os meninos.
- Vocês sabem cuidar de flores? – ele perguntou.
- Não. Mas podemos aprender – disse o segundo garoto com um tom jocoso.
- Claro. Eu vou ensiná-los então – disse Florisval em contentamento. Mas uma condição veio a sua mente, como se fosse algo óbvio. – Mas eu só vou poder ensiná-los se eu tiver permissão dos pais de vocês. Eu não posso empregar duas crianças com um trabalho de verdade. Concordo que vocês podem ser meus ajudantes, mas não quero tirar a liberdade que a idade de vocês lhes dá.
– Não se preocupe com isso. Nós dissemos aos nossos pais que viríamos à cidade à procura de um trabalho. Mas se você quiser, nós podemos levá-lo até eles agorinha mesmo – Dimas falou numa voz descontraída.
- Sim. Vem conosco – disse o irmão dele. Ambos os garotos pareciam estar felizes. Florisval, talvez tocado pela energia prazerosa que emanava das faces de ambos os meninos, aceitou o convite.
O floricultor fechou a loja, um pouco a contragosto, já que seu intuito era reabri - lá naquele mesmo dia. Entretanto, a chegada daqueles dois inesperados meninos o pegou de surpresa. Estava curioso em saber mais sobre eles. Para quem andava resmungando de que teria muito trabalho, o aparecimento de Dimas e Ramon poderia não ter sido por acaso.
Os três pegaram a estrada para fora da cidade em direção ao norte, e caminharam por ela por alguns minutos até chegarem a uma pequena e apagada trilha, escondida entre os vários ramos de árvores que debruçavam seus galhos pálidos sobre a mesma. Era um caminho estreito comparado a estrada principal e fazia uma curva logo à frente.
Caminharam por esta trilha muito silenciosa, acompanhados de muito verde que parecia estar lhe observando. Florisval sentiu um leve temor. Nunca esteve naquele lugar antes, e a luz do sol parecia não encontrar o caminho para incidir sobre a trilha, devido às árvores quase agarradas a estrada durante o caminho. Isso tornava o percurso, medonho e frio.
- Já estamos chegando? – perguntou o camponês, incitado pelo temor.
- Sim. Estamos quase lá – respondeu Hanel com a mesma voz alegre e radiante desde que se apresentara. Com isso, ele fez esvanecer o sentimento temeroso do floricultor com relação àquele lugar. Pensou que aquilo talvez fosse apenas uma imaginação boba de sua cabeça.
Mais um pouco caminhando, e Florisval pôde ver um rastro de luz iluminar os últimos metros da trilha. Adiante, havia um gramado com um trigal mais ao fundo. Os raios de sol acometeram em seu corpo, lhe esquentando, e retirando qualquer sensação ruim a respeito de onde estava. Viu um casebre ao lado, um pouco depois da trilha, e à frente do trigal, que trouxe um efeito nostálgico para ele. Um campo e um casebre lembravam muito o seu lar.
- Esse campo é de vocês? – perguntou Florisval admirando o lugar.
- Sim. Enquanto minha mãe é artesã, meu pai cuida desse campo. Mas ele é pequeno e a fartura é pouca. Mesmo juntando o dinheiro dos dois trabalhos ainda é difícil sustentar quatro pessoas – respondeu Dimas, ainda com sua voz alegre.
Os três chegaram à porta da moradia onde moravam os pais de Dimas e Ramon. Bateram-na e esperaram ser atendidos. Um homem forte e parrudo apareceu na soleira da porta. Usava um chapéu rústico, feito pela própria esposa. Tinha um bigode amarronzado e portava uma roupa simples para o trabalho no campo com um macacão de couro por cima.
- Dimas! Ramon! – exclamou olhando para os dois filhos. – Voltaram cedo. E ainda trouxeram visita. – reparou o homem fitando o rapaz desconhecido de aparência tímida.
- Olá, papai. Nós fomos procurar um trabalho como disse que faríamos, e esse jovem moço nos aceitou como ajudantes. Ele quer conhecer o senhor e a mamãe – disse Dimas.
- Oh! Então é isso. Mas, claro. Vamos entrar! Seja bem vindo, meu jovem – falou o homem sinalizando para que os filhos e o rapaz entrassem na casa. Após fechar a porta, o homem virou-se para a esposa que se aproximou do grupo. – Veja, querida. Nossos meninos disseram que conseguiram um trabalho de ajudantes e que esse jovem será o chefe deles – disse o pai com uma risada.
Florisval não sabia o que falar diante daquela situação. Estava na presença de humildes pessoas. Não os conhecia direito, mas o simples fato de ter aceitado Ramon e Dimas como ajudantes, tornava sua visita convidativa.
Quando não eram os pais, eram os filhos que se pronunciavam. Sentaram em algumas poltronas na sala, um dos únicos cômodos da casa tirando a cozinha sem nenhuma divisão com este recinto. Lá, deixaram Florisval mais confortado para que falasse mais sobre ele. Continuou meio tímido no início, mas o clima alegre daquela família acabou lhe contagiando, aumentando ainda mais sua confiança. Ele e o pai dos garotos acabaram entrando numa conversa de campo, que foi uma das muitas outras que foram discorridas por eles.
Passaram-se horas e o floricultor acabou ficando para o almoço. Após conversarem mais um pouco, Florisval se despediu. Disse que não era preciso que os meninos lhe acompanhassem até a estrada principal. O medo daquele caminho pálido foi completamente extinguido pela alegria daquela família.
Assim que o camponês se foi e o baque da porta foi ouvido pelos integrantes da casa, Dimas e Ramon parados em frente à mesma esboçaram satisfatórios sorrisos. Ficaram desse jeito por alguns instantes, como se aproveitassem algum tipo de vitória. Voltaram-se em uníssono para os pais.
- Bom trabalho. Pai, mãe – falou Ramon a seus pais.
- Foi mesmo uma ótima atuação – adicionou o irmão com um sorriso orgulhoso estampado no rosto.
O homem e a mulher sorriram.
- Faremos tudo que vocês mandarem, filhos – disse a mãe.
- Nós somos seus subordinados, e obedeceremos qualquer ordem que nos der – disse o pai.
O casal parecia falar naturalmente alegre, longe de mostrarem uma expressão hipnotizada, como realmente estavam.
- Nossos atores devem ser perfeitos. Não devem cometer falhas – falou Hanel, ou Ramon, com uma gargalhada.
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No dia seguinte, logo cedo, Florisval já encontrou Ramon e Dimas parados diante da loja. Os garotos pareciam animados e o mesmo semblante alegre permanecia. O floricultor abriu sua loja, e começou a explicar como era o seu trabalho para os pequenos. Naquele mesmo dia, as vendas recomeçaram e os dois recém-ajudantes iniciaram seus ganha-pães.
Para um primeiro dia, os garotos foram muito bem. Cuidaram e arrumaram da loja com a mesma dedicação do dono, além de terem atendido gentilmente as pessoas que entraram.
No outro dia, Florisval não abriu a loja na parte da manhã, pois queria mostrar seu campo para os garotos. O camponês falou que cuidar do campo florido também fazia parte de seu trabalho e ficaria muito satisfeito se tivesse ajuda no cuidado daquele lugar. Os meninos aceitaram com empolgação.
E assim, os três foram levando o dia-a-dia. Florisval sentia-se aliviado por ter encontrado pessoas tão dóceis e alegres para lhe ajudar. Parecia até que o destino lhe reservava a chegada dos garotos, que por sua vez, estavam satisfeitos por tudo estar dando certo.
Certo dia, Florisval liberou Dimas e Ramon mais cedo do trabalho. Ainda era o entardecer e faltava menos de duas horas para o cair da noite. Os meninos então aproveitaram para ir até a casa do camponês sem ele saber.
Como a porta e as duas janelas da casa estavam trancadas, tiveram de se transformar em um inseto para passarem sob a porta. Uma vez na cozinha, retornaram às suas verdadeiras aparências de palhaços. Dirigiram-se até o quarto de Florisval e olharam para o assoalho.
- É aqui, não é? – indagou Hanel querendo confirmação.
- Sim. A entrada do Refúgio jaz sob o recinto do Guardião – respondeu o irmão. Com o punho direito cerrado, ele o ergueu na altura do peito e abriu a mão rapidamente. Como numa mágica, uma flor de pétalas azuis surgiu ao mesmo tempo em sua mão. – A única entrada é um pedido a Miosótis. Pois bem, mostre-nos o caminho.
Após o pedido, eles puderam contemplar uma passagem que foi aberta no chão. Ambos sorriram e desceram pelas escadas metálicas até o fim. Chegaram a um iluminado corredor e logo repararam nas lâmpadas no teto. A passagem pela qual vieram se fechou e eles continuaram o percurso.
Logo no início, encontraram uma porta que se abriu lateralmente revelando um recinto clareado apenas pelos feixes dos televisores ao fundo. Os palhaços adentraram sucintamente no âmbito.
- Esta deve ser a sala de monitoramento externo. Há câmeras espalhadas por toda a região do campo, floresta, e montanhas aqui perto. Poderíamos usar para ver se o Guardião está vindo. – comentou Lehan. – Mas devemos nos encaminhar para a sala de segurança. Temos uma importante missão ainda a fazer.
- Vamos nos apressar então – Hanel falou já na soleira da porta.
Os dois reiniciaram a passada pelo corredor e chegaram a uma porta grande com desenhos de flores esculpidas na superfície.
- É aqui que devemos usar isso, não é? – perguntou Hanel fazendo o mesmo movimento do irmão quando este pegara a flor Miosótis. Mas o que apareceu na mão de Hanel foi um dedo com a extremidade enfaixada. Havia um desenho de uma flor branca pintada na unha lilás. O palhaço colocou o tal dedo no leitor ao lado da porta, e um sinal de confirmação soou para a satisfação deles.
A porta abriu-se com um ranger agudo revelando mais um pouco do corredor antes de chegar a uma camada translúcida adiante.
- O que é isso? – indagou Hanel aproximando-se.
- Isso vai nos dar um problema. No relatório vinha dizendo que uma possível camada seria uma barreira na qual nenhum intruso conseguiria entrar – Lehan respondeu, e continuou a explicar. – É impenetrável para os que não são bem-vindos. A camada é produzida por partículas luminosas. E imersas nela, estão pequenos sensores que captam qualquer matéria que a transpasse. As imagens captadas são enviadas para um sistema que confere todas as peculiaridades da matéria. Na verdade, ele faz um exame de sangue para ver se a pessoa que está passando é mesmo daqui. Mas o objetivo principal desta barreira é permitir ou não a passagem de indivíduos. Por isso que se chama Membrana. Somente as pessoas certas podem entrar.
- Significa então que não podemos passar. E se tentássemos a passagem pelas montanhas? – Hanel sugeriu.
- Não iria adiantar. Lá também tem o mesmo mecanismo de defesa. Uma Membrana estaria nos esperando em algum ponto. E nem seria uma boa idéia atravessar qualquer uma dessas Membranas. A análise sanguínea é numa fração de segundos, e no mesmo instante, a matéria dentro da fresta da camada passa por uma desmolecularização. Se colocarmos nossas mãos ali, ficaremos sem elas.
- Seria uma cena trágica - comentou o irmão, não gostando. – Então como vamos fazer para entrar?
Lehan esboçou um sorriso afetado e retirou uma luva escura do bolso de trás da calça. O irmão olhou o objeto, surpreso.
- Por sorte eu trouxe isso comigo para o caso de se nós precisássemos – Lehan retirou sua luva branca, deixando sua pele clara à mostra, e em seguida, a cobriu com a luva preta.
Quando ela se arranjou em sua mão, o desenho de uma máscara de comédia de tom dourado delineou-se na parte de cima da luva. Hanel se posicionou logo atrás de seu irmão.
- Cortina reveladora! – proferiu o palhaço o nome de sua técnica.
Subitamente, duas finas colunas de cor dourada surgiram ao seu lado, e sob elas, uma circunferência foi delineada, ficando também presa horizontalmente às duas colunas. Em seguida, um tecido rubro surgiu atrás de Hanel, e sustentado por hastes na circunferência, começou a envolver os dois palhaços numa espécie de cortina.
- Hora da mágica! – disse Lehan, envolto pela cortina.
A cortina se abriu e os indivíduos que se encontravam dentro dela desapareceram. Gradualmente, a cortina foi desaparecendo da mesma forma que surgira.
Na ponte, um pouco à frente da Membrana, a mesma cortina apareceu. Quando ela se abriu, lá estavam Hanel e Lehan. Aquilo nada mais era do que uma técnica de teletransporte. Essa cortina também desapareceu assim como a anterior. Ambos os palhaços estavam agora onde ansiavam chegar.
Vislumbraram brevemente a paisagem natural e florida abaixo deles, e encaminharam-se para a outra porta na extremidade da ponte. Novamente com o dedo que usaram para abrir a porta anterior, o reutilizaram para revelar a segunda parte do Refúgio.
Entre os corredores e suas bifurcações, ignoraram as portas, e seguiram apenas para uma específica: a sala de segurança. Dentro deste recinto, dirigiram-se para o painel onde estudaram alguns botões.
- É realmente a mesma descrição que recebemos no relatório – comentou Lehan.
Ele caminhou até um interruptor azul protegido por uma cápsula transparente. Retirou a capa e apertou o botão. Um ruído de bobinas girando soou pela sala inteira, e algumas luzes no painel parcialmente apagado se acenderam. Ao lado dos televisores, que antes já estavam ligados mostrando todas as partes do Refúgio, uma grande tela ligou num papel de parede com flores.
Lehan iniciou batidas rápidas e precisas no teclado sabendo exatamente onde queria chegar. Várias janelas eram abertas e fechadas quase que instantaneamente. O palhaço demonstrava um perfeito manuseio com o teclado, sinal de aquilo era algo longe de incomum para ele. Apertando um “entrar” com um forte baque, uma janela preta surgiu na tela. Uma listra vertical prateada piscava esperando por algum comando. Era um editor de texto.
. . . Conexão iniciada.
. . . caminho encontrado. . . estabelecendo conexão com este endereço. . . conexão confirmada.
Então, uma conversa na tela teve início. A primeira que principiou foi um contato do outro lado, para em seguida, Lehan responder.
=> Relate a situação.
=> O Guardião morreu, e tivemos que nos aproximar do filho de Bartolomeu, que agora é o encarregado deste cargo. Não fomos descobertos. Nosso envolvimento ocorre de forma natural, assim como nos mandou fazer.
=> Ótimo. A missão de vocês é permanecerem com o Guardião até a segunda ordem. Será um trabalho longo e terão de ser pacientes. Mas pensem na majestosa gratidão que o nosso Mestre terá para vocês. A recompensa será inimaginavelmente maior do que imaginam.
=> Certo, nós entendemos. Faremos isso até este momento chegar.
=> A propósito, surgiu algum mago inconveniente?
=> Não.
=> Caso algum mago se aproxime do floricultor, dê um jeito em suas memórias. Matá-lo significaria chamar atenção de Nerus. Exceto magos exilados, estes, vocês podem matar, mas um afora: um mago chamado Melvin. Caso ele encontre esta base, apenas apague a memória dele. Esse mago está nos planos de nosso Mestre.
=> Entendido.
. . . Conexão encerrada.
