- Como assim não há mais alguém aqui? – indagou Joana, mirando o cenho preocupado do amado. Tal fisionomia a deixou incomodada. Tinha dúvidas do quanto aquilo poderia ser ruim. – Quer dizer que... naquela hora... alguém fez aquele gás jorrar dentro da sala. - É a única explicação possível. Entretanto, me parece pouco provável – disse o camponês colocando a mão sobre o queixo, ponderando a veracidade de sua conclusão. - O que quer dizer? - Para alguém entrar no Refúgio da Esperança, precisa ser um dos escolhidos para entrar aqui. Esse lugar conta com um sistema de segurança tecnológico que vai além da compreensão da humanidade atual – Neste meio tempo, Joana divisou os momentos em que ela se vira confusa diante de muitas coisas que não sabia o que era e para que servia. Florisval continuou. – Logo, não acho que possa ser qualquer pessoa. Apenas alguém que conhece este lugar sabe como entrar nele. Mas até o Melvin disse que nunca ouvira falar desta base, e muito menos colocara os pés aqui dentro no passado. Significa que os escolhidos a entrar no Refúgio não são apenas aqueles que o construíram, mas também aqueles que receberam uma confiança. - Florisval, se essa pessoa é mesmo um escolhido como você falou, ele não deveria ser alguém de confiança e que estivesse ao seu lado? – perguntou Joana tirando a conclusão que podia daquela situação. Mesmo que não tenha em mente a complexidade daquele sistema, ela começava a entender alguma coisa. Afinal, seres humanos são seres adaptáveis em qualquer circunstância. E não é por ela estar num ambiente mais avançado, que sua mente não conseguiria interpretar o que a cercava. - É. Seria uma boa lógica, mas eu não acredito nisso. Ou melhor dizendo, meu pai não acreditava. Estava na carta que ele me deu. “Não conte para ninguém, mesmo se um mago aparecer na sua frente. “ - Eu nem mesmo podia confiar no Melvin totalmente até perceber o tipo de pessoa que ele era – continuou o floricultor. – Qualquer um que tiver conhecimento deste lugar pode ser bom ou mau. - Então, o que vamos fazer? – perguntou a jovem, sentindo-se um pouco amedrontada com a situação. Mas tal temor era amenizado pela fidúcia que tinha em seu amado. - Eu preciso descobrir quem é a pessoa que está aqui. Ele não pode ter entrado sem ao menos eu ter notado. Nestes últimos dias, os únicos que estiveram na base foram apenas eu; o Glin, na noite passada; e você e o Melvin agora – Florisval suspirou, e olhou determinadamente para a ponte sobre eles que ligava os dois lados daquele paraíso cheio de flores. – Só tem um lugar aonde posso descobrir onde o intruso se encontra: na sala de segurança. – Ele então se voltou para a namorada. – Venha comigo. Vamos subir até a ponte. Dito isso, ele e Joana precipitaram-se até o elevador. Na segunda vez em que utilizou aquele transporte, a jovem não parecia estar com tanto medo como da primeira vez, até porque, uma preocupação maior rondava sua mente como se algo ruim estivesse prestes a acometê-la. Chegaram na ponte. Saíram do elevador e se posicionaram ao lado do mesmo. Os dois se olharam. Florisval retirou uma flor Miosótis do bolso de seu colete e a entregou para Joana. - Eu irei até lá. Joana, você vai direto para a saída. Quanto mais cedo sair deste lugar melhor. - Mas e quanto a você? – preocupou-se a moça. - Eu irei até a sala de segurança e verei pelos monitores se encontro o intruso. Além disso, Melvin também está do outro lado. Preciso achá-lo antes que algo ruim caia sobre ele. Esse lugar tem muitos sistemas de defesa bem perigosos pelo o que já li em relatórios. Por isso, você tem que correr o mais rápido possível até a saída. Sabe onde ela fica e como fazer, não sabe? - É... só pedir a flor para sair, não é? – perguntou Joana, assentindo com a idéia, mas ainda preocupada. Ela pegou a flor e a apertou contra o peito. – Florisval, eu... – dizia hesitantemente com um olhar temeroso. - ... estou com medo. Vai ficar tudo bem, não vai? – ela perguntou. O floricultor pôde notar o olhar sobressaltado que ela tentava esconder. Num lugar como aquele, e vivenciando uma situação como aquela, era compreensível que ficasse daquele jeito. Mas o medo e a preocupação de Joana era o que Florisval não aceitaria. Ele então sorriu. - Não se preocupe. Eu ficarei bem. Nós ficaremos bem. Ele aproximou o seu corpo do dela, e afagou sua mão delicadamente na face assustada da jovem, que foi deixando o temor de lado e se rendendo aquele gesto carinhoso. Florisval então tocou os seus lábios no dela. Mas foi um beijo tão rápido que nenhum dos dois teve tempo de aproveitá-lo, entretanto, foi o suficiente para o floricultor fazer a confiança que ela tinha nele se tornar plena. Joana sentiu naquele momento que tudo acabaria bem. - Estarei lhe esperando – ela disse devolvendo o olhar afetuoso que recebia. Florisval então se virou e começou a andar até a porta dupla por onde Melvin entrara. Joana ainda permaneceu com seu olhar observando a imagem de seu amado. Ela queria rumar logo para a saída, mas ficou um momento parada, apenas fitando-o se distanciar. - Ficaremos juntos – ela disse sorrindo, e pondo-se a andar para o lado oposto. . . . . . . . . . . . . . . . . . . Uma das câmeras que jazia naquele imenso lugar cheio de flores mostrava um casal se distanciando um do outro. Tal imagem era levada para uma das telas na sala de segurança. Dois indivíduos observavam a imagem de Joana e Florisval rumando em direções contrárias na ponte. O homem queria adentrar mais na base, enquanto a outra queria sair. - Será que eles nos descobriram? – perguntou uma voz. - Eu não sei – respondeu outra pessoa. – Mas de uma forma ou de outra, teremos que abatê-los. - A mulher parece estar indo para a saída. Florisval a entregou a Miosótis. Enquanto isso, o Guardião parece adentrar nos recintos da base. Ele está vindo atrás do mago ou de nós? - Quem sabe? Mas não podemos permitir os dois caminhando por aí. Deixaremos o mago por último. Por hora, vamos dar um jeito no recém-casal. - Eu irei até o Guardião. Você fica aqui e cuida da mulher. - Oh, isso me soa como uma ordem – falou a pessoa, num tom irônico. - Por favor, irmão. Eu quero ver a surpresa na expressão dele quando me revelar – proferiu o outro, seguido de uma risada.
Capítulo 17
Revelações no Refúgio
Os passos apressados de Joana reverbavam unicamente pelo corredor que daria para a saída daquela base. Ela divisava o caminho, temerosa com algo que pudesse dar errado. Aquele lugar ainda lhe causava estranhamento e medo.
Virou o corredor onde havia a escada de metal no fim, e a porta para a sala de monitoramento à direita. Ela se precipitou até o final daquele local, porém, após seus primeiros passos, tomou um susto que a fez parar de súbito. Uma mureta metálica saiu da parede lateral e fechou totalmente o corredor na frente de Joana. O estrondo do muro batendo na parede lhe estremeceu.
Com o caminho fechado, ela voltou-se rapidamente para trás, impulsionada pelo medo. Mas quando deu apenas um único passo, mais uma divisória surgiu da parede e fechou o caminho. Ela estava presa.
- O que é isso? O que está havendo?
Logo após suas perguntas proferidas num tom apavorado, ela ouviu um som conhecido há poucos momentos. Novamente, alguns compartimentos estavam sendo erguidos nas duas paredes, e por eles, um gás vermelho foi lançado naquele âmbito recém-formado.
- Oh, não! – desesperou-se Joana pondo a mão da boca enquanto começava a tossir.
Ela sentiu a mesma sensação que sentira quando o mesmo gás fora lançado na sala de monitoramento. Seus pés começaram a vacilar, assim como suas pálpebras que foram se fechando lentamente.
Joana desabou no chão, mas ainda com consciência. Ela conseguiu manter seus olhos semi-abertos por mais alguns instantes, porém, apenas a visão embaçada do gás podia ser visto. Ela arrastou sua mão provida de força pelo chão, e murmurou uma última palavra de preocupação antes de perder a consciência.
- Florisval...
As duas muretas que cerravam o caminho da jovem e a mantinha presa retornaram a parede. Com isso, o gás se dispersou rapidamente após causar o efeito desejável. Joana encontrou-se inconsciente a poucos metros da saída.
Uma câmera de vídeo na parede observara toda a cena.
. . . . . . . . . . . . .
Florisval colocou o rosto ao lado da parede para observar alguma movimentação no próximo corredor. Percebendo o silêncio prevalente naquele lugar, ele saiu de trás da parede e entrou no corredor seguinte.
Toda a cautela era necessária naquela situação. Torcia para que o intruso não estivesse na sala de segurança, que era o local para onde rumava, pois assim, todos os seus passos estariam sendo monitorados pelas câmeras. E por falar nelas, o camponês até encarou uma delas por alguns instantes, imaginando se alguém estaria o vendo.
Mas além de achar o invasor, procurar o mago para avisar de um possível perigo, também era importante. Florisval concluiu que Melvin estaria na ala exclusiva para magos, como ele mencionou antes de se separarem. Se ele realmente estivesse lá, não há nada que o Guardião pudesse fazer já que não possuía autorização para entrar naquele setor.
Florisval chegou ao corredor onde este se dividia em dois: para a esquerda e para a direita. Ele primeiro encostou-se na parede esquerda e analisou o que havia no corredor direito. Estava escuro demais para dircenir alguma coisa ou até mesmo algum movimento. Apenas algumas lâmpadas estavam ligadas e ainda assim, numa claridade mínima. Algo de certo muito estranho, pois Florisval sabia que iluminação naquela área era o menor dos problemas. Significava que alguém havia alterado na parte de luminosidade daquele setor.
O Guardião virou-se de costas e recuou alguns passos para encostar-se na parede da direita e divisar o corredor esquerdo. Assim como o do lado oposto, este também se encontrava na escuridão mais ao fundo. A sala de segurança ficava no corredor da esquerda, mas ele queria checar se haveria alguém em sua retaguarda.
Florisval seguiu pelo corredor que o levaria à sua meta. Executava a caminhada mais sutil e silenciosa possível. Sua visão sempre tentava enxergar alguma coisa na escuridão que encobria toda a extensão do caminho. Até mesmo seus ouvidos procuravam se atentar ao menor dos barulhos.
Foi então que tamanha atenção e cautela valeram à pena. Florisval captou um som vindo de atrás dele. Estava bem fraco, porém, executado em intervalos regulares e cada vez mais audíveis. Passos ecoava no cenário enegrecido, no outro lado do corredor.
- Quem está aí? – perguntou o Guardião vendo a aproximação de alguém.
Os passos ficaram mais fortes ansiando ainda mais o surgimento daquele que o executava. Florisval ficou estático, apenas esperando aquele indivíduo irromper na escuridão.
- Melvin, é você? – perguntou mais uma vez, já que sua pergunta anterior ficara sem resposta. Mas novamente, ouviu apenas os passos como réplica.
Uma silhueta mostrou seu contorno na escuridão e a imagem daquela pessoa se revelou. Florisval arregalou os olhos e ficou inerte com a presença daquela figura. Tal indivíduo que delineou um sorriso afetado.
- Impossível. Você? – disse o camponês, pasmo.
. . . . . . . . . . . . . . . . .
- Eu não acredito – disse Melvin, olhando a figura do pai no televisor. – Não, eu não deveria estar surpreso. Afinal, um lugar desse porte não poderia passar sem o conhecimento do Mago Supremo: aquele que governa Nerus, a cidade dos magos, e todos os que habitam nela. Também responsável por guiar os povos do mundo para uma paz permanente. – Melvin mudou sua fisionomia ao olhar a face do pai que ainda mantinha-se quieta. – Ainda assim, vê-lo de novo é nostálgico pra mim.
- Eu não sei quem é você, ou quem são vocês que estão assistindo este vídeo em alguma época futura – principiou Zailon. – Mas não importa em que tempo esteja, tenho certeza que esse lugar lhe será útil. Apesar de que eu espero muito que não seja necessário usar este local com a mesma intenção de seu nome: Refúgio da Esperança. Tal nome pode nos dar esperança de vencermos algum obstáculo, mas ao mesmo tempo, indica que estão numa situação ruim para ter de usar esse lugar como um refúgio. Eu... – O cenho de Zailon ficou melancólico. -... não quero pensar que guerras de escala mundial estejam acontecendo no futuro. É realmente muito frustrante e lamentável estarmos passando por uma situação dessas. – Zailon suspirou pesadamente e tornou a falar. – Estamos em meio à chamada “Guerra das Energias”. Uma guerra que está envolvendo todo o mundo como há muito não acontece. Dessa vez, os causadores da guerra e os motivos que a levaram foram bem diferentes de outrora. Tenho conhecimento de que é nossa culpa. Culpa dos magos que não souberem fazer o trabalho que o destino lhes incumbiu de realizar. Nós falhamos, e esses erros nos custaram caro. Não só a nós, mas a todos. O resultado disso é que várias raças estão sendo dizimadas. Os reinos humanos estão decaindo. E se continuar assim, eventualmente, não sobrará mais nada neste planeta. Eu não sei qual o rumo que esta guerra tomará, mas espero que seja com um final feliz. E espero que a pessoa que esteja vendo esse vídeo não precise deste lugar para funções bélicas.
Um chamado de “senhor” foi ouvido muito abafado na tela. O olhar de Zailon olhou para alguém de soslaio. Ele fez um gesto de assentimento e prosseguiu.
- Eu não tenho muito tempo. Então explicarei para aqueles que desejam saber a história por trás do Refúgio da Esperança. Não faz muito tempo, o Exército Espectral chegou ao Continente Oeste e arrasou dois reinos menores. Agora há apenas o reino de Nandred ao norte, e Seylor, o reino de maior poderio militar dos Homens, ao sul. Os Espectros desembarcaram no meio do continente, talvez ainda pensando para qual dos reinos a tropa seguiria. Eles então foram para o sul, encaminhando-se para Seylor. A partir daí, o que houve no caminho foram apenas massacres. O Exército Maligno arrasou campos, vilas, cidades, e qualquer coisa que encontrasse pela frente. Quando chegamos ao Continente Oeste, eles já haviam avançado quase a metade do caminho até Seylor, mas ainda assim, tentamos interceptá-los o máximo que podíamos. Não era fácil, pois além dos Espectros, havia dois Lords Malignos com eles: Akiros e Hinaro. O poder deles não é nada comparado ao de Raizen, mas mesmo assim, abatiam facilmente todos os soldados, até mesmo magos de uma forma incrível e avassaladora. Então, reforçamos nossa barreira de tropas que os impedia de avançar para o reino do sul. Em contrapartida, os Espectros começaram a dividir seus exércitos, e por conta disso, também fomos forçados a dividir nossa força de combate. Nós estávamos levando muitas desvantagens, e então tivemos a idéia de criar uma base nas proximidades onde as batalhas estavam sendo travadas. Aproveitamos também que as flores mágicas depositadas no Jardim Secreto de Nerus chegaram ao continente. Eu convoquei todos os Generais em meio à guerra, e deixei os Tenentes distraindo os Exércitos com inúmeras barreiras mágicas consecutivas. Isso nos faria ganhar tempo para construir... o Refúgio da Esperança.
- Esse lugar... – Melvin murmurou.
- Sim. O Refúgio da Esperança foi construído para abrigar os magos que duelaram na Guerra das Energias. Com as flores mágicas guardadas nesse local, a recuperação dos magos em meio à guerra seria rápida e o contra-ataque às tropas inimigas iminente. Entretanto, nem tudo saiu como planejado. Meu intuito não era trazer apenas os Generais para essa base, mas também todos os outros magos. Até descobrirmos que nem todos eram confiáveis. Parece que alguém, além das tropas do Exército Espectral, estava participando sorrateiramente da guerra, sem lutar, sem se ferir, apenas observando e manipulando aqueles que achava necessário estar ao seu lado. Muitos dos nossos magos se corromperam e seguiram os Magos Negros, acreditando que conseguiriam poder e sobrevivência num novo mundo. Pelo menos, foi isso que eu ouvi.
- Magos negros... – sibilou Melvin, rememorando algo no passado que deixou vago, para prestar atenção nas próximas palavras do pai.
- Para criar o Refúgio da Esperança, escolhemos uma área próxima à cidade de Govenrrar, ainda a salvo das tropas malignas. Nós o criamos utilizando o poder habilidoso de um mago construtor, e junto com a inteligência dos midrianos, construímos um lugar de alta tecnologia. O objetivo de toda essa modernidade não era de causar uma sensação estranha e ao mesmo tempo majestosa, mas de facilitar e dividir o acesso de certas áreas a certas pessoas. Como eu havia dito antes, eu apenas convoquei Generais para esta base, e justamente eles que estão sentados nesta sala no momento. Para dar apoio aos nossos batalhões, cada General, responsável por sua própria tropa, levava as flores necessárias para o uso. Assim, cada parte de nosso exército pôde se recuperar facilmente, uma vez que os Generais recorriam a este lugar para levar os remédios feitos das flores, como em alguns casos, para os outros magos. Esse foi o uso principal do Refúgio da Esperança. Ele realmente seria um refúgio se a situação ficasse alarmante. Mas felizmente não foi o caso. No presente momento, as forças espectrais não estão mais no continente, bem como Akiros e Hinaro. O primeiro, morto pelo rei de Seylor, e o segundo, desaparecido. Mas estou deixando esse vídeo, pois quero deixar claro o que foi este lugar com minhas próprias palavras, com o meu ponto de vista, e com minha própria face exposta a quem estiver vendo esse documentário. Eu e os outros magos iremos deixar este local agora, se possível por um bom tempo. Deixaremo-nos sob responsabilidade de um humano muito gentil e responsável. Ele será o Guardião desta base. Qualquer dúvida basta apenas falar com ele.
- Entendo. Então essa é a história – falou Melvin, prestando novamente atenção ao que o outro falava.
- Uma base tão importante como essa, com todas as suas peculiaridades apresentadas, precisa de um forte sistema de segurança. E nisso, contamos com a tecnologia de Midria, uma raça com uma inteligência muito avançada, assim como as técnicas e os costumes diferenciados em sua sociedade. Com tal tecnologia de defesa, o invasor que não conhece - lá se sentirá num lugar hostil onde ele poderá recuar perante as armadilhas para capturá-lo, ou simplesmente tentará se aventurar mais adentro deste complexo, onde as chances de morrer podem ser altas quanto mais dentro ele estiver.
Melvin sabia que Joana sentira tal sensação quando entrara pela primeira vez no lugar. Mas por sorte, nada de ruim acontecera a ela.
- A base tem duas entradas e saídas. A primeira é através da Miosótis, que deve ser usada na casa do Guardião, e assim será aberta uma passagem para o primeiro corredor antes do jardim de flores. Neste corredor, há uma recinto onde o Guardião ou outra pessoa de confiança à ele, ficará observando a região acima da base. Há diversas câmeras espalhadas no campo, na casa, na estrada, na trilha da montanha, e em algumas cavernas, e dentre estas, está a segunda entrada para o Refúgio. Escondido atrás de uma parede secreta há um elevador que desce direto a ponte. Ela é considerada uma entrada e saída de emergência. Mas voltando para a entrada principal na casa do Guardião, há uma porta que apenas poucos podem entrar. O leitor possui em sua memória as impressões digitais de diversos indivíduos de confiança, logo, apenas esses poderão passar. Após essa porta, terá mais uma barreira com mais um componente de segurança. A camada protetora, chamada de Membrana, se encarrega de deixar passar apenas aqueles com o sangue compatível com a identidade. Além das digitais, nossos dados também carregam as informações sanguíneas de cada pessoa. Depois dessas duas defesas, estará o jardim de flores sob a ponte. Para usar o elevador para a saída emergencial, apenas com a impressão digital, assim como a porta de entrada para os recintos do complexo. Em seguida, haverá alguns corredores com algumas salas, cada uma com sua função. Importantes ou não, especificarei apenas uma: a sala de segurança. Esta sala monitora toda a base, contando com as inúmeras câmeras acopladas em diversos lugares. Assim, aquele que estiver como monitor poderá usar os métodos de segurança para impedir a ação de qualquer invasor. Há diferentes artifícios, manuais ou automáticos. Por exemplo, na primeira sala de monitoramento antes da ponte, através de um processo manual, podem-se jogar vários tipos de gases letais ou nem tanto letais. Ou quando uma pessoa não registrada passa pela camada protetora, ela é simplesmente desmoleculizada. Um outro sistema que também é manual, é a segurança da sala exclusiva para magos, onde alguns projetos de robôs com finalidade ofensiva são soltos no recinto principal.
Melvin franziu a testa, mas não por reconhecer que sofrera de tal sistema de segurança momentos antes, mas sim, por este ser ativado manualmente. Ignorando esta dúvida, ele continuou a escutar.
- Na sala de segurança, apenas magos também podem acessar certos dados, assim como certas portas ao longo da base – Uma outra voz interrompeu a fala de Zailon enquanto ele gravava o vídeo. O mesmo desviou o olhar para o lado da câmera.
- Senhor, temos que ir – alertou a outra pessoa no vídeo. Sua voz era adulta, mas tinha uma certa preocupação em seu tom. Zailon assentiu e voltou a fitar a câmera de frente.
- Parece que essa gravação termina aqui. Embora tudo o que eu tenha dito soe no passado como se tudo estivesse tranqüilo, digo-lhe que essa não é a verdade. Ainda estamos em guerra. Mas eu acredito que um dia essas minhas palavras farão sentido, pois acredito no futuro. E falando nele, essa base poderá ser útil. Em uma nova guerra, em uma nova época, esse lugar pode ser novamente usado. Mas quero eu... que isso nunca aconteça. E, eu tenho mais uma coisa a dizer – Zailon parecia relutar em continuar falando. Fitou o chão como se procurasse força para dizer algo. Levantou o olhar e mostrou uma pesada expressão. Melvin fitou bem o pai, algo no semblante melancólica que via, tocou em seu sentimento. – Adeus a todos! – Após a fala carregada de pesar, a tela chiou, e apenas o branco e o cinza puderam ser vistos.
O mago de cabelos lilás ainda olhava para a tela, com a mesma expressão que o pai demonstrara.
- Você sabia... Você sabia que iria morrer, não é, pai? – Melvin abaixou o rosto entristecido. Algumas lembranças surgiram em sua mente. Lembranças de um penhasco tenebroso e lúgubre.
Após recuperar-se de seu estado sorumbático, Melvin voltou-se para a realidade, processando todas as informações que conseguiu por aquele vídeo. Uma delas o perturbava.
“Um outro sistema que também é manual, é a segurança da sala exclusiva para magos, onde alguns projetos de robôs com finalidade ofensiva são soltos no recinto principal.” Lembrou ele, as palavras do pai.
A menção de Joana de ter sido lesada na sala de monitoramento, e a última hostilidade que ele mesmo sofrera há poucos instantes incitaram uma conclusão alarmante.
Essa informação fazia-lhe pensar em algo intrigante.
“Defesas manuais... Isso quer dizer que...”
Após a conclusão, Melvin correu para a saída da sala o mais rápido que pôde. Tinha que ir a sala de segurança naquele exato momento. Passou pelo recinto largo, ignorando o robô ainda quebrado no chão. Algumas câmeras nesta mesma sala viraram-se para a pessoa que corria no meio do recinto. As imagens eram transmitidas para os monitores da sala de segurança e observadas por dois indivíduos.
- Venha, mago – disse um deles.
- Estamos esperando você – completou o outro, soltando uma risada em seguida.
Melvin entrou no corredor correndo determinadamente para a sala que não era muito longe. Poucos segundos depois, após ter virado uma curva à direita, já avistava a porta dupla que teria de entrar.
- Ali!
Colocou o dedo no leitor da porta e ela abriu-se lateralmente. Ele correu até o painel e olhou ao redor da sala. Não havia ninguém. O pique que dera até o lugar deixou-lhe um pouco cansado, mas em seu estado normal aquilo não aconteceria.
Ninguém foi avistado. Melvin era o único indivíduo naquele recinto. Voltou-se para os monitores a fim de encontrar Florisval e Joana. Após rolar os olhos em alguns, impressionou-se com o que achou.
Em um deles, Joana estava estendida no chão do primeiro corredor. Ele não sabia se ela estava morta ou apenas inconsciente, mas deduziu ser a última opção, pois não encontrou ferimentos no corpo dela. Melvin queria ir até a mulher, mas preocupou-se também com o camponês. Se Joana estava naquele estado, onde estaria Florisval, já que ambos estavam juntos há poucos minutos? Não demorou muito para o mago descobrir.
- Florisval! – disse o nome bem alto daquele que viu em um dos corredores próximos a sala de segurança. Melvin deduziu que o camponês estava indo encontrá-lo enquanto Joana estava tentando sair da base.
“Será que foi apenas uma decisão deles, ou eles perceberam que havia mais alguém aqui, e por isso Florisval mandou Joana sair? Faz sentido, pois os dois foram pegos. Mas estão em lugares muito distantes. Será que ele atacou Florisval primeiro, para depois perseguir Joana antes que ela saísse da base. Mas quando foi isso? E o ataque com aqueles robôs? Talvez não seja apenas uma pessoa. Podem ser até mais.”
Enquanto Melvin refletia aquela perigosa situação que se formava, seus olhos procuravam algum movimento nos monitores.
“Ele ou eles ainda devem estar aqui. Afinal, eles não conseguiram me pegar, se é o que tentaram agora há pouco. Talvez seja melhor eu ver Florisval e Joana, mas se eu fizer isso, deixarei esta sala vaga. É por esse lugar que se controla todos os sistemas de defesa.”
- Droga! Não posso sair daqui. O invasor com certeza voltará para esta sala. Apenas assim ele tem controle total da situação.
- Você tem razão – proferiu uma voz naquele mesmo recinto.
- Sim, você tem toda razão – adicionou uma outra voz. Ambos eram tons infantis, mas o mago vagamente reconheceu aquelas falas. – Sabíamos que se fosse inteligente, viria para cá.
- Mas é uma pena que não tenha notado nossa presença aqui – a outra voz falou, rindo um pouco de maneira afetada. – Não é de se surpreender. Afinal, passamos tanto tempo perto de você, e nunca notou nada.
Melvin ainda de costas, pôs-se a virar para as duas figuras que se encontravam no fundo da sala. Estreitou os olhos já sabendo de quem se tratavam antes de visá-los.
- Eu nunca imaginei que seriam vocês. Enganaram-me completamente desde o dia em que os vi – O mago virou-se completamente para confrontar os dois indivíduos na outra ponta do recinto. Os dois garotos mostraram sorrisos afetados diante de Melvin, que olhou para cada um deles, pronunciando seus respectivos nomes. – Ramon e Dimas!
