28 de novembro de 2009

Mundo Sombrio - Capítulo 19 - Ramon e Dimas


Florisval olhava respeitosamente o túmulo diante dele. Um monte de terra prendia uma cruz de madeira com um cordão florido. Ali, jazia o corpo de seu querido pai.
No céu, uma grande nuvem filtrou parcialmente os raios solares, deixando uma luz meio pálida incidir sobre a terra. O camponês, cercado pelo seu campo, cerrava os punhos de seus braços agachados como se estivesse se culpando por estar olhando para aquela imagem.
- Eu não sei se o senhor vai me perdoar. Se eu não fosse tão idiota, e tão fraco, o senhor estaria ao meu lado. Não precisaria de um sacrifício deste para retornar ao meu estado são. Por isso, - Florisval suspirou, sentindo toda a sua responsabilidade dali pra frente -, eu cumprirei a promessa que fiz ao senhor, pai. Cuidarei desse campo como se fosse a minha própria vida.
Uma brisa agradável passou por todo o campo e acometeu delicadamente o corpo do floricultor. Seus olhos, que antes não demonstravam vivacidade, agora denotavam o verdadeiro Florisval. Ele agora iria recomeçar sua vida, estimulado pelo último desejo do pai.
E para um bom começo, a nuvem que veludava a radiante luz do sol, passou, deixando o campo de Florisval reluzir sua beleza única.

Um pouco distante dali, num pequeno morrinho na encosta da estrada que passava ao lado do campo, duas figuras espionavam o camponês ao longe. Tais indivíduos sentavam-se sobre um meio muro que sobrara dos restos de uma casa antiga.
- É aquele? Aquele é o Guardião, Lehan? – indagou um deles ao irmão.
- Sim. Parece que o anterior acabou falecendo e a tarefa passou para o filho.
- Ora, se o atual Guardião morreu não seria mais prudente dar um fim neste e tomar posse do tal lugar? Ele ainda deve ser inexperiente.
- Não aja sem pensar, Hanel – replicou o irmão. – Não temos nenhuma informação a respeito do filho. Temos que nos aproximar e descobrir o quanto ele sabe sobre o Refúgio da Esperança. Vamos seguir à risca o que foi nos incumbido de realizar.
- Está bem. Isso vai ser um trabalho longo, mas estou ansioso para contracenar com aquele floricultor.
- Sim – assentiu o irmão com um sorriso. – Vamos dar início ao roteiro.

Capítulo 19

Ramon e Dimas

Uma luz prateada empalidecia o recinto de Florisval que dormia profundamente em seu leito. Apenas o som de sua respiração suave em harmonia com o vento noturno que entrava pela janela podia ser ouvido.
Foi quando uma sombra escura surgiu repentinamente no chão. Ninguém havia notado a presença do misterioso intruso, nem mesmo o camponês, que se encontrava inerte em seu sono. A pessoa, que tinha um rosto esbranquiçado, delineou um sorriso medonho pondo seus dentes branqueados à mostra. Ele ergueu sua mão direita e tocou levemente a fronte de Florisval.
Subitamente o camponês abriu os olhos, talvez assustado com alguma coisa, ou sentindo algo de estranho que o fizesse ter acordado. Confuso, ele olhou para o quarto iluminado de maneira tênue pela luz do luar. Fitou a janela sentindo uma brisa frígida e misteriosa que a noite lhe trazia.
Tudo parecia normal. Não sabia o motivo de ter acordado daquele jeito, mas rendeu-se novamente ao sono. Fechou os seus olhos procurando novamente o caminho do descanso.

No lado de fora da casa, Hanel caminhava serenamente sob o céu enegrecido em uma noite de lua cheia que proporcionava uma tonalidade mais prateada ao seu rosto. O palhaço dirigiu-se para a estrada tomando a trilha de terra que ligava a casa do camponês com a estrada que passava ao lado do campo. Após pegar a estrada, caminhou para a direita, com o campo como paisagem neste mesmo lado. Em seguida, foi para a encosta esquerda da trilha e subiu uma pequena elevação até chegar aos muros abandonados de uma antiga casa, no alto do mesmo morro.
- Como foi? Descobriu alguma coisa? – perguntou o irmão de Hanel que o esperava sentado em cima do mesmo muro em que espionaram o floricultor no entardecer daquele dia.
- Está me subestimando? Eu sou seu irmão. Estaria menosprezando você também – disse Hanel se aproximando.
- Desculpe, mas em todos os roteiros existem falhas nas cenas quando os atores estão atuando. Como um dos co-diretores e atores, devo cogitar todas as possibilidades – disse Lehan. O diálogo entre os irmãos parecia ser leve, assim como suas vozes, não importando o rumo que o assunto tomasse.
- Nós somos mestres na atuação. Não admitimos falhas. Como nós planejamos, eu conheci a vida daquele personagem campestre.
- Conte-me – pediu o irmão com ânsia.
- O Guardião que teve contato com os magos que construíram o Refúgio da Esperança faleceu há alguns dias. Parece que o camponês chamado Florisval soube a apenas dois dias da existência da base por meio de uma carta dado por um taberneiro da cidade de Govenrrar, a qual Florisval trabalha como floricultor em uma loja. Ele ainda não entende todo o sistema da base, mas está aprendendo. E ele parece só ter tido contato com magos na Guerra das Energias, em Seylor, quando o reino combateu o Exército Maligno há alguns anos. Parece que ele vai reerguer o comércio de sua floricultura amanhã de manhã – explicou Hanel.
- É uma história interessante pelo o que me contou. Estou certo de que viu muito mais do que me disse até agora.
- Sim. Vi outras coisas bem peculiares na mente daquele rapaz, mas o importante para a nossa missão eu já contei.
- Então... – Lehan pulou do muro o qual estava sentado e fitou o campo florido alumiado com um tom prateado. – Como vai ser nossa inserção na história do Florisval?
- Eu já montei essa parte da história – respondeu o irmão, soltando uma orgulhosa gargalhada.

. . . . . . . . . . . . .


O dia amanhecia de forma bonita naquela manhã. O céu amarelado aclarava um pequeno campo de trigo graciosamente. Seus ramos ondeavam com a refrescante brisa matinal. Próximo desta cultura, havia uma casa de madeira, a qual vivia um casal que cuidava daquele campo.
Enquanto a mulher preparava o desjejum, seu marido ajeitava sua roupa agreste para trabalhar novamente no milharal que ocupava apenas um quilômetro quadrado ao lado de sua moradia. Era apenas mais um dia comum, com suas ações prototípicas de toda manhã. Mas dessa vez, um anomalia bateu à porta. O casal se entreolhou estranhando uma visita já tão cedo.
- Eu irei ver quem é – disse o homem partindo para porta.


. . . . . . . . . . . . .

Um camponês de nome Florisval procurava ajeitar os vasos de flores em uma das estantes de sua loja. Ela andara desarrumada por um tempo e necessitava de um rápido ajeitamento. O floricultor caminhava de lá pra cá, ordenando cada flor, vaso, e ajeitando-os de uma forma que chamasse atenção. Além disso, uma vassoura jazia encostada numa estante, e um monte de terra erguia-se no chão diante do objeto. O camponês parecia muito atarefado, e tal preocupação estava expressa em seu rosto.
A luz do sol iluminava vagarosamente pela janela, dando um aspecto matinal a floricultura. Ainda era início de manhã, e por isso a luz era fraca. Florisval acordara antes do galo cantar, para chegar cedo na loja, com o fim de arrumá-la para as vendas naquele dia. O trabalho fez-lhe dar um suspiro cansativo.
- Não sei se vou conseguir tomar conta disso sozinho. É muita coisa pra uma pessoa só.
A porta da floricultura foi aberta, e duas sombras se precipitaram em frente a ela. Quando Florisval ouvir o ranger da mesma, direcionou o olhar para fora e fitou dois garotos que nunca vira antes na vida. Eles eram simples, e trajavam uma roupa gastada, mas o que chamou mesmo a atenção do floricultor era a gentileza em suas feições.
- Bom dia! Nós estamos à procura de trabalho. Será que o senhor pode nos ajudar? – perguntou um garoto de cabelos lisos e curtos. Uma expressão de carência se formou em seu rosto, impressionando ainda mais o camponês.
- Nós precisamos muito de um trabalho. Temos que ajudar nossa família – disse o outro garoto com a mesma feição do que falara antes.
- Vocês... – Florisval ia dizer algo, mas foi interrompido pelo primeiro garoto que lhe falou.
- Por favor! Podemos fazer qualquer coisa. Não precisa nos pagar muito. O pouco que nos der já é o suficiente – A voz carente permaneceu adicionando um tom de imploração. Florisval ficou os olhando por algum tempo sem saber o que responder. Aquilo fora muito repentino, mas ao parar para pensar melhor, pareceu ter vindo na hora certa. Ele delineou um gentil sorriso para os meninos.
- Vocês sabem cuidar de flores? – ele perguntou.
- Não. Mas podemos aprender – disse o segundo garoto com um tom jocoso.
- Claro. Eu vou ensiná-los então – disse Florisval em contentamento. Mas uma condição veio a sua mente, como se fosse algo óbvio. – Mas eu só vou poder ensiná-los se eu tiver permissão dos pais de vocês. Eu não posso empregar duas crianças com um trabalho de verdade. Concordo que vocês podem ser meus ajudantes, mas não quero tirar a liberdade que a idade de vocês lhes dá.
– Não se preocupe com isso. Nós dissemos aos nossos pais que viríamos à cidade à procura de um trabalho. Mas se você quiser, nós podemos levá-lo até eles agorinha mesmo – Dimas falou numa voz descontraída.
- Sim. Vem conosco – disse o irmão dele. Ambos os garotos pareciam estar felizes. Florisval, talvez tocado pela energia prazerosa que emanava das faces de ambos os meninos, aceitou o convite.
O floricultor fechou a loja, um pouco a contragosto, já que seu intuito era reabri - lá naquele mesmo dia. Entretanto, a chegada daqueles dois inesperados meninos o pegou de surpresa. Estava curioso em saber mais sobre eles. Para quem andava resmungando de que teria muito trabalho, o aparecimento de Dimas e Ramon poderia não ter sido por acaso.
Os três pegaram a estrada para fora da cidade em direção ao norte, e caminharam por ela por alguns minutos até chegarem a uma pequena e apagada trilha, escondida entre os vários ramos de árvores que debruçavam seus galhos pálidos sobre a mesma. Era um caminho estreito comparado a estrada principal e fazia uma curva logo à frente.
Caminharam por esta trilha muito silenciosa, acompanhados de muito verde que parecia estar lhe observando. Florisval sentiu um leve temor. Nunca esteve naquele lugar antes, e a luz do sol parecia não encontrar o caminho para incidir sobre a trilha, devido às árvores quase agarradas a estrada durante o caminho. Isso tornava o percurso, medonho e frio.
- Já estamos chegando? – perguntou o camponês, incitado pelo temor.
- Sim. Estamos quase lá – respondeu Hanel com a mesma voz alegre e radiante desde que se apresentara. Com isso, ele fez esvanecer o sentimento temeroso do floricultor com relação àquele lugar. Pensou que aquilo talvez fosse apenas uma imaginação boba de sua cabeça.
Mais um pouco caminhando, e Florisval pôde ver um rastro de luz iluminar os últimos metros da trilha. Adiante, havia um gramado com um trigal mais ao fundo. Os raios de sol acometeram em seu corpo, lhe esquentando, e retirando qualquer sensação ruim a respeito de onde estava. Viu um casebre ao lado, um pouco depois da trilha, e à frente do trigal, que trouxe um efeito nostálgico para ele. Um campo e um casebre lembravam muito o seu lar.
- Esse campo é de vocês? – perguntou Florisval admirando o lugar.
- Sim. Enquanto minha mãe é artesã, meu pai cuida desse campo. Mas ele é pequeno e a fartura é pouca. Mesmo juntando o dinheiro dos dois trabalhos ainda é difícil sustentar quatro pessoas – respondeu Dimas, ainda com sua voz alegre.
Os três chegaram à porta da moradia onde moravam os pais de Dimas e Ramon. Bateram-na e esperaram ser atendidos. Um homem forte e parrudo apareceu na soleira da porta. Usava um chapéu rústico, feito pela própria esposa. Tinha um bigode amarronzado e portava uma roupa simples para o trabalho no campo com um macacão de couro por cima.
- Dimas! Ramon! – exclamou olhando para os dois filhos. – Voltaram cedo. E ainda trouxeram visita. – reparou o homem fitando o rapaz desconhecido de aparência tímida.
- Olá, papai. Nós fomos procurar um trabalho como disse que faríamos, e esse jovem moço nos aceitou como ajudantes. Ele quer conhecer o senhor e a mamãe – disse Dimas.
- Oh! Então é isso. Mas, claro. Vamos entrar! Seja bem vindo, meu jovem – falou o homem sinalizando para que os filhos e o rapaz entrassem na casa. Após fechar a porta, o homem virou-se para a esposa que se aproximou do grupo. – Veja, querida. Nossos meninos disseram que conseguiram um trabalho de ajudantes e que esse jovem será o chefe deles – disse o pai com uma risada.
Florisval não sabia o que falar diante daquela situação. Estava na presença de humildes pessoas. Não os conhecia direito, mas o simples fato de ter aceitado Ramon e Dimas como ajudantes, tornava sua visita convidativa.
Quando não eram os pais, eram os filhos que se pronunciavam. Sentaram em algumas poltronas na sala, um dos únicos cômodos da casa tirando a cozinha sem nenhuma divisão com este recinto. Lá, deixaram Florisval mais confortado para que falasse mais sobre ele. Continuou meio tímido no início, mas o clima alegre daquela família acabou lhe contagiando, aumentando ainda mais sua confiança. Ele e o pai dos garotos acabaram entrando numa conversa de campo, que foi uma das muitas outras que foram discorridas por eles.
Passaram-se horas e o floricultor acabou ficando para o almoço. Após conversarem mais um pouco, Florisval se despediu. Disse que não era preciso que os meninos lhe acompanhassem até a estrada principal. O medo daquele caminho pálido foi completamente extinguido pela alegria daquela família.
Assim que o camponês se foi e o baque da porta foi ouvido pelos integrantes da casa, Dimas e Ramon parados em frente à mesma esboçaram satisfatórios sorrisos. Ficaram desse jeito por alguns instantes, como se aproveitassem algum tipo de vitória. Voltaram-se em uníssono para os pais.
- Bom trabalho. Pai, mãe – falou Ramon a seus pais.
- Foi mesmo uma ótima atuação – adicionou o irmão com um sorriso orgulhoso estampado no rosto.
O homem e a mulher sorriram.
- Faremos tudo que vocês mandarem, filhos – disse a mãe.
- Nós somos seus subordinados, e obedeceremos qualquer ordem que nos der – disse o pai.
O casal parecia falar naturalmente alegre, longe de mostrarem uma expressão hipnotizada, como realmente estavam.
- Nossos atores devem ser perfeitos. Não devem cometer falhas – falou Hanel, ou Ramon, com uma gargalhada.


. . . . . . . . . . . . . .


No dia seguinte, logo cedo, Florisval já encontrou Ramon e Dimas parados diante da loja. Os garotos pareciam animados e o mesmo semblante alegre permanecia. O floricultor abriu sua loja, e começou a explicar como era o seu trabalho para os pequenos. Naquele mesmo dia, as vendas recomeçaram e os dois recém-ajudantes iniciaram seus ganha-pães.
Para um primeiro dia, os garotos foram muito bem. Cuidaram e arrumaram da loja com a mesma dedicação do dono, além de terem atendido gentilmente as pessoas que entraram.
No outro dia, Florisval não abriu a loja na parte da manhã, pois queria mostrar seu campo para os garotos. O camponês falou que cuidar do campo florido também fazia parte de seu trabalho e ficaria muito satisfeito se tivesse ajuda no cuidado daquele lugar. Os meninos aceitaram com empolgação.
E assim, os três foram levando o dia-a-dia. Florisval sentia-se aliviado por ter encontrado pessoas tão dóceis e alegres para lhe ajudar. Parecia até que o destino lhe reservava a chegada dos garotos, que por sua vez, estavam satisfeitos por tudo estar dando certo.
Certo dia, Florisval liberou Dimas e Ramon mais cedo do trabalho. Ainda era o entardecer e faltava menos de duas horas para o cair da noite. Os meninos então aproveitaram para ir até a casa do camponês sem ele saber.
Como a porta e as duas janelas da casa estavam trancadas, tiveram de se transformar em um inseto para passarem sob a porta. Uma vez na cozinha, retornaram às suas verdadeiras aparências de palhaços. Dirigiram-se até o quarto de Florisval e olharam para o assoalho.
- É aqui, não é? – indagou Hanel querendo confirmação.
- Sim. A entrada do Refúgio jaz sob o recinto do Guardião – respondeu o irmão. Com o punho direito cerrado, ele o ergueu na altura do peito e abriu a mão rapidamente. Como numa mágica, uma flor de pétalas azuis surgiu ao mesmo tempo em sua mão. – A única entrada é um pedido a Miosótis. Pois bem, mostre-nos o caminho.
Após o pedido, eles puderam contemplar uma passagem que foi aberta no chão. Ambos sorriram e desceram pelas escadas metálicas até o fim. Chegaram a um iluminado corredor e logo repararam nas lâmpadas no teto. A passagem pela qual vieram se fechou e eles continuaram o percurso.
Logo no início, encontraram uma porta que se abriu lateralmente revelando um recinto clareado apenas pelos feixes dos televisores ao fundo. Os palhaços adentraram sucintamente no âmbito.
- Esta deve ser a sala de monitoramento externo. Há câmeras espalhadas por toda a região do campo, floresta, e montanhas aqui perto. Poderíamos usar para ver se o Guardião está vindo. – comentou Lehan. – Mas devemos nos encaminhar para a sala de segurança. Temos uma importante missão ainda a fazer.
- Vamos nos apressar então – Hanel falou já na soleira da porta.
Os dois reiniciaram a passada pelo corredor e chegaram a uma porta grande com desenhos de flores esculpidas na superfície.
- É aqui que devemos usar isso, não é? – perguntou Hanel fazendo o mesmo movimento do irmão quando este pegara a flor Miosótis. Mas o que apareceu na mão de Hanel foi um dedo com a extremidade enfaixada. Havia um desenho de uma flor branca pintada na unha lilás. O palhaço colocou o tal dedo no leitor ao lado da porta, e um sinal de confirmação soou para a satisfação deles.
A porta abriu-se com um ranger agudo revelando mais um pouco do corredor antes de chegar a uma camada translúcida adiante.
- O que é isso? – indagou Hanel aproximando-se.
- Isso vai nos dar um problema. No relatório vinha dizendo que uma possível camada seria uma barreira na qual nenhum intruso conseguiria entrar – Lehan respondeu, e continuou a explicar. – É impenetrável para os que não são bem-vindos. A camada é produzida por partículas luminosas. E imersas nela, estão pequenos sensores que captam qualquer matéria que a transpasse. As imagens captadas são enviadas para um sistema que confere todas as peculiaridades da matéria. Na verdade, ele faz um exame de sangue para ver se a pessoa que está passando é mesmo daqui. Mas o objetivo principal desta barreira é permitir ou não a passagem de indivíduos. Por isso que se chama Membrana. Somente as pessoas certas podem entrar.
- Significa então que não podemos passar. E se tentássemos a passagem pelas montanhas? – Hanel sugeriu.
- Não iria adiantar. Lá também tem o mesmo mecanismo de defesa. Uma Membrana estaria nos esperando em algum ponto. E nem seria uma boa idéia atravessar qualquer uma dessas Membranas. A análise sanguínea é numa fração de segundos, e no mesmo instante, a matéria dentro da fresta da camada passa por uma desmolecularização. Se colocarmos nossas mãos ali, ficaremos sem elas.
- Seria uma cena trágica - comentou o irmão, não gostando. – Então como vamos fazer para entrar?
Lehan esboçou um sorriso afetado e retirou uma luva escura do bolso de trás da calça. O irmão olhou o objeto, surpreso.
- Por sorte eu trouxe isso comigo para o caso de se nós precisássemos – Lehan retirou sua luva branca, deixando sua pele clara à mostra, e em seguida, a cobriu com a luva preta.
Quando ela se arranjou em sua mão, o desenho de uma máscara de comédia de tom dourado delineou-se na parte de cima da luva. Hanel se posicionou logo atrás de seu irmão.
- Cortina reveladora! – proferiu o palhaço o nome de sua técnica.
Subitamente, duas finas colunas de cor dourada surgiram ao seu lado, e sob elas, uma circunferência foi delineada, ficando também presa horizontalmente às duas colunas. Em seguida, um tecido rubro surgiu atrás de Hanel, e sustentado por hastes na circunferência, começou a envolver os dois palhaços numa espécie de cortina.
- Hora da mágica! – disse Lehan, envolto pela cortina.
A cortina se abriu e os indivíduos que se encontravam dentro dela desapareceram. Gradualmente, a cortina foi desaparecendo da mesma forma que surgira.
Na ponte, um pouco à frente da Membrana, a mesma cortina apareceu. Quando ela se abriu, lá estavam Hanel e Lehan. Aquilo nada mais era do que uma técnica de teletransporte. Essa cortina também desapareceu assim como a anterior. Ambos os palhaços estavam agora onde ansiavam chegar.
Vislumbraram brevemente a paisagem natural e florida abaixo deles, e encaminharam-se para a outra porta na extremidade da ponte. Novamente com o dedo que usaram para abrir a porta anterior, o reutilizaram para revelar a segunda parte do Refúgio.
Entre os corredores e suas bifurcações, ignoraram as portas, e seguiram apenas para uma específica: a sala de segurança. Dentro deste recinto, dirigiram-se para o painel onde estudaram alguns botões.
- É realmente a mesma descrição que recebemos no relatório – comentou Lehan.
Ele caminhou até um interruptor azul protegido por uma cápsula transparente. Retirou a capa e apertou o botão. Um ruído de bobinas girando soou pela sala inteira, e algumas luzes no painel parcialmente apagado se acenderam. Ao lado dos televisores, que antes já estavam ligados mostrando todas as partes do Refúgio, uma grande tela ligou num papel de parede com flores.
Lehan iniciou batidas rápidas e precisas no teclado sabendo exatamente onde queria chegar. Várias janelas eram abertas e fechadas quase que instantaneamente. O palhaço demonstrava um perfeito manuseio com o teclado, sinal de aquilo era algo longe de incomum para ele. Apertando um “entrar” com um forte baque, uma janela preta surgiu na tela. Uma listra vertical prateada piscava esperando por algum comando. Era um editor de texto.


. . . Conexão iniciada.
. . . caminho encontrado. . . estabelecendo conexão com este endereço. . . conexão confirmada.


Então, uma conversa na tela teve início. A primeira que principiou foi um contato do outro lado, para em seguida, Lehan responder.

=> Relate a situação.
=> O Guardião morreu, e tivemos que nos aproximar do filho de Bartolomeu, que agora é o encarregado deste cargo. Não fomos descobertos. Nosso envolvimento ocorre de forma natural, assim como nos mandou fazer.
=> Ótimo. A missão de vocês é permanecerem com o Guardião até a segunda ordem. Será um trabalho longo e terão de ser pacientes. Mas pensem na majestosa gratidão que o nosso Mestre terá para vocês. A recompensa será inimaginavelmente maior do que imaginam.
=> Certo, nós entendemos. Faremos isso até este momento chegar.
=> A propósito, surgiu algum mago inconveniente?
=> Não.
=> Caso algum mago se aproxime do floricultor, dê um jeito em suas memórias. Matá-lo significaria chamar atenção de Nerus. Exceto magos exilados, estes, vocês podem matar, mas um afora: um mago chamado Melvin. Caso ele encontre esta base, apenas apague a memória dele. Esse mago está nos planos de nosso Mestre.
=> Entendido.

. . . Conexão encerrada.

18 de novembro de 2009

Mundo Sombrio - Capítulo 18 - Os verdadeiros atores

A sala de segurança era iluminada pela luz dos monitores, e os mesmos também clareavam as faces dos dois garotos que se revelaram naquele instante. Ambos vestiam as mesmas roupas surradas no dia em que conheceram o mago diante deles. Diferentemente dos semblantes alegres e curiosos que demonstraram naquela ocasião, suas feições agora eram preenchidas por um sorriso sombrio e pretensioso.
- Parece que nossa atuação realmente foi perfeita – principiou o garoto chamado Dimas. – Conseguimos até mesmo enganar um mago. Um indivíduo com alta capacidade de analisar as pessoas. Entretanto, não é nada que não possamos tapear.
- Não queremos nos gabar, mas eu e meu irmão somos mestres em atuação – falou Ramon, dando um passo à frente e olhando para Dimas ao lado antes de focar-se no mago, este ainda abismado com aquela revelação.
Melvin não podia acreditar que aqueles dois garotos eram responsáveis pela anormalidade que ali ocorria. Muitas perguntas passaram pela mente dele, e quis saciá-las ouvindo respostas dos próprios meninos.
- Essa base é um local secreto que apenas o Florisval tem conhecimento. Como sabiam sobre esse lugar? E quem realmente são vocês e o que querem? – Melvin fez várias indagações de uma vez, e o garoto com os cabelos mais rebeldes suspirou tediosamente.
- Eu sabia que essa parte das perguntas iria chegar. É um saco ter de responder todas elas.
- Mas irmão, essa é a melhor parte de nosso roteiro. Os mistérios precisam ser desvendados. Um suspense não tem graça se não for revelado no final – contrapôs o outro garoto olhando para Ramon.
- Eu discordo de seu ponto de vista. Eu acho que o suspense fica mais interessante quando ele fica vagando numa incerteza infinita mesmo após o fim do roteiro. Assim podem existir milhões de possibilidades para a verdade que irão perdurar por gerações e gerações. O que seria do mistério da vida se soubéssemos a verdade sobre ela? – explicou Ramon.
Dimas meneou a cabeça de forma indecisa como se ambos estivessem certos ou errados.
- Diferentes pontos de vista. Mas o que importa é o que vamos fazer...
As palavras de Dimas foram interrompidas quando ele notou um vento acometer seu irmão. Melvin acabara de lançar uma rajada na direção do garoto que fora atingido em cheio, sem tempo algum para se defender. A rajada ventosa foi carregando o corpo de Ramon até o fim da sala. Seu irmão olhou para trás, também pego de surpresa pelo ataque do mago, mas que atingira Ramon apenas.
- Irmão! – Dimas gritou ao ver seu irmão sendo movido pela rajada violenta de Melvin que não hesitava em manter o ataque.
Mas quando o corpo de Ramon estava prestes a se chocar contra a dura parede de concreto, a ventania que o acometia lhe envolveu numa espécie de casulo. A colisão contra a parede foi amaciada para um toque leve, e o vento se dissipou aos poucos, mas isso não fez Ramon se livrar do poder do mago. Seu corpo se encontrava preso à parede, por uma força invisível que era ditada por Melvin. Parecia algum tipo de força psíquica prendendo Ramon à parede, sem a possibilidade dele mexer seus músculos livremente, como se ele e o concreto fossem ímas de pólos contrários.
A expressão de Ramon era de agonia. Ele sentia que seus músculos custavam a se mover, e toda vez que tentava, os mesmos eram jogados para trás com uma incrível força de atração.
- Irmão! – Dimas gritou mais uma vez, virando-se totalmente para o irmão, mas sem sair de seu lugar.
Ramon estava com sua boca entreaberta por onde agonizava murmúrios de dor, além de estar com seus olhos pressionados. Os lábios moveram-se de forma trêmula para proferir uma única palavra de tom sofrido.
- Irmão.
Ao ouvir aquilo, Dimas gritou novamente a palavra “irmão” e voltou-se para o mago. Melvin expressava cautela e seriedade. Não sabia quem eram aqueles garotos, mas presumiu que seriam potencialmente perigosos. Por isso, manteu um deles preso à parede, e assim conseguiria as respostas do outro.
- Eu não sei qual escolha vocês vão adotar quanto ao suspense, mas eu sou a favor de revelarem isso no final do roteiro, se assim o chamam – ele fitou Dimas de forma intimidadora. – Responda às minhas perguntas, ou o seu irmão sofrerá. – o mago proferiu num tom ameaçador, que fez o garoto tremular por um momento. Intimidação foi o jeito mais cauteloso que Melvin achou para achar as respostas que queria, mesmo que esse não fosse exatamente o seu estilo.
O rosto de Dimas começou a suar frio, sua respiração ficou frenética, e lágrimas começaram a transbordar em seus olhos desesperados. Virou-se para trás e viu o irmão sofrendo na parede. O cajado do mago, preso à mão do mesmo, mantinha-o preso. Ele engoliu saliva, e seu rosto aparentou um desespero crescente. A boca pronunciou nervosamente um pedido num tom vacilante.
- Pare... Pare... – A voz de Dimas foi ficando mais forte à medida que via o sofrimento do irmão. – Pare! Pare com isso! – O menino então se virou para o mago e pronunciou de forma incontida numa expressão preenchida por lágrimas. – Você vai matá-lo!
Ao ouvir a última palavra, os olhos do mago se ergueram e um sentimento de temor correu por todo o seu peito fazendo seu corpo tremular, e sua alma fraquejar por alguns instantes. A mão que segurava o cajado hesitou de forma vibrada, e a mesma hesitação passou para a sua investida. O corpo de Ramon ficou livre da força que o mantinha sustento. O garoto resvalou as costas no concreto até cair no chão a menos de um metro. Na queda, manteve-se sentado com a cabeça para baixo e o corpo mole, como se estivesse inconsciente.
Melvin desceu o cajado passando a respirar fundo para que aquele sentimento temeroso se dissolvesse. Dimas olhou para trás, e viu o irmão a salvo. Um silêncio momentâneo se apoderou do recinto.
O rosto de Dimas, voltado para Ramon, virou-se lentamente para o mago. Diferentemente da feição anterior, um sorriso pequeno foi crescendo a cada virada de sua face até se transformar novamente no mesmo sorriso afetado que encarara Melvin anteriormente. As lágrimas pareciam ter cessado inexplicavelmente, deixando as pálpebras secas. Já não aparentava mais desespero, e sim, satisfação como se algo planejado desse certo.
- Você não atua também como nós, Melvin – proferiu Dimas.
Melvin se espantou com a expressão afetada no rosto do garoto. Mas pior ficou quando notou um corpo se erguendo no fundo da sala. Ramon se levantava normalmente, embora de maneira lenta, e não demonstrando sinais de dor. Já de pé, o garoto que fora atacado fitou o mago normalmente antes de dar um sorriso para o mesmo. Dimas falou novamente ao mago.
- Eu disse que nós éramos mestres em atuação, não disse?



Capítulo 18

Os verdadeiros atores



Ramon caminhou a passos desapressados até o irmão. Ambos eram mirados pelo olhar atônito de Melvin.
- Quem? Quem realmente são vocês? – indagou o mago, frustrado, mas curioso.
- Já que quer saber, acho que não faz mal mostrarmos nossa verdadeira identidade – respondeu Ramon, já ao lado de Dimas.
- Sim, eu concordo – assentiu o outro garoto.
Os corpos de Dimas e Ramon passaram a emanar um brilho que se intensificou a cada momento. A luz se tornou tão forte que realçou ainda mais a claridade no recinto. Melvin teve de pôr os braços na frente dos olhos para cobri-lo da incidência daquele brilho.
Com suas silhuetas fulgentes, o formato de seus corpos principiou uma mudança em sua estrutura. O tamanho infantil foi sendo deixado à medida que os centímetros eram adicionados às suas respectivas alturas. Atingiram uma estatura normal para um homem jovem com aproximadamente um metro e setenta e cinco. Dimas apresentava uma altura maior que a do irmão.
Outra alteração paralela também ocorria junto ao aumento da altura: os músculos, que se adequavam a nova estatura dos irmãos. A mudança seguinte, e a última, foi vista de forma saliente em seus corpos. Tratava-se de suas vestimentas que foram alteradas de roupas surradas para algo mais nobre, como foi revelando a lenta supressão da luz que os envolvia. E lá estava a nova imagem de Dimas e Ramon, se é que esses eram os seus nomes verdadeiros.
- Eu sou Hanel! – apresentou-se o que antes era Ramon.
Tinha cabelos de tom azulado bem forte e eram semi-longos e ondulados, que veludavam suas orelhas. O cabelo contrastava com seu rosto branco, não de pele, mas sim porque era pintado com esta cor. Seus olhos eram negros, com uma maquiagem escura, causando mais um contraste além do azul. Havia também um nariz de palhaço, e abaixo dele, a mesma cor vermelha tingia seus lábios.
No pescoço, uma gola rígida o envolvia. Mais embaixo, vestia uma camisa abotoada com botões dourados de tom forte. A linha de abotoamento repartia a roupa em um lado direito azul de mesmo tom do cabelo, e o outro lado branco. Tal divisão incluía as duas mangas compridas da camisa; as luvas; a calça; e as botas. Vendo-o, parecia estar vestido todo azul de um lado e todo branco do outro. Um cinto de couro de tom escuro pendia em sua cintura, onde nele, em seu flanco direito, estava a bainha azul de uma espada.
- E eu sou Lehan – disse o que antes era Dimas.
Assim como o irmão, tinha cabelos azuis, mas no seu caso, eram mais claro, quase esbranquiçado. Além disso, era curto e duro, mas cheios e penteados para trás, de forma que mesmo passando a mão, ele não desarrumaria. A face era também branca, mas sua maquiagem, tanto nos olhos quanto na boca eram menos vulgares e bem amenas em relação à Hanel. A única semelhança exata nessa região era o nariz de palhaço.
A gola era menor, dando para ver parte de seu pescoço. Na roupa, havia apenas uma inversão nos lados das cores. No esquerdo, o azul, e no direito, o branco. Sua espada ficava no mesmo flanco que o irmão portava sua arma, mas devido à troca de cores, a de Lehan era branca.
- Vocês... não são pessoas comuns – disse o mago com um olhar tenso. Queria saber quem eram aqueles indivíduos tão insólitos. – Pelo o que acabei de ver, utilizam uma Esfera Volaki de transformação momentânea. Foi desse modo que conseguiram não só enganar a mim, mas ao Florisval também, estou certo? – Os palhaços não responderam, apenas permaneceram com seus sorrisos como se estivessem achando toda aquela situação engraçada. Mas a feição de Melvin estava longe das mais jocosas. Seus olhos inquiriam respostas para aquele caso. – E então? Vão me revelar o que se passa aqui? – O mago apertou firme o cajado sentindo que eles não cooperariam tão facilmente. – Ou terei de forçá-los a isso?
O olhar intimidador parecia não surtir efeito nas expressões sombrias dos palhaços. Era como se tivessem total controle da situação, mesmo com a ameaça de Melvin, que muito pelo contrário, mostrava-se mais determinante do que estes. O antes chamado Dimas soltou uma rápida risada desdenhosa, e abriu os lábios para ampliar ainda mais seu sorriso. Os olhos se arregalaram num incentivo extasiado. Seu semblante mostrou um aspecto sombrio, um sorriso tenebroso e mórbido.
- E acha que consegue fazer isso? – perguntou Lehan.
A pergunta proferida daquela expressão doentia fez Melvin se instabilizar por um segundo. Seus olhos então fixaram naquele rosto medonho que pareceu crescer a cada instante. Quando se deu conta, estava num lugar totalmente diferente da realidade. Parecia ter mergulhado numa escuridão sem perceber que entrara nela.
“Onde eu estou?” ponderou o mago meneando a cabeça de um lado para o outro, e não enxergando nada além de escuridão.
Adiante, estava a face sorridente e sombria do palhaço erguendo-se soberbamente na frente de Melvin. Quanto mais ela crescia, maior era impressão de que seria esmagado por aquele rosto gigante.
“O que é isso?” Um desespero ascendia à medida que a face cobria sua visão. Tentou correr, mas sentiu seu corpo paralisado, sem ação. “Não consigo mexer! Não consigo mexer!”
Um olhar incrédulo e desesperador se apoderou de Melvin quando percebeu estar indefeso diante da face que assomava até ele. Ela abriu a boca, desfazendo o sorriso tenebroso de antes, e encaminhou-se para abocanhar o mago. Melvin apenas pôde gritar quando a boca o consumiu por completo.
Na realidade, Melvin se encontrava no mesmo lugar de antes. Tremulava bastante enquanto sua cabeça erguida para o alto fitava o vazio, aparentando estar em transe. Demorou um pouco para perceber que estava de volta à realidade. Visava o teto do recinto, que apesar de escuro, não era a mesma escuridão do lugar anterior. Havia um suor gelado em seu rosto. Ele voltou-se para olhar adiante, e lá estavam os dois palhaços com os mesmos sorrisos.
“O que foi isso? Aquela sensação que senti naquele instante... foi como se um medo involuntário brotasse dentro de mim. Mesmo que aquilo não fosse realmente assustador, eu ainda assim a temia de uma forma arrepiante. Apenas... uma alucinação?”
Melvin fitou a feição de Lehan. Atenção mesclada ao medo tomou todas as suas sensações.
- Acho que você pegou leve demais. Ele me parece sóbrio o bastante – disse Hanel, desaprovando o irmão. – Deixe que eu faça isso de uma vez. Infelizmente, não podemos brincar muito com ele.
Hanel iniciou uma passada lenta e destemida na direção do mago, este que retomou toda a sua atenção anterior, mas já sabendo do que eles eram capazes.
“Se o irmão trabalha com ilusões, é provável que o outro também. Talvez ele faça isso com um olhar, então deve ser prudente olhá-lo da cabeça para baixo.”
Melvin tentava armar um modo de lutar, caso o palhaço que se aproximava, tentasse alguma investida. Hanel percebeu o mago evitando um olhar direto com seu rosto. Mas mesmo com a prudência do oponente, o palhaço sorriu ainda mais. Tal defensiva era inútil.
Repentinamente, uma imagem quase transparente do rosto de Hanel surgiu na frente de Melvin, que naquele momento, mantinha seu olhar mais abaixo. Ele recuou a cabeça de súbito, e fitou surpreso, a face fantasmagórica do inimigo.
- Você não quer olhar para mim, mas nada me impede de eu olhar para você – proferiu o palhaço num tom agudo e medonho, soltando uma gargalhada momentânea ao mesmo tempo em que sorria de orelha a orelha, com os olhos esbugalhados. Ela continuou, agora com uma voz hipnotizante. –Duuurrmaaa!
Melvin sentiu suas pálpebras caírem e seu rosto foi decaindo, amolecendo junto com o resto de seu corpo, que no segundo seguinte, desabou no chão. O rosto flutuante desapareceu da mesma forma que surgira.
Hanel se mantera parado quando uma representação ilusória de sua face precipitara diante do mago. Ele agora observava o resultado de sua ação: o mago jazia inconsciente no plano.
- Está feito – disse o palhaço que deixara Melvin desacordado.
- Ainda não – Lehan se aproximou fitando o corpo do mago. – Ainda precisamos tirar a memória dele. – caminhou para perto do painel, e observou dois televisores que mostravam outras pessoas inconscientes. – Não apenas do mago, mas dos outros também. – virou-se para o irmão. – Não podemos deixar pistas de que estivemos aqui.
- Sim, sim, eu sei – proferiu Hanel como se soubesse da importância de tal ação, e que não precisava ter sido relembrado de uma forma mais séria do que de costume pelo irmão.
O palhaço de cabelos azuis de tom forte se aproximou do corpo do mago, e agachou-se. Retirou sua luva de forma elegante, puxando cada dedo de uma vez. Com a mão direita nua, pousou-a sobre a testa da pessoa caída. Uma luz violeta começou a emanar do encontro entre as duas peles.
Hanel fechou os olhos se concentrando. Sua mente procurava encontrar lembranças na memória do outro, tomando como base, sua própria imagem. Logo, as memórias referentes aos momentos que ocorrera há alguns minutos, estavam sendo encontradas e apagadas. O mesmo valia para as lembranças relacionadas ao seu irmão. Em seguida, se concentrou na imagem de Dimas e Ramon, encontrando as cenas em que eles e o mago se conheceram na loja do camponês. Terminando de apagar as memórias referentes a eles, o palhaço tratou de recolocar uma nova versão dos fatos. Não era simplesmente um trabalho de tirar as lembranças de outrora, mas também de alterá-las.
- Pronto – disse Hanel, abrindo os olhos e se erguendo. – Ao invés de fazer uma alteração por cima da memória que queríamos tirar, eu as apaguei primeiro para depois incluir novas lembranças. Desse modo, mesmo que ele force a mente não vai conseguir lembrar-se do que aconteceu.
- Ótimo. Vamos partir para os outros dois.
Lehan e Hanel saíram da sala de segurança, deixando o mago solitariamente desacordado. Alguns segundos depois, as telas no painel atrás dele mostraram os dois palhaços se aproximando do corpo de Florisval.
O camponês era mirado pelos dois indivíduos, e Hanel agachou-se novamente para executar o mesmo procedimento de antes. Tocou a testa da pessoa, e se concentrou para retirar as lembranças deste. De olhos fechados, ele pesquisou todas as imagens de Dimas e Ramon; eram muitas e isso necessitava de um tempo maior.
- Tente não demorar muito – Lehan aconselhou para o irmão, mas que não ouviu nada devido a sua extrema concentração. O palhaço sabia que Hanel não lhe dera ouvido, mas queria expor seu desejo em fala.
O palhaço de cabelos semi-longos rastreava e apagava as evidências de dois garotos. Muitas recordações foram vistas, o que incitou um nostálgico sorriso em seu rosto, que fora percebido pelo irmão. Hanel parou em uma das lembranças, a primeira e a mais importante.

Um camponês de nome Florisval procurava ajeitar os vasos de flores em uma das estantes de sua loja. Ela andara desarrumada por um tempo e necessitava de um rápido ajeitamento. O floricultor caminhava de lá pra cá, ordenando cada flor, vaso, e ajeitando-os de uma forma que chamasse atenção. Além disso, uma vassoura jazia encostada numa estante, e um monte de terra erguia-se no chão diante do objeto. O camponês parecia muito atarefado, e tal preocupação estava denotada em seu rosto.
A luz do sol iluminava vagarosamente pela janela, dando um aspecto matinal a floricultura. Ainda era início de manhã, e por isso a luz era fraca. Florisval acordara antes do galo cantar, para chegar cedo na loja, com o fim de arrumá-la para as vendas naquele dia. O trabalho fez-lhe dar um suspiro cansativo.
- Não sei se vou conseguir tomar conta disso sozinho. É muita coisa pra uma pessoa só.
A porta da floricultura foi aberta, e duas sombras se precipitaram em frente a ela. Quando Florisval ouvir o ranger da mesma, direcionou o olhar para fora e fitou dois garotos que nunca vira antes na vida. Eles eram simples, e trajavam uma roupa gastada, mas o que chamou mesmo a atenção do floricultor era a gentileza em suas feições.
- Bom dia! Nós estamos à procura de trabalho. Será que o senhor pode nos ajudar? – perguntou um garoto de cabelos lisos e curtos. Uma expressão de carência se formou em seu rosto, impressionando ainda mais o camponês.
- Nós precisamos muito de um trabalho. Temos que ajudar nossa família – disse o outro garoto com a mesma feição do que falara antes.
- Vocês... – Florisval ia dizer algo, mas foi interrompido pelo primeiro garoto que lhe falou.
- Por favor! Podemos fazer qualquer coisa. Não precisa nos pagar muito. O pouco que nos der já é o suficiente – A voz carente permaneceu adicionando um tom de imploração. Florisval ficou os olhando por algum tempo sem saber o que responder. Aquilo fora muito repentino, mas ao parar para pensar melhor, pareceu ter vindo na hora certa. Ele delineou um gentil sorriso para os meninos.
- Vocês sabem cuidar de flores? – ele perguntou.
- Não. Mas podemos aprender – disse o segundo garoto com um tom jocoso.
- Claro. Eu vou ensiná-los então – disse Florisval em contentamento.

Hanel retirou sua mão da testa do camponês. Seu irmão o fitou de braços cruzados com um sorriso afetado.
- Oh, o que é esse sorriso saudoso? A nostalgia lhe fez tão alegre assim?
- Não – disse o irmão erguendo-se, e em seguida, olhando para Lehan. – Estou feliz por termos feito uma atuação perfeita.
- Claro. Sei – Lehan falou com ironia, como se a explicação do irmão fosse apenas uma desculpa para seus sentimentos verdadeiros.
- Vamos. Ainda temos mais um trabalho a fazer – Hanel disse voltando a andar, mas querendo cortar o início de um assunto.
Seguiram pelo corredor até chegarem ao jardim de flores. Passaram direito pela ponte e encaminharam-se para o corredor inicial da base. Faltando pouco para o fim do corredor encontraram o corpo desmaiado de Joana.
- Ela é a última – falou Lehan.
- Serei breve – Hanel curvou-se como fez diante dos corpos, e iniciou o processo para apagar a memória dela. Foi necessário menos de um minuto para varrer todas as informações que a mente de Joana possuía a respeito de Dimas e Ramon. – Está feito. Vamos.
Hanel e Lehan prosseguiram, mas poucos passos depois, um murmúrio vindo de trás os fez parar. Joana, deitada de lado, aparentava estar sofrendo em sua face desacordada. Seus lábios se entreabriram para proferir algumas palavras num tom melancólico.
- Mãe... pai... não vão... – Lágrimas começaram a resvalar em seu rosto. - ... Não me deixem sozinha.
Os dois palhaços, pela primeira vez naquele dia, mostraram rostos abatidos e compreensivos.
- Ela deve estar tendo um pesadelo – comentou Hanel.

Joana se via cercada por paredes de fogo onde as chamas dançavam cruelmente para ela. Ela ouviu a voz de seus pais gritando. Os gritos agonizantes pareciam vir de todos os lugares, e sua origem era veludada pelas ardentes labaredas que a cercava. Risadas que ela logo concluiu serem de Adler ecoaram junto ao crepitar do fogo. Tal ambiente infernoso fez Joana berrar de desespero e derramar lágrimas incessantes.

Lehan reaproximou-se da jovem no chão.
- Irmão, o que vai fazer? – perguntou Hanel.
Lehan agachou-se diante da jovem, e tocou sua testa. Uma luz azul emergiu do contato entre a mão e a fronte da moça, assim como o irmão, mas numa cor diferente.
- As pessoas não devem chorar por tristeza. É muita crueldade – disse Lehan.
- Lehan. Você... – Hanel compreendeu os sentimentos do irmão, e por isso ficou quieto, não interferindo no que ele fazia. Alguns segundos depois, Lehan se levantou e notou que a feição de Joana voltou ao normal. As lágrimas ainda mantinham-se como um rio em seu rosto, mas com sua nascente seca.
- Vamos – Lehan voltou a caminhar para a escada que se encontrava a poucos metros dali. – Por hora, nossa missão aqui está terminada.
Hanel olhou o irmão passando por ele, e antes de segui-lo, deu uma última olhada para Joana. Observou que a face dela ainda permanecia em mudança. Um sorriso delineou-se de forma preguiçosa como se algo alegre estivesse sendo revelado aos poucos.
- Ela está sonhando – reparou o palhaço.
Voltou-se para frente e seguiu o irmão que manteve suas passadas.

Joana corria pelo campo florido de certo camponês o qual ela corria atrás. O céu estava azulado e reluzente sobre ela, iluminando as flores de forma majestosa. O ambiente era leve e imerso numa infinda paz e felicidade. Florisval escondeu-se atrás de um homem que a jovem conhecia bem. Este olhou para a jovem, e ela parou quando percebeu que o mesmo começou a lhe dizer.
- Parece que este aqui é um bom homem para você, minha filha. Tenho certeza de que será muito feliz com ele. Esse é um desejo meu – disse Bóris num tom alegre e gentil para a sua filha. Joana sorriu e respondeu a ele.
- Obrigado, pai.
- Venha, Joana! – Florisval voltou a correr chamando a amada para segui-lo. A moça recomeçou sua corrida e deu uma última olhada para o pai.
- Adeus, pai! – ela despediu-se alegre.
Naquele mundo, ela nem se lembrava de que seu pai fora morto. Parecia que sua mente não tomava o mundo real como base, e se apegava unicamente aos seus desejos e sentimentos. Bóris virou-se para a filha, que o via cada vez mais longe como se encolhesse em sua visão. Seu pai esboçava um feliz sorriso enquanto balançava a mão num sinal de adeus.
- Joana, por aqui! – a voz de Florisval fez a mulher olhar novamente para frente.
Ela reparou que estava próxima a uma estufa no meio daquele imenso campo de flores. Aquela era a mesma estufa que ela e sua mãe cuidaram com tanto carinho e dedicação. Joana viu seu amado entrar pela porta. A mesma ficara aberta para que a jovem ainda passasse, enquanto mostrava em seu interior uma imagem totalmente branca e reluzente.
Ao entrar na estufa, ela reparou com muita graça, a magnificência do lugar. Um sentimento nostálgico a tomou, fazendo seu sorriso e sua felicidade transbordar ainda mais quando olhou sua mãe regando um canteiro adiante. Tomada por uma sensação de êxtase, ela correu até a mãe. Esta se virou ainda agachada e com um sorriso contente.
- As flores dessa estufa ficaram muito bonitas. Nós fizemos um belo trabalho, minha filha.
- Sim, mãe. Obrigada – ela respondeu, feliz.
- Joana, venha – chamou Florisval.
- Vá. Seu amado está lhe esperando – disse a mãe de Joana para esta. A filha fez um movimento concordante com a cabeça, e despediu-se da mãe, pondo-se a correr para a outra porta da estufa.
- Não se esqueça de cuidar das flores – gritou a mãe antes que a filha pudesse chegar na porta. Ela olhou para trás uma última vez, e sorriu, contente.
Ao abrir a porta, o mesmo brilho de quando entrou na estufa, tomou o próximo local. Ela passou pela camada branca e encontrou-se novamente no campo florido. Dessa vez não havia nenhuma instalação ou pessoas, além das flores, e de Florisval, à frente de Joana.
- Esse é o nosso lar – ele disse.
Joana caminhou até ele com um olhar apaixonado. Florisval fez o mesmo. Ambos se encontrarão. E o campo mudou de forma repentina, como se um vento avançasse pela região transformando todas as suas flores em rosas vermelhas. O casal em meio ao campo se entreolhou e ambos afagaram os rostos de cada um. Para selar aquele momento único, se beijaram.

Joana sorria como nunca, e a nascente do rio de lágrimas que escorria pelo seu rosto foi retomada, mas dessa vez, brotando de sentimentos benignos. Tal frase pronunciada por Lehan, antes de se afastar, combinava com aquele momento.
“As pessoas não devem chorar por estarem tristes, devem chorar por estarem alegres.”

8 de novembro de 2009

Capítulo 17 - Revelações no Refúgio da Esperança

- Como assim não há mais alguém aqui? – indagou Joana, mirando o cenho preocupado do amado. Tal fisionomia a deixou incomodada. Tinha dúvidas do quanto aquilo poderia ser ruim. – Quer dizer que... naquela hora... alguém fez aquele gás jorrar dentro da sala.

- É a única explicação possível. Entretanto, me parece pouco provável – disse o camponês colocando a mão sobre o queixo, ponderando a veracidade de sua conclusão.

- O que quer dizer?

- Para alguém entrar no Refúgio da Esperança, precisa ser um dos escolhidos para entrar aqui. Esse lugar conta com um sistema de segurança tecnológico que vai além da compreensão da humanidade atual – Neste meio tempo, Joana divisou os momentos em que ela se vira confusa diante de muitas coisas que não sabia o que era e para que servia. Florisval continuou. – Logo, não acho que possa ser qualquer pessoa. Apenas alguém que conhece este lugar sabe como entrar nele. Mas até o Melvin disse que nunca ouvira falar desta base, e muito menos colocara os pés aqui dentro no passado. Significa que os escolhidos a entrar no Refúgio não são apenas aqueles que o construíram, mas também aqueles que receberam uma confiança.

- Florisval, se essa pessoa é mesmo um escolhido como você falou, ele não deveria ser alguém de confiança e que estivesse ao seu lado? – perguntou Joana tirando a conclusão que podia daquela situação.

Mesmo que não tenha em mente a complexidade daquele sistema, ela começava a entender alguma coisa. Afinal, seres humanos são seres adaptáveis em qualquer circunstância. E não é por ela estar num ambiente mais avançado, que sua mente não conseguiria interpretar o que a cercava.

- É. Seria uma boa lógica, mas eu não acredito nisso. Ou melhor dizendo, meu pai não acreditava. Estava na carta que ele me deu.

“Não conte para ninguém, mesmo se um mago aparecer na sua frente.

- Eu nem mesmo podia confiar no Melvin totalmente até perceber o tipo de pessoa que ele era – continuou o floricultor. – Qualquer um que tiver conhecimento deste lugar pode ser bom ou mau.

- Então, o que vamos fazer? – perguntou a jovem, sentindo-se um pouco amedrontada com a situação. Mas tal temor era amenizado pela fidúcia que tinha em seu amado.

- Eu preciso descobrir quem é a pessoa que está aqui. Ele não pode ter entrado sem ao menos eu ter notado. Nestes últimos dias, os únicos que estiveram na base foram apenas eu; o Glin, na noite passada; e você e o Melvin agora – Florisval suspirou, e olhou determinadamente para a ponte sobre eles que ligava os dois lados daquele paraíso cheio de flores. – Só tem um lugar aonde posso descobrir onde o intruso se encontra: na sala de segurança. – Ele então se voltou para a namorada. – Venha comigo. Vamos subir até a ponte.

Dito isso, ele e Joana precipitaram-se até o elevador. Na segunda vez em que utilizou aquele transporte, a jovem não parecia estar com tanto medo como da primeira vez, até porque, uma preocupação maior rondava sua mente como se algo ruim estivesse prestes a acometê-la. Chegaram na ponte. Saíram do elevador e se posicionaram ao lado do mesmo. Os dois se olharam.

Florisval retirou uma flor Miosótis do bolso de seu colete e a entregou para Joana.

- Eu irei até lá. Joana, você vai direto para a saída. Quanto mais cedo sair deste lugar melhor.

- Mas e quanto a você? – preocupou-se a moça.

- Eu irei até a sala de segurança e verei pelos monitores se encontro o intruso. Além disso, Melvin também está do outro lado. Preciso achá-lo antes que algo ruim caia sobre ele. Esse lugar tem muitos sistemas de defesa bem perigosos pelo o que já li em relatórios. Por isso, você tem que correr o mais rápido possível até a saída. Sabe onde ela fica e como fazer, não sabe?

- É... só pedir a flor para sair, não é? – perguntou Joana, assentindo com a idéia, mas ainda preocupada. Ela pegou a flor e a apertou contra o peito. – Florisval, eu... – dizia hesitantemente com um olhar temeroso. - ... estou com medo. Vai ficar tudo bem, não vai? – ela perguntou.

O floricultor pôde notar o olhar sobressaltado que ela tentava esconder. Num lugar como aquele, e vivenciando uma situação como aquela, era compreensível que ficasse daquele jeito. Mas o medo e a preocupação de Joana era o que Florisval não aceitaria. Ele então sorriu.

- Não se preocupe. Eu ficarei bem. Nós ficaremos bem.

Ele aproximou o seu corpo do dela, e afagou sua mão delicadamente na face assustada da jovem, que foi deixando o temor de lado e se rendendo aquele gesto carinhoso. Florisval então tocou os seus lábios no dela. Mas foi um beijo tão rápido que nenhum dos dois teve tempo de aproveitá-lo, entretanto, foi o suficiente para o floricultor fazer a confiança que ela tinha nele se tornar plena. Joana sentiu naquele momento que tudo acabaria bem.

- Estarei lhe esperando – ela disse devolvendo o olhar afetuoso que recebia.

Florisval então se virou e começou a andar até a porta dupla por onde Melvin entrara. Joana ainda permaneceu com seu olhar observando a imagem de seu amado. Ela queria rumar logo para a saída, mas ficou um momento parada, apenas fitando-o se distanciar.

- Ficaremos juntos – ela disse sorrindo, e pondo-se a andar para o lado oposto.

. . . . . . . . . . . . . . . . . .

Uma das câmeras que jazia naquele imenso lugar cheio de flores mostrava um casal se distanciando um do outro. Tal imagem era levada para uma das telas na sala de segurança. Dois indivíduos observavam a imagem de Joana e Florisval rumando em direções contrárias na ponte. O homem queria adentrar mais na base, enquanto a outra queria sair.

- Será que eles nos descobriram? – perguntou uma voz.

- Eu não sei – respondeu outra pessoa. – Mas de uma forma ou de outra, teremos que abatê-los.

- A mulher parece estar indo para a saída. Florisval a entregou a Miosótis. Enquanto isso, o Guardião parece adentrar nos recintos da base. Ele está vindo atrás do mago ou de nós?

- Quem sabe? Mas não podemos permitir os dois caminhando por aí. Deixaremos o mago por último. Por hora, vamos dar um jeito no recém-casal.

- Eu irei até o Guardião. Você fica aqui e cuida da mulher.

- Oh, isso me soa como uma ordem – falou a pessoa, num tom irônico.

- Por favor, irmão. Eu quero ver a surpresa na expressão dele quando me revelar – proferiu o outro, seguido de uma risada.

Capítulo 17

Revelações no Refúgio

Os passos apressados de Joana reverbavam unicamente pelo corredor que daria para a saída daquela base. Ela divisava o caminho, temerosa com algo que pudesse dar errado. Aquele lugar ainda lhe causava estranhamento e medo.

Virou o corredor onde havia a escada de metal no fim, e a porta para a sala de monitoramento à direita. Ela se precipitou até o final daquele local, porém, após seus primeiros passos, tomou um susto que a fez parar de súbito. Uma mureta metálica saiu da parede lateral e fechou totalmente o corredor na frente de Joana. O estrondo do muro batendo na parede lhe estremeceu.

Com o caminho fechado, ela voltou-se rapidamente para trás, impulsionada pelo medo. Mas quando deu apenas um único passo, mais uma divisória surgiu da parede e fechou o caminho. Ela estava presa.

- O que é isso? O que está havendo?

Logo após suas perguntas proferidas num tom apavorado, ela ouviu um som conhecido há poucos momentos. Novamente, alguns compartimentos estavam sendo erguidos nas duas paredes, e por eles, um gás vermelho foi lançado naquele âmbito recém-formado.

- Oh, não! – desesperou-se Joana pondo a mão da boca enquanto começava a tossir.

Ela sentiu a mesma sensação que sentira quando o mesmo gás fora lançado na sala de monitoramento. Seus pés começaram a vacilar, assim como suas pálpebras que foram se fechando lentamente.

Joana desabou no chão, mas ainda com consciência. Ela conseguiu manter seus olhos semi-abertos por mais alguns instantes, porém, apenas a visão embaçada do gás podia ser visto. Ela arrastou sua mão provida de força pelo chão, e murmurou uma última palavra de preocupação antes de perder a consciência.

- Florisval...

As duas muretas que cerravam o caminho da jovem e a mantinha presa retornaram a parede. Com isso, o gás se dispersou rapidamente após causar o efeito desejável. Joana encontrou-se inconsciente a poucos metros da saída.

Uma câmera de vídeo na parede observara toda a cena.

. . . . . . . . . . . . .

Florisval colocou o rosto ao lado da parede para observar alguma movimentação no próximo corredor. Percebendo o silêncio prevalente naquele lugar, ele saiu de trás da parede e entrou no corredor seguinte.

Toda a cautela era necessária naquela situação. Torcia para que o intruso não estivesse na sala de segurança, que era o local para onde rumava, pois assim, todos os seus passos estariam sendo monitorados pelas câmeras. E por falar nelas, o camponês até encarou uma delas por alguns instantes, imaginando se alguém estaria o vendo.

Mas além de achar o invasor, procurar o mago para avisar de um possível perigo, também era importante. Florisval concluiu que Melvin estaria na ala exclusiva para magos, como ele mencionou antes de se separarem. Se ele realmente estivesse lá, não há nada que o Guardião pudesse fazer já que não possuía autorização para entrar naquele setor.

Florisval chegou ao corredor onde este se dividia em dois: para a esquerda e para a direita. Ele primeiro encostou-se na parede esquerda e analisou o que havia no corredor direito. Estava escuro demais para dircenir alguma coisa ou até mesmo algum movimento. Apenas algumas lâmpadas estavam ligadas e ainda assim, numa claridade mínima. Algo de certo muito estranho, pois Florisval sabia que iluminação naquela área era o menor dos problemas. Significava que alguém havia alterado na parte de luminosidade daquele setor.

O Guardião virou-se de costas e recuou alguns passos para encostar-se na parede da direita e divisar o corredor esquerdo. Assim como o do lado oposto, este também se encontrava na escuridão mais ao fundo. A sala de segurança ficava no corredor da esquerda, mas ele queria checar se haveria alguém em sua retaguarda.

Florisval seguiu pelo corredor que o levaria à sua meta. Executava a caminhada mais sutil e silenciosa possível. Sua visão sempre tentava enxergar alguma coisa na escuridão que encobria toda a extensão do caminho. Até mesmo seus ouvidos procuravam se atentar ao menor dos barulhos.

Foi então que tamanha atenção e cautela valeram à pena. Florisval captou um som vindo de atrás dele. Estava bem fraco, porém, executado em intervalos regulares e cada vez mais audíveis. Passos ecoava no cenário enegrecido, no outro lado do corredor.

- Quem está aí? – perguntou o Guardião vendo a aproximação de alguém.

Os passos ficaram mais fortes ansiando ainda mais o surgimento daquele que o executava. Florisval ficou estático, apenas esperando aquele indivíduo irromper na escuridão.

- Melvin, é você? – perguntou mais uma vez, já que sua pergunta anterior ficara sem resposta. Mas novamente, ouviu apenas os passos como réplica.

Uma silhueta mostrou seu contorno na escuridão e a imagem daquela pessoa se revelou. Florisval arregalou os olhos e ficou inerte com a presença daquela figura. Tal indivíduo que delineou um sorriso afetado.

- Impossível. Você? – disse o camponês, pasmo.

. . . . . . . . . . . . . . . . .

- Eu não acredito – disse Melvin, olhando a figura do pai no televisor. – Não, eu não deveria estar surpreso. Afinal, um lugar desse porte não poderia passar sem o conhecimento do Mago Supremo: aquele que governa Nerus, a cidade dos magos, e todos os que habitam nela. Também responsável por guiar os povos do mundo para uma paz permanente. – Melvin mudou sua fisionomia ao olhar a face do pai que ainda mantinha-se quieta. – Ainda assim, vê-lo de novo é nostálgico pra mim.

- Eu não sei quem é você, ou quem são vocês que estão assistindo este vídeo em alguma época futura – principiou Zailon. – Mas não importa em que tempo esteja, tenho certeza que esse lugar lhe será útil. Apesar de que eu espero muito que não seja necessário usar este local com a mesma intenção de seu nome: Refúgio da Esperança. Tal nome pode nos dar esperança de vencermos algum obstáculo, mas ao mesmo tempo, indica que estão numa situação ruim para ter de usar esse lugar como um refúgio. Eu... – O cenho de Zailon ficou melancólico. -... não quero pensar que guerras de escala mundial estejam acontecendo no futuro. É realmente muito frustrante e lamentável estarmos passando por uma situação dessas. – Zailon suspirou pesadamente e tornou a falar. – Estamos em meio à chamada “Guerra das Energias”. Uma guerra que está envolvendo todo o mundo como há muito não acontece. Dessa vez, os causadores da guerra e os motivos que a levaram foram bem diferentes de outrora. Tenho conhecimento de que é nossa culpa. Culpa dos magos que não souberem fazer o trabalho que o destino lhes incumbiu de realizar. Nós falhamos, e esses erros nos custaram caro. Não só a nós, mas a todos. O resultado disso é que várias raças estão sendo dizimadas. Os reinos humanos estão decaindo. E se continuar assim, eventualmente, não sobrará mais nada neste planeta. Eu não sei qual o rumo que esta guerra tomará, mas espero que seja com um final feliz. E espero que a pessoa que esteja vendo esse vídeo não precise deste lugar para funções bélicas.

Um chamado de “senhor” foi ouvido muito abafado na tela. O olhar de Zailon olhou para alguém de soslaio. Ele fez um gesto de assentimento e prosseguiu.

- Eu não tenho muito tempo. Então explicarei para aqueles que desejam saber a história por trás do Refúgio da Esperança. Não faz muito tempo, o Exército Espectral chegou ao Continente Oeste e arrasou dois reinos menores. Agora há apenas o reino de Nandred ao norte, e Seylor, o reino de maior poderio militar dos Homens, ao sul. Os Espectros desembarcaram no meio do continente, talvez ainda pensando para qual dos reinos a tropa seguiria. Eles então foram para o sul, encaminhando-se para Seylor. A partir daí, o que houve no caminho foram apenas massacres. O Exército Maligno arrasou campos, vilas, cidades, e qualquer coisa que encontrasse pela frente. Quando chegamos ao Continente Oeste, eles já haviam avançado quase a metade do caminho até Seylor, mas ainda assim, tentamos interceptá-los o máximo que podíamos. Não era fácil, pois além dos Espectros, havia dois Lords Malignos com eles: Akiros e Hinaro. O poder deles não é nada comparado ao de Raizen, mas mesmo assim, abatiam facilmente todos os soldados, até mesmo magos de uma forma incrível e avassaladora. Então, reforçamos nossa barreira de tropas que os impedia de avançar para o reino do sul. Em contrapartida, os Espectros começaram a dividir seus exércitos, e por conta disso, também fomos forçados a dividir nossa força de combate. Nós estávamos levando muitas desvantagens, e então tivemos a idéia de criar uma base nas proximidades onde as batalhas estavam sendo travadas. Aproveitamos também que as flores mágicas depositadas no Jardim Secreto de Nerus chegaram ao continente. Eu convoquei todos os Generais em meio à guerra, e deixei os Tenentes distraindo os Exércitos com inúmeras barreiras mágicas consecutivas. Isso nos faria ganhar tempo para construir... o Refúgio da Esperança.

- Esse lugar... – Melvin murmurou.

- Sim. O Refúgio da Esperança foi construído para abrigar os magos que duelaram na Guerra das Energias. Com as flores mágicas guardadas nesse local, a recuperação dos magos em meio à guerra seria rápida e o contra-ataque às tropas inimigas iminente. Entretanto, nem tudo saiu como planejado. Meu intuito não era trazer apenas os Generais para essa base, mas também todos os outros magos. Até descobrirmos que nem todos eram confiáveis. Parece que alguém, além das tropas do Exército Espectral, estava participando sorrateiramente da guerra, sem lutar, sem se ferir, apenas observando e manipulando aqueles que achava necessário estar ao seu lado. Muitos dos nossos magos se corromperam e seguiram os Magos Negros, acreditando que conseguiriam poder e sobrevivência num novo mundo. Pelo menos, foi isso que eu ouvi.

- Magos negros... – sibilou Melvin, rememorando algo no passado que deixou vago, para prestar atenção nas próximas palavras do pai.

- Para criar o Refúgio da Esperança, escolhemos uma área próxima à cidade de Govenrrar, ainda a salvo das tropas malignas. Nós o criamos utilizando o poder habilidoso de um mago construtor, e junto com a inteligência dos midrianos, construímos um lugar de alta tecnologia. O objetivo de toda essa modernidade não era de causar uma sensação estranha e ao mesmo tempo majestosa, mas de facilitar e dividir o acesso de certas áreas a certas pessoas. Como eu havia dito antes, eu apenas convoquei Generais para esta base, e justamente eles que estão sentados nesta sala no momento. Para dar apoio aos nossos batalhões, cada General, responsável por sua própria tropa, levava as flores necessárias para o uso. Assim, cada parte de nosso exército pôde se recuperar facilmente, uma vez que os Generais recorriam a este lugar para levar os remédios feitos das flores, como em alguns casos, para os outros magos. Esse foi o uso principal do Refúgio da Esperança. Ele realmente seria um refúgio se a situação ficasse alarmante. Mas felizmente não foi o caso. No presente momento, as forças espectrais não estão mais no continente, bem como Akiros e Hinaro. O primeiro, morto pelo rei de Seylor, e o segundo, desaparecido. Mas estou deixando esse vídeo, pois quero deixar claro o que foi este lugar com minhas próprias palavras, com o meu ponto de vista, e com minha própria face exposta a quem estiver vendo esse documentário. Eu e os outros magos iremos deixar este local agora, se possível por um bom tempo. Deixaremo-nos sob responsabilidade de um humano muito gentil e responsável. Ele será o Guardião desta base. Qualquer dúvida basta apenas falar com ele.

- Entendo. Então essa é a história – falou Melvin, prestando novamente atenção ao que o outro falava.

- Uma base tão importante como essa, com todas as suas peculiaridades apresentadas, precisa de um forte sistema de segurança. E nisso, contamos com a tecnologia de Midria, uma raça com uma inteligência muito avançada, assim como as técnicas e os costumes diferenciados em sua sociedade. Com tal tecnologia de defesa, o invasor que não conhece - lá se sentirá num lugar hostil onde ele poderá recuar perante as armadilhas para capturá-lo, ou simplesmente tentará se aventurar mais adentro deste complexo, onde as chances de morrer podem ser altas quanto mais dentro ele estiver.

Melvin sabia que Joana sentira tal sensação quando entrara pela primeira vez no lugar. Mas por sorte, nada de ruim acontecera a ela.

- A base tem duas entradas e saídas. A primeira é através da Miosótis, que deve ser usada na casa do Guardião, e assim será aberta uma passagem para o primeiro corredor antes do jardim de flores. Neste corredor, há uma recinto onde o Guardião ou outra pessoa de confiança à ele, ficará observando a região acima da base. Há diversas câmeras espalhadas no campo, na casa, na estrada, na trilha da montanha, e em algumas cavernas, e dentre estas, está a segunda entrada para o Refúgio. Escondido atrás de uma parede secreta há um elevador que desce direto a ponte. Ela é considerada uma entrada e saída de emergência. Mas voltando para a entrada principal na casa do Guardião, há uma porta que apenas poucos podem entrar. O leitor possui em sua memória as impressões digitais de diversos indivíduos de confiança, logo, apenas esses poderão passar. Após essa porta, terá mais uma barreira com mais um componente de segurança. A camada protetora, chamada de Membrana, se encarrega de deixar passar apenas aqueles com o sangue compatível com a identidade. Além das digitais, nossos dados também carregam as informações sanguíneas de cada pessoa. Depois dessas duas defesas, estará o jardim de flores sob a ponte. Para usar o elevador para a saída emergencial, apenas com a impressão digital, assim como a porta de entrada para os recintos do complexo. Em seguida, haverá alguns corredores com algumas salas, cada uma com sua função. Importantes ou não, especificarei apenas uma: a sala de segurança. Esta sala monitora toda a base, contando com as inúmeras câmeras acopladas em diversos lugares. Assim, aquele que estiver como monitor poderá usar os métodos de segurança para impedir a ação de qualquer invasor. Há diferentes artifícios, manuais ou automáticos. Por exemplo, na primeira sala de monitoramento antes da ponte, através de um processo manual, podem-se jogar vários tipos de gases letais ou nem tanto letais. Ou quando uma pessoa não registrada passa pela camada protetora, ela é simplesmente desmoleculizada. Um outro sistema que também é manual, é a segurança da sala exclusiva para magos, onde alguns projetos de robôs com finalidade ofensiva são soltos no recinto principal.

Melvin franziu a testa, mas não por reconhecer que sofrera de tal sistema de segurança momentos antes, mas sim, por este ser ativado manualmente. Ignorando esta dúvida, ele continuou a escutar.

- Na sala de segurança, apenas magos também podem acessar certos dados, assim como certas portas ao longo da base – Uma outra voz interrompeu a fala de Zailon enquanto ele gravava o vídeo. O mesmo desviou o olhar para o lado da câmera.

- Senhor, temos que ir – alertou a outra pessoa no vídeo. Sua voz era adulta, mas tinha uma certa preocupação em seu tom. Zailon assentiu e voltou a fitar a câmera de frente.

- Parece que essa gravação termina aqui. Embora tudo o que eu tenha dito soe no passado como se tudo estivesse tranqüilo, digo-lhe que essa não é a verdade. Ainda estamos em guerra. Mas eu acredito que um dia essas minhas palavras farão sentido, pois acredito no futuro. E falando nele, essa base poderá ser útil. Em uma nova guerra, em uma nova época, esse lugar pode ser novamente usado. Mas quero eu... que isso nunca aconteça. E, eu tenho mais uma coisa a dizer – Zailon parecia relutar em continuar falando. Fitou o chão como se procurasse força para dizer algo. Levantou o olhar e mostrou uma pesada expressão. Melvin fitou bem o pai, algo no semblante melancólica que via, tocou em seu sentimento. – Adeus a todos! – Após a fala carregada de pesar, a tela chiou, e apenas o branco e o cinza puderam ser vistos.

O mago de cabelos lilás ainda olhava para a tela, com a mesma expressão que o pai demonstrara.

- Você sabia... Você sabia que iria morrer, não é, pai? – Melvin abaixou o rosto entristecido. Algumas lembranças surgiram em sua mente. Lembranças de um penhasco tenebroso e lúgubre.

Após recuperar-se de seu estado sorumbático, Melvin voltou-se para a realidade, processando todas as informações que conseguiu por aquele vídeo. Uma delas o perturbava.

“Um outro sistema que também é manual, é a segurança da sala exclusiva para magos, onde alguns projetos de robôs com finalidade ofensiva são soltos no recinto principal.” Lembrou ele, as palavras do pai.

A menção de Joana de ter sido lesada na sala de monitoramento, e a última hostilidade que ele mesmo sofrera há poucos instantes incitaram uma conclusão alarmante.

Essa informação fazia-lhe pensar em algo intrigante.

“Defesas manuais... Isso quer dizer que...”

Após a conclusão, Melvin correu para a saída da sala o mais rápido que pôde. Tinha que ir a sala de segurança naquele exato momento. Passou pelo recinto largo, ignorando o robô ainda quebrado no chão. Algumas câmeras nesta mesma sala viraram-se para a pessoa que corria no meio do recinto. As imagens eram transmitidas para os monitores da sala de segurança e observadas por dois indivíduos.

- Venha, mago – disse um deles.

- Estamos esperando você – completou o outro, soltando uma risada em seguida.

Melvin entrou no corredor correndo determinadamente para a sala que não era muito longe. Poucos segundos depois, após ter virado uma curva à direita, já avistava a porta dupla que teria de entrar.

- Ali!

Colocou o dedo no leitor da porta e ela abriu-se lateralmente. Ele correu até o painel e olhou ao redor da sala. Não havia ninguém. O pique que dera até o lugar deixou-lhe um pouco cansado, mas em seu estado normal aquilo não aconteceria.

Ninguém foi avistado. Melvin era o único indivíduo naquele recinto. Voltou-se para os monitores a fim de encontrar Florisval e Joana. Após rolar os olhos em alguns, impressionou-se com o que achou.

Em um deles, Joana estava estendida no chão do primeiro corredor. Ele não sabia se ela estava morta ou apenas inconsciente, mas deduziu ser a última opção, pois não encontrou ferimentos no corpo dela. Melvin queria ir até a mulher, mas preocupou-se também com o camponês. Se Joana estava naquele estado, onde estaria Florisval, já que ambos estavam juntos há poucos minutos? Não demorou muito para o mago descobrir.

- Florisval! – disse o nome bem alto daquele que viu em um dos corredores próximos a sala de segurança. Melvin deduziu que o camponês estava indo encontrá-lo enquanto Joana estava tentando sair da base.

“Será que foi apenas uma decisão deles, ou eles perceberam que havia mais alguém aqui, e por isso Florisval mandou Joana sair? Faz sentido, pois os dois foram pegos. Mas estão em lugares muito distantes. Será que ele atacou Florisval primeiro, para depois perseguir Joana antes que ela saísse da base. Mas quando foi isso? E o ataque com aqueles robôs? Talvez não seja apenas uma pessoa. Podem ser até mais.”

Enquanto Melvin refletia aquela perigosa situação que se formava, seus olhos procuravam algum movimento nos monitores.

“Ele ou eles ainda devem estar aqui. Afinal, eles não conseguiram me pegar, se é o que tentaram agora há pouco. Talvez seja melhor eu ver Florisval e Joana, mas se eu fizer isso, deixarei esta sala vaga. É por esse lugar que se controla todos os sistemas de defesa.”

- Droga! Não posso sair daqui. O invasor com certeza voltará para esta sala. Apenas assim ele tem controle total da situação.

- Você tem razão – proferiu uma voz naquele mesmo recinto.

- Sim, você tem toda razão – adicionou uma outra voz. Ambos eram tons infantis, mas o mago vagamente reconheceu aquelas falas. – Sabíamos que se fosse inteligente, viria para cá.

- Mas é uma pena que não tenha notado nossa presença aqui – a outra voz falou, rindo um pouco de maneira afetada. – Não é de se surpreender. Afinal, passamos tanto tempo perto de você, e nunca notou nada.

Melvin ainda de costas, pôs-se a virar para as duas figuras que se encontravam no fundo da sala. Estreitou os olhos já sabendo de quem se tratavam antes de visá-los.

- Eu nunca imaginei que seriam vocês. Enganaram-me completamente desde o dia em que os vi – O mago virou-se completamente para confrontar os dois indivíduos na outra ponta do recinto. Os dois garotos mostraram sorrisos afetados diante de Melvin, que olhou para cada um deles, pronunciando seus respectivos nomes. – Ramon e Dimas!